Contos de Outubro
11 Apocalipse
Ele sempre havia gostado de histórias pós apocalipticas. Seja em livros, filmes ou jogos, o tema simplesmente o atraía de uma forma que ele não conseguia descrever.
Seu quarto era decorado com dezenas de pôsteres de jogos e filmes com o tema, e seus amigos já estavam cansados da pergunta "Como você acha que o mundo vai acabar?" que ele sempre fazia durante suas conversas. Naquela noite de trinta de setembro, porém, seus amigos resolveram fazer uma trégua e deixar o entusiasta em apocalipse se divertir e discutir o assunto com eles, visto que acabara de estrear nos cinemas um filme muito aguardado sobre o assunto.
O grupo de amigos até que se divertiu assistindo o filme, e perceberam o quão interessante o assunto era, passando a entender um pouco melhor a obsessão do garoto. Após o filme, eles se despediram e cada um seguiu o seu caminho. O rapaz foi para sua casa e, tranquilamente, dormiu, ainda com o filme em sua mente.
Não conseguia se lembrar exatamente do que havia acontecido em seus sonhos, mas sabia que havia tido um pesadelo. Ao acordar, porém, desejou profundamente que tivesse continuado a dormir.
Seu quarto estava completamente destruído, assim como toda a sua casa. Destroços estavam em todos os lugares, pedaços de móveis quebrados e concreto se misturavam entre si e era possível ver diversos tipos de plantas crescendo por todas as superfícies. O ar era fétido e cheio de poeira, o ambiente estava completamente desolado, como se nenhuma alma viva houvesse passado por lá há muito tempo. Instintivamente, o rapaz pegou seu celular e olhou a hora e data. Com dois por cento de bateria, o celular mostrava; meio dia e quarenta, de trinta e um de outubro. Além do choque do cenário em que se encontrava, o garoto sentiu uma forte confusão. Afinal, aparentemente havia se passado um mês desde que ele havia se deitado para dormir.
Imediatamente, o garoto foi a procura de seus pais pela casa em ruínas que se encontrava, porém ele logo descobriu que estava completamente sozinho.
Saindo de sua casa, o rapaz olhou em volta por aquele cenário desolado, onde sua cidade de infância na qual ele havia morado desde que nasceu estava completamente destroçada. Todas as casas, prédios e comércios em ruinas, quase que irreconhecíveis. Os destroços estavam por toda a parte e na natureza invadia a cidade, com diversas vinhas se enroscando pelos detritos, decorando a casca vazia e silenciosa do que um dia foi seu lar.
Caminhando pelo cenário, ele se recordava dos diversos filmes pós apocalípticos que havia assistido, e começava a repensar que o cenário já não parecia algo tão divertido assim. O silêncio era ensurdecedor, com apenas os passos do rapaz ecoando pelas ruas cobertas por concreto e vegetação. E o pior de tudo, era aquele sentimento avassalador de perda e solidão. Ele sabia que seu mundo nunca mais seria o mesmo, porém ele não fazia ideia do que havia causado tudo aquilo.
Após caminhar por horas, dias, até semanas, o garoto já não sabia o que fazer. Por onde olhava, apenas via a destruição e o silêncio, em um lugar onde antes havia tanta vida e som. O sentimento de solidão era o que mais o atormentava. Ele estava desesperado, sedento para encontrar alguma outra alma viva, um animal que seja, qualquer coisa. Estava enlouquecendo.
Apesar da imensa sensação de solidão, o rapaz podia jurar que constantemente sentia uma presença por trás dele, como alguém o seguindo. Mas sempre que se virava para checar, via apenas a paisagem vazia e destruída que estava em todos os lugares e nada mais. Não havia encontrado nem ao menos um cadáver para contar história, era como se todo mundo houvesse apenas desaparecido da face da terra.
As noites eram a pior parte. Ele quase não conseguia dormir por conta de um enorme frio na barriga que sentia, pois ele tinha certeza de que estava sendo observado. Mesmo que nunca houvesse ninguém lá, ele sempre conseguia sentir um par de olhos o observando sobre seus ombros, analisando até seus mais sutis movimentos. Em uma noite, foi capaz de sentir como se uma leve respiração estivesse contra sua nuca, mas novamente ele se encontrava sozinho.
O rapaz não conseguia mais suportar aquela realidade. Saber que tudo e todos que ele chegou a conhecer estavam desaparecidos, que sua casa e seu antigo lar estavam em ruínas esquecidas pelo tempo e saber que ele estava completamente sozinho naquele lugar infernal estavam afetando o rapaz de formas terríveis. Ele começara a ter alucinações. Via vultos no canto de seu olho onde não havia ninguém e passou a ouvir vozes antes de dormir, sussurros por ajuda, o chamando, gritando silenciosamente que a culpa era toda sua.
Em um fatídico dia, porém, o rapaz havia finalmente enlouquecido por completo. Pegou o objeto mais afiado que conseguiu encontrar e o usou para tirar sua própria vida, lentamente.
Enquanto seu sangue jorrava, ele ria em alívio e loucura. Nas paredes decrépitas a sua volta, o rapaz escreveu com seu sangue várias e várias vezes a mesma frase, até que seu corpo finalmente colapsou no chão, inerte, silencioso e vazio, assim como o mundo em sua volta.
Nas paredes, o vermelho estampava sua maior dúvida, aquilo que o corroía por dentro ainda mais do que a solidão e o vazio de estar naquele lugar. Apenas uma frase, que o assombrou durante todo esse tempo.
O que aconteceu em outubro?
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