Contos de E.V.A.
1 Terceira Vitima - Primeira Parte
É, eu poderia começar com um bom e velho “era uma vez… ”, mas essas coisas só acontecem em histórias onde os finais são felizes… Digamos que não fui feito para ter finais felizes. Pense bem antes de atravessar uma floresta, nunca se sabe que mistérios ela guarda, nem quem pode estar te esperando na trilha o lado.
Quando eu era menor ouvia diversas histórias sobre as florestas perto de casa, contavam-me de suas infâncias correndo e brincando no meio da mata, eu me enchia de vontade de juntar minha turma e ter as mesmas experiências, no entanto, eu era impedida por eles.
—Mas por que não posso ir brincar? Quero, me divertir como vocês.
—Quando você crescer, irá entender, não tem idade para ir à mata, não vai e acabou.
Eu nunca entendi, eles eram tão felizes, porque eu não podia ir também? Será que não queria que eu fosse feliz também? Todo dia depois da escola eu observava a mata pela janela do ônibus, era como se a natureza estivesse me chamando. Talvez eu estivesse louca ou só fazendo birra, afinal eu era uma criança, logo essa tal vontade passaria.
Anos depois retorno a casa dos meus avós, agora já sou uma mulher, ou pelo menos pensava que eu era, e a vontade de ir até à mata continuava, era como se eu nunca tivesse saído de perto dela, como se ela sentisse minha presença. Cada dia que eu permanecia lá a vontade só aumentava, mas dessa vez era como se eu tivesse um diabinho pedindo para eu ir até lá e um anjo implorando para eu não sair dali. Fui até a porteira e parei, era um passo, alguns metros e minha vontade e curiosidade seriam sanadas, mas ao mesmo tempo que uma força me emburrava para dentro, uma outra me puxava de volta, não conseguia me mexer, era mais forte do que eu, então fiquei ali parada, ouvindo o vento batendo nas folhas. Durante um bom fiquei ali sem reação, minhas pernas não respondiam, meu corpo não era mais meu, era como se alguém estive “me vestindo” foi uma das piores sensações que já tive, mas quando eu tinha perdido todas as forças me manter no controle, eis que surge uma voz, como um anjo de luz ela me liberta, minha avó estava me chamando, nunca fiquei tão aliviada e feliz por vê-la.
—O que faz aqui minha querida?
—Eu não sei! Eu juro que não faço de novo, me perdoe.
—shii, tá! tudo bem, vai ficar tudo bem.
Em meio ao choro foram as únicas palavras que consegui soltar. Aquela sensação era horrível, talvez por isso fui alertada para não ir, mas o que seria isso? Por que minha vontade não passou? Aquilo não foi um adeus, mas sim um “até breve”.
Tentei fugir daquilo, anos sem ver meus avós, comecei a faculdade de Cinema, já era uma ótima atriz, mas queria mais, tentei por muito tempo me concentrar na correria, no entanto, a imagem da floresta pairava sobre meus pensamentos, não podia ficar a sós em meus pensamentos sem que esse fantasma me assombrasse. Certa vez eu estava na biblioteca, tinha uma prova importante no outro dia, eu gostava de estar ali, era um lugar tranquilo e as (vezes) cheio de vida, aquele lugar enorme com tanto conhecimento me acalmava e limpava meus pensamentos, enquanto me perdia nas palavras do nada o som de folhas invade minha mente, olho em volta e eu estava sozinha e aquele local calmo e tranquilo passou a ser meu pânico, uma forte sensação de medo e angustia tomava conta de mim, era como se algo de ruim fosse acontecer, eu sentia a morte perto de mim, o meu recanto de paz havia se tornado um inferno na terra.
—Oi? Alguém por aí?
Sem resposta, o que era estanho, pois, aquele lugar era sempre cheio de vida, principalmente aquela época do ano, semana de provas as 3 da tarde, todos estariam “comendo” os livros.
—Ei, já pode parar com a brincadeira, não tem graça.
—E quem disse que não?
Era uma masculina, suave, porem amedrontadora que vinha de todos os lados, como se estivesse em todo o prédio. Me envolvia e dominava, eu já havia sentido aquilo antes e comecei a entrar em pânico, mas não conseguia sair donde eu estava.
—Quem é você? Da pra sair daí e para de palhaçada? Estou tentando estudar, você também deviria.
—Mas quem disse que não estou estudando? Estou estudando com você!
—Ata, estou vendo só eu aqui.
—Só porque você não me vê, não significa que eu não esteja aqui, aliás, estou sempre aqui, você me mantem aqui.
—Aqui? —Tento achar alguém próximo, mas estou só. —Aqui onde?
—Shiii, tem alguém vindo, não vai querer que pensem que você está louca falando sozinha não é mesmo? Nos mais tarde e não se esqueça, você é minha. Até loguinho.
Aquela sensação de pânico some e percebo que meus amigos estão me encarando.
—Você está bem? —Era minha amiga Diane, como sempre preocupada comigo. —O que está acontecendo com você?
—Eu também quero saber, sou amiga tenho esse direito. —Essa era a Carla, mandona e meio grossa, mas um amor da sua maneira.
—Oi? A está tudo bem sim! Por que não estaria?
—Pelo simples fato de você desmaiar do nada? Acho que esse é um belo motivo
—Ela está gravida, certeza. —Carla e suas conclusões precipitadas.
—Não! Não estou gravida e vamos voltar aos estudos porque minha nota não vai ser dar melhores falando sobre o porquê eu tirei um cochilo. Estava cansada, só isso.
Quando vejo isso, percebo que o local vazio e aterrorizante está lotado, era novamente meu recanto de paz, pelo menos por enquanto.
Dias se passaram, nada de estanho aconteceu desde aquele dia, eu me sentia mais livre e forte do que nunca, faltavam poucos dias para a festa de bodas de ouro dos meus avós, agora eu estava me sentindo forte para enfrentar meu medo e deixar aquela sensação de pânico tomar contar mim novamente era impensável, me achava a mulher mais forte do mundo. Tudo estava dando certo, iria rever alguns amigos de infância que estariam na festa, estava com um namoro encaminhado, tudo era flores, até que ao chegar na velha fazenda os meus avós me senti estranha e observada, era como se todo os holofotes estivessem em minha direção, muitas vezes me sentia violada.
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