Contos Mirabolescos
8 Fofoca
Notas iniciais
Juro! rs
– Sim, Felícia. Viajou ontem de madrugada, a minha menina...
– E para onde Eliana foi? – interessou-se a elegante visita, arqueando as sobrancelhas pintadas, enquanto suas crianças brincavam no jardim.
– Manhattan, Estados Unidos. Foi fazer uma espécie de intercâmbio da faculdade – respondeu a mãe, orgulhosa, fazendo questão de acentuar cada palavra para mostrar à outra seu grau de importância.
– E foi sozinha? Como pôde, Miranda? – exclamou a mulher, enquanto uma empregada lhes servia o chá, propositalmente devagar a fim de ouvir a conversa das patroas.
– Jovens de nossa classe, Felícia, precisam aprender a se virar sozinhos cedo. Senão, acostumam-se ao dinheiro fácil e ao aconchego dos pais – respondeu a Sra. Miranda, fria. – É claro que me doeu vê-la partir tão abalada e pálida. Estava passando muito mal de náuseas e vômito estes últimos dias, mas não foi possível remarcar a passagem.
– Ah, tadinha... Espero que chegue bem no estrangeiro – intrometeu-se a empregada, recebendo os olhares fuzilantes das madames.
– Pois não é que a guria foi mesmo, Antônia?
– Foi pra onde, Maria? Do que tu tá falando? – indagou a outra, lavando a louça enquanto Maria lhe contava as fofocas da patroa.
– Pros Esteites, cumadre! Pros Esteites!! Pra onde mais que rico vai?
– Jesuis, e o que ela foi fazê-la lá?
– Disque que estudar, né? Mas eu tenho lá minhas dúvidas...
– O que tu quer dizer, menina? Desembucha logo!
– Patroa disse que Eliana viajou com uns enjoos estranhos, tontura, já entendeu né?
Antônia enxugou as mãos no avental e encarou a cumadre, séria.
– Claro que entendi! Minha menina já passou por isso várias vezes...
– Poisé, poisé, poisé, Antônia. Pra tu ver como rico também tem seus podres, e varre tudo pra debaixo do tapete... Vai saber quem é o pai, né?
– Eu não acredito, Antônia! Eu vi essa menina crescer, correndo por esse casarão! Cuidei dela como se fosse minha! – espantou-se seu João, o jardineiro, levando a mão ao peito.
– Sim, eu sei. Por isso, vim lhe contar, seu João, porque o senhor sabe que eu não sou mulher de fofoca! – exaltou a cozinheira.
– E ela saiu fugida mesmo?
– Exatamente. Com mala, prenha e tudo! E a mãe acobertando. Rico não sabe conviver com uma filha sem pai e de 18 anos! Manda logo pro exterior. Lá, onde eu moro, as muleca gosta logo é de abortar.
– Céus, minha pequena Eliana... – murmurava seu João. – Vai saber mesmo quem é o pai, né? Algum vagabundo espertinho dessas faculdades particulares... Ei, ei, devolvam isto aqui! – Ele gritou de repente quando os filhos da visita do dia se esgueiraram e pegaram seu carrinho-de-mão para brincar.
– Mamãe, mamãe, é verdade que a filha da D. Miranda fugiu do país grávida de um vagabundo? – perguntou Maria Eduarda à sua mãe na hora do jantar. Adorava dar uma de sabe tudo.
– Mas que besteira para se dizer a esta hora, minha filha! – ralhou a Sra. Felícia. – De onde você tirou essa besteira, ora essa?
– Eu e o Marquinhos estávamos brincando no jardim e ouvimos os empregados da D. Miranda cochichando – contou a menina como se a informação fosse ultra secreta. E relatou à curiosa mãe tudo o que ouvira da conversa entre o jardineiro e a copeira.
Ao final, a elegante Sra. Felícia Marques estava afogueada.
– Mas que sem-vergonhice! E Miranda querendo enfiar nas nossas cabeças suas mentiras sujas! Que família mais desonrada! Bem que eu suspeitei. Eliana com aquela cara de santinha do pau oco, mas devia ser uma meretriz na verdade! Preciso avisar às outras, e todas às famílias de sangue respeitoso a mancha que Miranda está escondendo com o tapete – concluiu, exaltada.
E pegou o telefone para ligar para todas as suas amigas.
No dia seguinte, toda a elite da cidade já sabia que Eliana Alvarenga, a famosa filha única dos Alvarenga, viajara para os Estados Unidos fugida a fim de esconder sua gravidez precoce e a vergonha de ser mãe jovem e solteira, e do futuro bebê não ter um pai descende, sequer conhecido pela alta sociedade.
O nome Alvarenga de repente parou no lixo, bem como sua reputação. A imagem de Eliana foi tida como tabu – uma péssima influência para as garotas bem nascidas da classe alta.
Quando Miranda Alvarenga convidou suas amigas para o chá da tarde daquele dia, ninguém apareceu. E, quando mais tarde descobriu o motivo, e toda a história na qual seu respeitável nome estava envolvido, teve um acesso de raiva, e um ataque de pelanca nível cinco.
Eliana mal se recuperara da forte gripe que a pegara de jeito nos dias anteriores a sua saída do Brasil quando sua mãe pediu histericamente para ela voltar com urgência.
– Mas, mãe, as aulas de intercâmbio começam amanhã! – dizia ela, quase aos prantos, ao telefone.
– Não interessa! Quero você amanha aqui no Brasil, imediatamente! É o nome de nossa família que está em cheque, Eliana! – berrava a mãe, com os nervos à flor da pele. – Quero provar que os Alvarenga tem honra!
Na madrugada de domingo a notícia da tragédia se espalhou pelo país como fogo em palha seca: o avião que vinha dos Estados Unidos naquela noite para o Brasil havia caído em uma área de mata fechada devido a uma pane em um dos motores da parte traseira.
Não houve nenhum sobrevivente.
Entre os passageiros, havia inclusive uma universitária de família rica que sequer perdera a virgindade.
Notas finais
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Tô elaborando ainda mas me ajudem rs
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xoxo
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