Notas iniciais
Meus deuses, que demora! Sério mesmo, perdão! Fiquei sem tempo e, quando tinha, ficava lendo ou no celular... Perdão mesmo! Mas agora vou tentar voltar. Um capítulo por semana. Espero que gostem! c:

Cássio sacou as facas, eu preparei o arco. O riacho se agitava cada vez mais e parecia avançar contra nós, como se a menina o comandasse. E ela realmente o comandava. Parecia estar com medo, então mobilizou as águas para protegê-la. Eu sabia que todo e qualquer movimento brusco poderia ser o último, pelo menos para mim. Não sabia nadar direito e suspeitava que, se ela mandasse o riacho nos atacar, ele viria com toda a sua força. Eu não queria isso, então, sem tirar os olhos dela, falei para Cássio:

– Fique calmo. Não estou preparada psicologicamente para a sua morte ou a minha.

Ele achou graça e respondeu, me olhando pelo canto do olho:

– Claro que você não está. De quem vai ganhar quando for catar maçãs, hein?

Sorri, mas percebi que a menina nos observava com uma ponta de estranheza no olhar. Eu sabia que ela não faria nada se nós não a incomodássemos, mas sair dali sem levantar as suspeitas dela seria um pouco complicado. A única alternativa seria uma conversa.

– Ahn... Olá? — falei. O som da minha voz a surpreendeu. Cássio me olhou com descrença — Eu... Eu sou a Brisa. Ele é o Cássio. Você é...

A garota parecia considerar se me respondia ou não, enquanto me analisava da cabeça aos pés. Ela olhou minhas roupas, meus sapatos, minha aljava, minhas flechas, meu arco, meus cabelos, meu rosto como um todo e, depois, focou nos olhos. Não me incomodei, mas senti que ela estava procurando saber mais sobre mim através deles. E quanto mais ela descobria, mais o riacho se acalmava. Aquilo me deu um pouco de segurança, então abaixei o arco.

– Sou Amana — ela falou ao ver que não estava mais na minha mira — Escolhida de Unda.

Olhei para Cássio e pedi com o olhar que ele abaixasse as facas. Ele entendeu, as abaixou e na mesma hora o riacho retornou a sua calma anterior. Amana deu um sorriso leve e veio andando calmamente sobre as águas até nós.

– Bem melhor sem as armas — ela disse enquanto caminhava — Menos tensão.

– Concordo — disse Cássio.

A menina parou no meio do riacho e olhou-o como se ele tivesse acabado de aparecer. Quase ri ao ver a reação dela, mas me controlei. Amana parecia estar vendo um deus, coisa que não era muito difícil, levando em conta que Cássio era estupidamente bonito. Ela o analisou da cabeça aos pés, assim como fez comigo. Porém, ela o olhava com um jeitinho mais... interessado. Cássio deveria ser meio cego para não perceber aquilo. Eu estava apostando que ele iria abrir a boca para falar alguma coisa, mas Amana foi mais rápida. Foi andando mais rápido até ele e eu tive uma ponta de certeza de que ficaria de fora da conversa.

– Cássio, não é? — ela perguntou com um leve tom de desinteresse na voz e Cássio fez que sim com a cabeça — Falei com sua mãe. Ela me disse que você me pediria ajuda. Eu só não sabia que seria tão rápido.

– Idem — Cássio respondeu. Depois disso, um silêncio constrangedor ficou no ar e, depois de alguns minutos, eu tive que agir.

– Então, você vai nos ajudar? — perguntei e Amana voltou os olhos para mim rapidamente.

– Bom, depende — respondeu — Ajudar com o quê, exatamente?

– Precisamos que você nos ajude a ir até Magnólia em segurança e que fiquemos lá por um dia e meio. Depois nós seguimos sozinhos — respondi.

– Por quê Magnólia? — indagou Cássio. Eu não tinha falado para ele sobre aquela minha ideia. Na verdade, eu a havia tido de última hora, mas ainda assim era uma boa possibilidade.

– Porque Magnólia fica no centro da Floresta, e, consequentemente, no centro de Europa. Então de lá poderemos decidir por onde devemos ir.

Amana balançou a cabeça, concordando comigo, e andou um pouco até estar em terra firme. Ela era uns dez centímetros mais alta que eu e de perto pude perceber que seus cabelos eram realmente azuis.

– Há duas possibilidades para que vocês cheguem e não sofram nada em sua estadia em Magnólia. Infelizmente, as coisas de que precisam não estão comigo.

– E com quem estão? — Cássio e eu perguntamos.

– Com minha madrinha. Unda.

– Ótimo. Vamos falar com ela — disse Cássio.

A resposta de Amana foi um sorrisinho sarcástico seguido de uma frase simples:

– Unda não concede as coisas tão facilmente, garotinho.

Assim que terminou de falar, ela virou de costas para nós, pulou no riacho e desapareceu.

– Garotinho? Ela me chamou de garotinho? Sério mesmo? — o pobre Cássio não acreditava no que tinha ouvido.

Dei um peteleco no ombro dele.

– Ela foi embora e você tá reclamando por ela ter te chamado de garotinho? Pelo amor dos deuses, Cássio!

– Eu tenho todo o direito de reclamar. Ser chamado de garotinho fere a minha dignidade. Quantos anos essa menina tem? Quatorze?

– Tenho quinze — Amana emergiu tão rapidamente que cheguei a me assustar, mas Cássio nem chegou a se mover.

– Você! Não me chame de garotinho — ele falou e na mesma hora cruzou os braços. Definitivamente, parecia mesmo um garotinho.

– Ela vai te chamar do que quiser — retruquei, me colocando na frente dele — E também vai nos levar até Unda. Não é?

– Vou. Disse para a Dona Clara que ajudaria vocês e não sou de descumprir promessas — Amana respondeu enquanto secava os cabelos.

Respirei aliviada por um momento, até ela soltar a frase seguinte.

– Só não posso garantir que Unda vá ajudar.

– O quê? Por que não? — indagou Cássio.

– Porque o humor de Unda muda constantemente, assim como uma correnteza. Às vezes ela concede as coisas por um abraço ou um sorriso. Outras vezes, manda as pessoas em missões em troca do que elas querem. Ela também pode simplesmente dizer “não” e repelir vocês do palácio dela com apenas um aceno. Eu não confiaria muito.

– Ah, que ótimo. Agora só precisamos rezar para um milagre acontecer e nós não sermos despejados violentamente pela deusa das águas — resmunguei — Mas é melhor tentar do que desistir. O que você acha, Cássio?

Ele fez cara de quem estava pensando e colocou a mão no queixo, olhando para mim com um jeito meio besta que me fez abrir um pequeno sorriso.

– Eu sempre quis conhecer o palácio de uma deusa... — ele disse.

Sorri ainda mais e olhei para Amana. Ela estava séria, quase triste, mas quando olhou de volta para mim, sorriu um pouquinho e nos chamou para irmos logo.

– Prestem atenção — ela disse — aqui perto há uma estrada para o palácio de Unda, mas nós vamos ter que andar um pouquinho.

– Andar não é problema... — falei.

– Não mesmo? — Amana perguntou sarcasticamente e se dirigiu ao riacho, andando novamente sobre as águas — Eu esqueci de mencionar isso aqui.

Fiquei boquiaberta. Como faríamos aquilo? Nós não sabíamos nada sobre manipular água ou coisa do tipo, não tínhamos tempo para aprender a técnica e, pelo que eu me lembrava, não existia nenhum manual de "Como aprender a andar na água em dez minutos".

Porém, ao contrário de mim, Cássio parecia estar adorando a ideia.

– Deuses, isso é muito interessante! Você vai nos ensinar a fazer isso? — perguntou entusiasmado.

– Não temos tempo — falei — Deve haver algum outro jeito.

– Andar é o modo mais rápido e menos cansativo. Não temos tempo para fazer um barco e nadar exigiria um esforço enorme. Vocês levariam o dobro do tempo. Você talvez levaria o triplo, Brisa — retrucou Amana — Fique calma, eu vou ajudar vocês. Será tão fácil quanto brincar com bonecas. Vamos lá. Unda já sabe sobre vocês.

Não me preocupei em perguntar como a deusa sabia, mas sim em como faria para não me afogar. Olhei para o riacho. Ele parecia calmo, mas eu duvidava que isso me ajudaria. Então, senti uma mão na minha cabeça. Era Cássio.

– Vai dar tudo certo, o.k.? Eu te ajudo, se você precisar.

Balancei a cabeça afirmativamente e senti os dedos dele bagunçarem um pouco meu cabelo.

– Vamos lá? — Amana gritou da beirada do riacho e nós caminhamos até ela — Certo, não é difícil. Apenas esvaziem a mente ou, se não conseguirem, pensem em algo bom. Pensamentos ruins te puxam para baixo, então evitem-os.

Eu nunca mais tinha conseguido esvaziar minha mente desde o dia em que saí do centro de testes dos Canalizadores, então optei pelos pensamentos felizes. Fechei os olhos e pensei em meu pai, em como era a voz dele quando lia para mim, no som da risada dele, no ruído dos pés dele nas folhas secas quando passeávamos pela cidade em um dia de outono. Amana segurou minha mão, mas eu não liguei. Estava submersa nos bons pensamentos e deixei que ela me guiasse. Só voltei a mim quando Cássio me chamou:

– Brisa? Brisa, olhe os seus pés.

Abri os olhos e olhei para baixo. Aquilo era incrível! Eu estava realmente andando sobre a água. Era como andar em um chão transparente e molhado, com pedras e peixes no fundo. Sorri e continuei andando.

– Agora, lembrem-se — Amana disse — Em hipótese alguma soltem minha mão sem eu mandar, a não ser que queiram um mergulho antecipado.

Cássio e eu assentimos e continuamos andando.

O caminho que tomamos era no sentido contrário ao da correnteza e, depois de andar por mais ou menos dez minutos, estávamos, eu achava, em uma afluente de um rio. Ali a água era cristalina e o rio parecia ser bem fundo. As árvores que o rodeavam eram altas e cobriam o que pareciam ser prédios e casas antigas, todas danificadas pela vegetação e pelo tempo.

Então, em um determinado momento, Amana parou e nos olhou.

– Chegamos — anunciou.

– Ótimo — sorri — Mas aonde está o palácio?

– Lá embaixo — ela respondeu.

Eu engoli em seco e Cássio prosseguiu com a conversa.

– E como chegamos lá, Amana? — perguntou.

– Venham aqui — ela disse e nós obedecemos — Deem as mãos. Perfeito. Agora, não tenham medo. Continuem pensando em coisas boas e mantenham a calma. Quando eu soltá-los, vocês afundarão. Nadem até a estradinha lá embaixo rápido, certo? Um, dois...

– O quê? — gritei — Espera, nós não...

– Já!

Assim, Cássio e eu afundamos. E a água estava bem fria...