Notas iniciais
Um conto com um toque romântico.. Espero que gostem...

Toda noite, ele a via se sentar no mesmo banco do ônibus, puxar um livro qualquer e descer uma parada antes dele.

Ela era simplesmente linda. Tinha cabelos castanhos, compridos e levemente ondulados, sempre presos por uma bonita tiara incrustada por minúsculas pedras prateadas. Tinha olhos claros, de uma tonalidade quase esverdeada. Gostava de usar um batom vermelho-pêssego e um esmalte rosa pálido.

Lia de thrillers sanguinolentos a livros de autoajuda e até literatura brasileira. Gostava de Sydney Sheldon e Machado de Assis. Estudava enfermagem à noite e trabalhava de dia em uma loja de roupas baratas. Tinha uma cicatriz no cotovelo, talvez de uma queda de bicicleta na infância. Tinha a interessante mania de morder os lábios, o que lhe acrescentava mais uma meiga singularidade.

Tudo isso ele tirara de suas constantes observações, dia após dia, no ônibus em comum que pegavam. Sabia que ela não devia morar muito longe de sua casa, porque o que os separava era uma única parada. Nunca tivera, contudo, coragem de levantar-se de seu lugar e sentar ao lado dela, para uma conversa ou simplesmente para saber o perfume que usava ou cheiro de seu hálito.

Sabia, porém, que a amava. Como nunca amara ninguém. Seus maiores momentos de felicidade consistiam em pegar aquele ônibus depois de um horrível dia de trabalho e ficar observando a jovem.

Resolveu um dia, portanto, interpelar a bela garota. Se levasse um não, pelo menos conheceria o timbre de voz daquela moça que há tanto tempo admirava e contemplava como sua musa inspiradora.

Tal foi sua surpresa e decepção quando, no tão aguardado dia, a moça não apareceu. Nem no próximo e nem no seguinte. E nem no mês inteiro que se seguiu.

A vida trilha seus próprios rumos e, para a raiva do apaixonado rapaz, ele não fora contemplado com suas graças.

Um dia, voltando para casa no odiado ônibus, viu um jornal velho forrando o banco desgastado do ônibus. Sem nada para se distrair, contentou-se em folhear as notícias do mês passado.

Seus olhos se arregalaram de choque ao ler uma nota de rodapé no canto esquerdo da página amarelada sobre uma bonita jovem que fora estuprada e morta a caminho da parada de ônibus após sua aula de faculdade. Segundo a nota, ela fora levada para um terreno baldio, estuprada e estrangulada. Uma foto desbotada revelou ao rapaz, dolorosamente, que a moça era, de fato, aquela pela qual ele se apaixonara. Um nome lhe dizia que se chamava ANGÉLICA DE SOUZA RODRIGUES.

- Belo nome – murmurou ele, antes de arrancar a nota e guarda-la junto ao peito, como lembrança daquela que um dia fora o grande amor de sua vida.