Contos de Outubro
12 Queda
O garoto sempre teve medo de altura, desde que conseguia se lembrar. Nunca foi em uma montanha russa ou roda gigante, e evitava visitar seus amigos que moravam em prédios, mesmo que fosse apenas no segundo andar. Se recusava veemente a passar por qualquer ponte e quase nunca visitou seus parentes mais distantes, pois a mera ideia de entrar em um avião o dava calafrios.
Porém, naquele momento, sentado na beira de um precipício, ele não sentia medo. Ele não sentia nada.
O vento afagava seus cabelos e o cheiro da natureza era reconfortante. Alguns pássaros cantavam no céu, e seu canto ecoava no abismo como uma ópera cantada em uma igreja. Olhando para cima, via o céu azul, com algumas nuvens desfilando entre si e o sol se preparando para se por ao horizonte. Olhando para baixo, tudo o que ele via era aquela imensidão escura do abismo sob seus pés. A visão o dava frio na barriga e um sentimento de vazio, mas esse sentimento já lhe era familiar.
Tentou olhar no fundo do abismo, curioso para desvendar seus segredos, mas o misterioso vazio nada lhe respondia. Em um momento, o rapaz sentiu algo diferente. Como se estivesse sendo observado por uma presença muito maior do que ele próprio. Como se grandes olhos se abrissem e o analisassem, pois ele encarava o abismo e o abismo o encarava de volta, sussurrando para ele algo que o rapaz não compreendia.
Se inclinou um pouco para ouvir melhor, porém, em um passo em falso, sentiu a segurança da terra se esvaindo de suas mãos, e seu corpo caiu ao abismo.
A princípio, ele gritou. Com todas as suas forças, tentava se segurar em algo, porém ele estava cercado pelo vazio e em queda livre. Seu coração parecia querer pular de seu peito enquanto o horror o invadia. Sentia seu corpo rasgando o ar em sua queda, fazendo seu cabelo e suas roupas voarem ao vento e seus olhos arderem com o atrito, arregalados de medo. Ele estava rápida porém lentamente caindo em direção ao vazio. Diante de si, não havia nada além de uma morte certa, que ele era incapaz de enxergar e incapaz de antecipar.
Depois do que parecia ter sido um bom tempo, o rapaz desistiu de gritar. Apesar disso, o medo e certeza de que sua vida havia chegado ao fim não o deixaram. A queda era muito maior do que ele esperava.
O rapaz ficou em queda livre pelo o que pareciam ser horas. Nesse tempo todo, teve a oportunidade de refletir sobre si mesmo e sobre sua vida. Percebeu que seu medo de altura era algo bobo. Em todos os seus anos, nada havia se comparado a experiência presente.
Nada se comparava ao horror de saber que, em algum momento, ele iria de encontro ao chão. Não apenas isso, mas também a incerteza de não saber quando a queda iria cessar, em contraste com a certeza de que ele iria, em algum momento, descobrir da pior forma possível.
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