Contos Mirabolescos
6 Prólogo
Notas iniciais
Mas decidi postar ele só pra ver o que o povo acha rsrs
O jovem escritor se sentou no canto mais escuro da casa, diante de uma escrivaninha velha e torta, de uma folha de papel amarelado e de uma caneta barata, e parou para pensar, com os olhos fatigados, os cabelos há muito tempo sujos e desgrenhados, os ombros caídos e a mente perturbada.
Ele sabia que precisava escrever sobre aquilo, porém, seus pensamentos giravam em um turbilhão de ideias, imagens, conceitos. Eram todos tão palpáveis, mas, ao mesmo tempo, difíceis de assimilar, de organizar, de se tornarem concretos em palavras, como se tal feito exigisse uma força hercúlea além do possível.
Olhou para os arranhões nos braços, de onde filetes de sangue escorriam e hematomas lhe lembravam que aquilo não fora um pesadelo.
Tomou mais um gole de álcool para clarear a mente e percebeu que agora só tinha mais um restinho do líquido. Espalhados pela mesa, havia inúmeros papeis queimados, alguns embrulhados na forma de pequenos canudos. Pó branco e ervas ocupavam o restante de espaço, inebriando o quarto mofado com um cheiro adocicado e entorpecente. O escritor notou que precisava comprar mais. Sem aqueles componentes, não era nada.
Levantou-se e saiu para dar uma volta pela casa. Passou pelos corpos cinzentos e inertes dos dois filhos e tocou em suas peles geladas, ternamente. Havia um único golpe em seus peitos, e o sangue ainda fluía e maculava os lençóis. Ele deu um beijo na testa de cada um e foi para o próprio quarto.
Lá, sua mulher, na poltrona perto da janela, parecia apenas dormir. Se não fossem os cortes profundos em suas costas, ele nem diria que ela já estava morta há quase uma hora. Ao seu lado, caída no chão, a faca reluzia, como uma lâmina de gelo, salpicada de vermelho. Ele mesmo a aconchegara, arrumando-a para parecer que cochilara ao ler um livro, o seu livro.
Ao sair, distraidamente, passou pelo espelho alto e largo pregado na parede. E, pela primeira vez em meses, ele se encarou e olhou direito para a figura suja e desleixada na qual se transformara.
Então, ocorreu-lhe tudo de que precisava. Ele sabia, agora, porque tudo acontecera e quem era o culpado daquelas consequências.
Com lágrimas nos olhos, ele voltou para escrivaninha e escreveu um título simples e conciso no topo da página; e, de repente, todo seu corpo sentiu-se mais aliviado. Agora sabia que rumo tomar. E logo, logo, a melhor história já vista pelo seu público estaria nas revistas e jornais pelo país.
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