Contos de Outubro
10 Curiosidade
Ele havia a conhecido em um pequeno e aconchegante café no centro da cidade e, desde então, o rapaz não conseguia tirar ela da cabeça. Seus belos cabelos dourados complementavam de maneira perfeita o verde de seus olhos. Ela estava sempre sorrindo, e aquele sorriso era sempre radiante, conseguindo iluminar o dia do rapaz em um piscar de olhos.
Os dois pombinhos já estavam juntos há algum tempo e eram uma combinação perfeita, ambos se entendiam e tinham muita coisa em comum, sempre se sentiam bem na companhia do outro. Seus amigos não gostavam muito da garota, pois diziam que ela era estranha, que tinha algo nela que não parecia certo. Ele não ligava muito para esses comentários pois, para ele, a garota era um anjo que havia caído em sua vida.
Porém, algo que incomodava o garoto era o fato de que ele ainda não havia sido apresentado a seu sogro. Ela já havia ido em sua casa conhecer sua família e até que se deu muito bem com seus pais, porém ele ainda não havia tido essa experiência. Toda vez que ele comentava sobre isso, ela parecia desconfortável e imediatamente mudava de assunto.
Em um de seus encontros, entretanto, a garota parecia diferente, como se estivesse ansiosa ou escondendo algo. Naquela noite de outubro, assim que o casal assistia o por do sol juntos, a garota decidiu revelar o motivo de seu nervosismo durante o dia. Ela iria finalmente o apresentar a seu pai.
O garoto exclamou em felicidade e alívio. Agora seria oficial. Ele finalmente iria conhecer a família da garota por quem estava apaixonado, e poder se apresentar como seu namorado. Sem demora, o casal guardou o pequeno piquenique que faziam e o garoto alegremente seguiu a liderança de sua namorada, para finalmente conhecer seu sogro.
Porém, o rapaz começou a ficar apreensivo durante o caminho, visto que estavam entrando em uma parte... Não muito segura da vizinhança. Mais especificamente, um bairro bem deserto, com algumas florestas e um alto índice de mortalidade. Principalmente depois do aparecimento repentino de um assassino em série, que ainda estava a solta.
Sem falar nada, o garoto continuou seguindo. Entretanto, sentiu um grande frio na barriga quando a garota, sem dizer nada, apenas entrou no cemitério da cidade. Ele se sentiu mal, pois havia entendido agora o motivo dela sempre mudar de assunto quando ele perguntava sobre seu pai. Não deve ser um assunto fácil de se discutir.
O garoto ficou ainda mais desconfortável quando foi levado até uma grande e escura cripta. Ele podia ouvir os passos de ambos ecoando pelas paredes de pedra e concreto, enquanto eles desciam por uma escada que parecia ser infinita. A garota havia ligado a lanterna de seu celular, e esta era a única fonte de luz do local. Ambos estavam calados, e uma grande tensão estava no ar. O rapaz estava muito apreensivo. Com certeza, ele havia a magoado, e por isso os dois estavam ali, caminhando em direção á cova do pai da garota. Então ele escolheu não dizer nada durante o caminho, para não piorar a situação.
Ao fim da escada, havia um corredor com algumas tochas acesas, então a garota desligou sua lanterna e pegou a mão do rapaz, simplesmente murmurando um "Me siga". E o rapaz a obedeceu sem reclamar.
Mais alguns minutos se passaram com a garota o guiando, fazendo curvas em bifurcações e seguindo um caminho que parecia ser decorado. Ao que os dois se aproximavam, era possível sentir um cheiro muito ruim, como se algo estivesse apodrecendo naquele local. As paredes cinzentas e frias se tornavam uma cor cada vez mais escura, até chegar a um preto tão escuro que quase não refletia a luz das oscilantes tochas sobre a parede. A textura de pedra fria aos poucos se transmutou em algo gosmento, grosso e gelatinoso, como se uma grossa camada de sangue negro cobrisse as paredes e teto. O rapaz ouvia seu coração bater tão rápido que parecia querer sair pela boca, ele estava completamente amedrontado. Porém, aos poucos, notou que não era apenas seu coração que ele ouvia batendo, mas também um leve palpitar ecoando na distância.
O garoto estava se questionando seriamente sobre aonde ele havia se metido. Aquilo não era algo normal. Talvez ela estivesse pregando uma peça nele, mas a falta de expressão em seu rosto o fazia duvidar disso. De qualquer forma, ele seguiu em frente. Apesar do medo, estava curioso para ver o que o aguardava no fundo daquela cripta.
Ao chegar naquele salão aberto, o rapaz se arrependeu profundamente de não ter dito nada durante o trajeto.
O lugar era enorme e todas as superfícies eram cobertas por aquela gosta preta estranha, que exalava um odor pútrido e nauseante, o que quase chegava a disfarçar o cheiro de carne podre que saía das dezenas de corpos decapitados no chão, todos arranjados em um círculo em volta do centro da sala onde, sentado em o que parecia ser um trono feito com crânios humanos, jazia uma criatura que só podia ser descrita como um demônio. Seus grandes olhos vermelhos pareciam brilhar naquele lugar escuro, e eram tantos que o rapaz não foi capaz de contar. Ele parecia ter dezenas de pares de chifres enormes saindo de sua cabeça, se contorcendo e enrolando sobre si mesmos. Sua pele era tão gosmenta quanto as paredes. A gargalhada que aquele monstro deu ao ver mais uma vítima era grave e ecoava pelo lugar, reverberando como ondas de milhares de gritos por socorro.
A garota, então, sem mudar a expressão em seu rosto, ficou de frente ao garoto perplexo e aterrorizado.
"Esse é meu pai" Ela disse, em um tom que parecia tão irreal quanto toda a cena que estava presenciando. "Agora que você o viu, eu vou ter que te matar".
. . .
Uma semana depois, a cidade estava de luto novamente. Parece que mais um jovem foi levado pelas mãos do misterioso assassino em série. Os amigos mais próximos da namorada do rapaz a consolavam.
"Sinto muito pela sua perda. Você gostava tanto dele" Eles diziam, ao que ela respondia com um suspiro entristecido.
"Se ele não tivesse sido tão curioso..."
Fale com o autor