Contos da Era Esquecida
1 A Floresta
A noite caiu, e a pálida luz da lua já se esgueirava pelas as folhas das árvores. Dando ao ambiente um iluminação fraca. Os ventos uivavam em meus ouvidos, tornando ainda mais complicada a já difícil tarefa que tentava cumprir.
Movimentava-me através dos galhos mais altos das árvores, perseguindo silenciosamente a minha presa. Eu possuía 30 anos, era alto e meus cabelos castanhos caiam na altura de meus ombros. Minha barba era rala, e cobria uma grande parte de minha face. Vestia-me em vestes verde-musgo que ajudavam a me camuflar nos ermos. Carregava um arco e aljava nas costas, além de uma espada curta e uma adaga na cintura.
Seguia meu caminho, sempre silencioso e tomando cuidado para manter-me sempre nos galhos mais resistentes para não produzir nenhuma sorte de som. Meus sentidos se apuravam, buscando qualquer indício de meu alvo. Ao parar em um certo galho, concentrei-me na tarefa de busca-lo. Achei-o.
Como uma flecha, rapidamente cobri a distância que nos separava. Ao vê-lo, retirei de minhas costas o arco e fiz a mira. Meu tiro acertou-o no joelho fazendo com que caísse no chão enquanto soltava um grito de dor. Enquanto descia da árvore onde atirei, o homem começou a arrastar-se para longe de mim e murmurava em uma língua desconhecida a mim.
Novamente em terra firme, comecei a caminhar lentamente em sua direção. Guardava novamente o arco nas costas e saquei minha espada. Enquanto me aproximava, analisava a débil figura ao chão. Ele era magro, os cabelos negros começavam a rarear e não possuía barba.
–Agradeça aos deuses por eu lhe dar uma morte rápida e não deixa-lo ai para apodrecer, maldito.-Disse enquanto preparava meu golpe-O que fez é imperdoável, e eu lhe mandarei para a companhia de outros demônios como você.
Subitamente sua voz se ergue, alta e terrível. O som de suas palavras profanavam a natureza, quebrando de certa forma a serenidade da floresta a nossa volta. Me afastei. A flecha em seu joelho quebrou-se e caiu no chão. Levantou-se como por mágica, dando a impressão que seu peito estava sendo puxado por uma mão invisível. Ao firmar os pés no chão, seus olhos se abriram e revelaram-se negros como piche e não refletiam a luz do luar. Uma turbilhão de sombras envolveu sua mão, e ao dissipar-se revelou uma lâmina feita das mesmas.
Engoli a seco enquanto entrava em posição de combate, não esperava tanto de um mero aprendiz. Minha missão era supostamente simples, encontrar e matar um fugitivo de uma ordem de necromantes. Segundo a informação obtida, ele fora recentemente iniciado e não deveria causar-me muitos problemas. Mas via agora que a verdade era completamente o oposto.
Juntos avançamos, um indo em direção ao outro. Nossas armas se encontrando em meio ao ar, produzindo um ruído estridente que propagava-se pela silenciosa floresta. A batalha começava.
Nossas armas continuavam a se encontrar, apenas borrões devido à fraca iluminação. Cada um de nós tentando encontrar uma falha na defesa inimiga, nenhum dos dois fazendo algum ataque ousado que poderia mudar o rumo do combate ao favor de um dos lados. Parecia que faziam horas que o duelo começara quando percebi que meus movimentos eram ligeiramente mais rápidos que o deles, porém mais fracos.
Enquanto pensava em uma estrategia, notei que ele não se cansava. Nem mesmo uma única gota de suor ou certa vermelhidão, coisa incomum para alguém que não estava acostumado a batalhar com armas. Ele segurava a espada com ambas as mãos, aproveitando-me disso, desferi um golpe mais potente e me afastei. Ele pareceu hesitar por uma fração de segundo, e aproveitei-me disso, saquei minha adaga. Agora eram minhas duas lâminas contra a sua.
Nossa batalha continuou, mas agora possuía a vantagem. Não demorei até que abrisse um corte em seu peito, mas ele mal o notou e seguiu com seus golpes. Comecei a infligir-lhe ainda mais ferimentos, tornando suas roupas em meros pedaços de pano encharcados de sangue. Mas isso não impedia-lhe de movimentar-se, parecia não ter notado que estava seriamente ferido. Comecei a praguejar enquanto transformava o que ainda restava de seu peito em um mero pedaço de carne completamente talhado de cortes.
Pareceu finalmente notar o seu estado, e gritou. Um grito terrível, que jogou-me longe ao encontro de uma árvore. Levantei-me, um pouco tonto devido ao impacto e percebi que ele começara a correr floresta adentro. Rapidamente guardei minhas armas e comecei a persegui-lo.
Ele não se preocupava em ser silencioso ou cuidadoso, simplesmente avançava sem se importar com o que estivesse a frente. Aproveitando um galho mais baixo, icei-me novamente para às alturas e continuei a persegui-lo através dos galhos. Aproximava-me dele rapidamente, já conseguindo ver seus ferimentos nitidamente. Em meio a corrida saquei duas flechas e o arco, e atirei enquanto saltava de um galho a outro.
Acertei seus joelhos, fazendo com que ficasse de joelhos. As pontas de aço delas emitiram um leve brilho avermelhado e explodiram. Consumindo meu inimigo em chamas, transformando-o em um pedaço de carne cremada. Sentei-me no galho e descansei por alguns minutos, sem tirar os olhos dele. Desci da árvore e me aproximei de seu corpo.
Exalava um cheiro terrível e possuía uma aparência ainda pior. Percebi que seu amuleto continuava intacto, alheio à qualquer dano que fora causado ao seu portador. Retirei-o e o analisei, era quadrado e negro com inscrições num vermelho-sangue brilhante. Guardei-o em um de meus bolsos enquanto um calafrio percorria minha espinha. Parecia que havia muito a ser explicado, então, comecei a voltar ao acampamento na orla da floresta.
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