Contos de Outubro
9 Isca
Durante toda a sua infância, lhe disseram para sempre ter cautela ao andar sozinho, e ele havia sempre levado a sério os conselhos de sua família. Mesmo depois da maioridade, ainda era muito cauteloso ao vagar pelas ruas sozinho durante a noite, quando voltava para casa de sua faculdade.
As ruas sempre eram vazias, mas naquela noite fatídica de outubro estava tudo especialmente deserto, como se a cidade nunca tivesse sido habitada. Só esse fato já era o bastante para deixar o garoto em alerta.
O ar gélido da madrugada afagava sua pele pálida, fazendo alguns arrepios passarem por seu corpo. Uma leve fragrância de asfalto molhado ainda pairava no ar, visto que havia chovido mais cedo naquela noite. As nuvens ainda cobriam o céu, porém vez ou outra um raio de luz da lua invadia o cenário. O único som que a noite produzia era o eco de seus passos reverberando pelas ruas e becos. Portanto, foi fácil notar um leve choramingar vindo de uma praça nas proximidades.
Intrigado pelo som, o rapaz adentrou a praça com cautela. Ao que se aproximava do som, mais claro ele ficava e mais parecia o choramingar de um bebê, o que deixou o rapaz preocupado. O que um bebê estaria fazendo numa praça tão tarde da noite?
Enquanto ele seguia o som praça adentro, não pode deixar de notar um sentimento estranho. Se sentia observado, como se milhares de olhos estivessem sobre ele, porém ele estava sozinho naquela praça. Quanto mais se aproximava, mais desconfortável o rapaz se sentia. Começou a ouvir sons de folhas se movendo, como se algo estivesse se escondendo por entre os arbustos bem podados da praça, mas a curiosidade era maior que seu desconforto, então ele continuou seguindo o choramingar.
Choramingar este que, aos poucos, ficava mais intenso e se transformava em choro e até em gritos. Seja lá o que esteja acontecendo com este bebê, não pode ser bom.
O choro ecoava por todo o lugar como se estivesse sendo transmitido de um megafone, o que acabou abafando o som de folhas que ele ouvira anteriormente. Porém o choro também abafou os mais sutis sons de sussurros e passos, como se pequenas criaturas corressem por entre as árvores e arbustos e sussurrassem para que o garoto desse meia volta e nunca mais retornasse àquele lugar. Porém ele não conseguiu ouvir os avisos.
Se aproximando de um conjunto fechado de árvores, o rapaz avistou uma pequena cesta preta no chão, decorada com algumas almofadas e cobertores pequenos cercando um pequeno bebê de pele muito pálida, chorando. Na hora, o rapaz se abaixou para pegar a cesta em suas mãos, falhando em notar as dezenas de olhos brilhando por entre as árvores, formando esta enorme silhueta que aproximava seus grotescos tentáculos do garoto, que havia acabado de morder sua isca.
No dia seguinte, um corpo foi encontrado naquela praça, porém era muito difícil de identificar o cadáver, visto que estava cortado ao meio e a parte superior não foi encontrada.
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