Contos Mirabolescos
7 Brincadeira de Escola
O sinal para a troca de aula tocou e os alunos se remexeram, excitados.
Esperaram a boazinha e patética professora de Ciências se retirar e começaram a colocar seu mefistofélico plano infantil em prática.
As meninas riam, abobalhadas, sem ter coragem tanto de impedir quanto de dizer alguma coisa. Entreolhavam-se como cadelas irracionais sem saber se era ou não perigoso atravessar uma rua movimentada.
Os nerds se ocultavam atrás de seus livros cultos e best sellers estrangeiros, considerando o resto da sala uma trupe de idiotas. Preferiam não se intrometer naquelas atitudes primitivas de gente retardada.
Alguns poucos soltaram tímidas frases de desencorajamento, mas eram logo sufocados pela bagunça geral. No fundo, porém, estavam tão ansiosos quanto os demais pelo desfecho da brincadeira. Estes eram apenas hipócritas, querendo degustar sem se comprometer, com o espetáculo dos desordeiros.
Os desordeiros, por sua vez, davam gargalhadas exageradas e faziam graças obscenas, empurrando uns aos outros, para ver quem seria o primeiro a passar a cola. Eles eram, afinal, os donos da festa, os senhores dos holofotes, adorados e imitados por todos. Deliciavam-se com a atenção, sem nem um instante parar para pensar na seriedade de seus atos.
Espalharam então cola em demasia pela cadeira da mestra, uma super cola incolor encontrada em qualquer armazém.
A porta da sala se entreabriu e pegou de surpresa os estudantes.
O tubo de cola desapareceu como num passe de mágica.
Os alunos dispersados pela sala voltaram aos seus lugares, como era normal acontecer naquela turma.
Duas alunas foram receber a professora na porta, e, entre sorrisos e gracejos falsos, conduziram a mestra até seu lugar.
A professora nada estranhou, tão habituada era àquilo. Tampouco notou o esforço que seus alunos faziam para não rir, nem a cara de expectativa daqueles que infantilmente a odiavam, nem a expressão tensa do resto. Apenas se sentou e sentiu algo úmido e pegajoso sobre seu lugar...
Tarde demais.
E, em um segundo, a insuportável e exigente professora de Geografia se transformou em uma mulher normal, tão humana quanto eles, urrando de dor enquanto se levantava com esforço e pedaços de roupa e pele ficavam para trás, grudados na cadeira com a super cola.
O horror pairou sobre a sala.
A cor foi roubada dos corados rostos dos jovens.
A cola potente não somente aderira a saia de tecido leve da mestra com sua própria pele ao assento, pois corroera como ácido sulfúrico a roupa dela.
Ninguém emitiu um único som.
Parecia que a mesma cola selara os lábios daqueles estudantes.
E, quando finalmente a professora conseguiu se descolar da cadeira e se retirou aos prantos e berros da sala, deixando enormes gotas de sangue pelo chão e nacos de nádegas para trás, ninguém ousou se mexer.
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