Contos Perdidos
21 Aliquam
Notas iniciais
No salão se estendia uma vasta mesa com os mais variados alimentos e bebidas, congelados, o fogo que certo dia já queimara vivamente nas velas era agora um reles caco de gelo. Os alicerces eram estalactites que se uniram ao teto com tempo e formaram várias colunas retorcidas no correr da água. A frente da mesa havia um homem grande, gigantesco para ser mais exato. Seus cabelos eram gelo, assim como seus olhos, sua pele era tão pálida quanto à própria neve. .
– Vilkjür, ZoWmiZe ZaWmiZuZi? – Proferiu a boca do gélido rei lentamente-
– Ele perguntou o que faz aqui – Traduziu Aliquam -
– Peço por sua ajuda, as terras além das montanhas estão sendo desoladas por um mal terrível, por favor, lute ao nosso lado!- Ele estendeu a mão e dela emergiu uma imagem de uma coroa em um tom dourado, porém enfraquecido e soltou uma sequência de grunhidos guturais-
– Ele quer que você retorne esta coroa a ele – Traduziu Aliquam e mais grunhidos surgiram do Rei Congelado – Noroeste daqui, não vai demorar muito... –
Partimos e um frio percorreu minha espinha e após severas horas na congelante tundra, chegamos a um templo. Uma mulher de cabelos negros como a noite e pele pálida como a lua guardava um pedestal atrás dela com a coroa do Rei Congelado. Adentrei o templo e passei pela voluptuosa mulher, ao estender minha mão senti seu cajado afastar minha mão com um empurrão forte.
– Viajante, sinto pena de você...
– Só quero a coroa, deixe-me leva-la e não a machucarei – Disse já com a mão em minhas adagas -
– Ora viajante, baixe os punhos. Violência não será necessária, se me permite recitar sua sina – Antes que eu pudesse interromper a sacerdotisa começou a recitar -.
O escárnio lhe persegue.
Pelos cantos dessa valsa,
Desse baile de horrores
A perda da esposa
E de sua inocência
Foi o suficiente para perderes os amores?
Acalme-se jovem Viajante
Sua tortura ainda não finda
Perderás muitos a tua volta
E tu em agonia
Aceitara
Sua Sina
Em um ralo de fumaça branca a sacerdotisa sumiu e me deixou ali, de olhos arregalados e prestes a chorar senti mãos amigas em meus ombros. Olhei para trás e Aliquam e Fidelitas estava ali me apoiando
– Vamos, não temos muito tempo — disseram em uníssono -
No pedestal gélido pousava a coroa, estendi minha mão e quando a segurei uma voz emanou na caverna:
– Não tão rápido viajante. Temo que terás de pagar um preço pela coroa, um de vocês fica! — Bradou a voz -
– Mas... Quem é você?! — Gritei em resposta -
– Sou o que chamam de Barqueiro.
– Venha! Eu lhe enfrento! Eu mesmo cortá-lo-ei fora a garganta e se arrependerá de ameaçar meus amigos! Juro que lhe m... — O cajado de Aliquam me empurrou pra trás e ele andou até o sombrio findar da caverna, antes de adentrar na escuridão ele olhou para trás com os pequenos olhos enegrecidos marejados e disse com a voz tremulando:
– Compre muitas coxinhas de troll! Logo chegarei no castelo... — Ele deu um passo e a escuridão o engoliu -
– Pode reivindicar sua preciosa coroa agora, viajante. — Riu a voz do Barqueiro -
Peguei a coroa e corri, Fidelitas ainda chocado me seguiu. Ao retornar para o castelo de gelo e entregar a coroa para o rei ele nos disse satisfeito:
– Muito bem, Viajante. Meu exército marchará ao seu favor! E sinto muito pelo seu amigo... Sempre pude falar sua língua... Entretanto como seu pequeno amigo sempre soube a minha, poupei esforços... -
Ao sairmos do castelo onde havia simplórios montes de neve agora eram espadaúdos guerreiros com lâminas de gelo e escudos de pedra que agora serviam ao meu comando. Fidelitas colocou a mão no meu ombro e disse
– Teremos nossa vingança, caro amigo.
Chegamos ao topo da montanha por onde viemos e com a gélida neve e vento açoitando-me o rosto gritei para as montanhas:
– O que está morto... Assim permanecerá! -
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