Contos & Encantos

1 Todos Os Nossos "Adeus"


Notas iniciais
Oi, gente! Tudo bem? Espero que sim! Bom, pessoal, eu já fiz esse conto há um tempinho - não muito - e ele é mais ou menos baseado na música maravilhosa do Sam Smith, que é "Too Good At Goodbyes" é sério, ouçam essa música. Ela é meio dramática, então me inspirou, kkkk. Aliás, se algum ser iluminado estiver lendo esse conto, e tiver alguma indicação de música que pode virar um conto legal, estou à disposição. É só pedir! Bem, é isso. Boa leitura e aproveitem! PS.: A letra da música (traduzida) está em itálico e um pouco mais afastado da margem.

Você deve pensar que sou estúpido

Você deve pensar que eu sou um tolo

O buquê de rosas ainda descansava sobre o parapeito da janela, tentando capturar o sol fraco de fim de tarde. Um colar qualquer estava estagnado na gaveta e sua dona não parecia disposta a usá-lo no momento. Não mudaria em nada. Vivian poderia colocar todos os acessórios e cultivar todas as flores que ganhara e ele continuaria indiferente e longe demais, quase intocável, na maioria das vezes.

Presentes e mais presentes com significados vazios, dados apenas para desencargo de consciência. Ele devia achar que estava bem seu papel e que ela caía de amores, mas não era isso que acontecia, realmente.

Talvez não passasse de um jogo, afinal, onde duas pessoas sairiam machucadas ou mais experientes – nunca indiferentes – quando a última peça fosse lançada e a partida acabasse.

Você deve pensar que eu sou novo nisso

Mas eu já vi isso tudo antes

As fotos no criado-mudo mostravam rostos sorridentes em meio a situações alegres, abraços e carícias, mas isso não acontecia nem na metade do tempo na vida real. Quando os flashes se apagavam, as máscaras caíam e os sorrisos se fechavam.

Vivian já estava cansada de tentar fazer dar certo e continuar naquilo. Não adianta lutar por algo que se sabe desde o início que não vai funcionar, mas já fazia tantos anos... E embora não conseguisse decidir qual “Adeus” doía menos – o programado ou o que acontecia de forma natural –, sabia que não gostava de nenhum dos dois.

Eu nunca vou te deixar perto de mim

Mesmo que você signifique tudo para mim

Porque toda vez que eu me abro, dói

Mas aquela situação também não a agradava. A paixão e aquele amor estranho rompiam seu peito, e quando estava ao lado dele, tudo parecia um lindo mar de rosas sangrentas, o que era tenebroso e agradável demais. No entanto, a ideia de ter essa instabilidade pelo resto da vida se mostrava terrível. Sempre que se permitia ser mais receptiva e se abria um pouco mais, ele a invadia de maneira errada, deixando-a com uma ferida a mais e um segredo a menos.

Um de seus lados gritava desesperadamente “Chega, não dá mais”, enquanto o outro se isolava cada vez mais da realidade e se afundava mais num mundo paralelo onde tudo era tudo perfeito e lindo demais, uma verdadeira utopia. Esse lado era idiota, mas Vivian o seguia muitas vezes.

Ele não era o que ela desejava. Não chegava nem perto. Vivian queria um porto seguro, alguém que fosse seu apoio quando precisasse, e não uma pessoa que fosse embora assim que a situação ficasse um pouco mais complicada. Ele não era esse alguém, muito embora fosse importante em sua vida.

Mesmo com as controvérsias e os sentimentos opostos, o melhor era se afastar. Sabia disso. Alguém que te prende no mesmo lugar para sempre não deve continuar em sua vida. A alternativa mais certa era aquela em que os dois seguiam seus caminhos, indo para lados opostos, dando de vez as costas um para o outro e despedaçando corações. É, doeria, mas cicatrizes são as conseqüências de qualquer jornada, e, por mais que algumas doessem mais que as outras, eram inevitáveis.

Então, eu nunca vou ficar muito perto de você

Mesmo que eu signifique tudo para você

Caso você vá e me deixe na lama.

O que estava em cogitação ali não era o tamanho do sentimento e sim quem soltaria a corda primeiro e deixaria o outro caído, tendo de se levantar sozinho. Acontecesse o que acontecesse, ela não queria ser a mais atingida dessa vez, embora já fosse.

Ele estava ali, dormindo ao seu lado tranquilamente, sem sequer imaginar a tempestade que se formava na cabeça de sua parceira. Vivian sorriu sem humor enquanto escovava uma mecha de cabelo que caía sobre a testa de Henrique. Parceria não era bem o que eles viviam. Os dois não estavam lá um para o outro sempre e, embora não fosse nenhuma novidade, machucava. Ela não tinha com quem contar, e ele provavelmente não a procuraria de imediato numa situação difícil.

Mas quanto mais você me machuca, menos eu choro

E cada vez que você me deixa, mais rápido estas lágrimas secam

E a cada vez que você vai embora, menos eu te amo.

Aquela relação – não conseguia dar um nome exato àquilo – era cansativa demais, irreal demais, indesejável demais e ficava cada vez mais difícil procurar pontos positivos naquilo; as coisas ruins sobrepunham os momentos bons e isso esvaziava seu coração. Era como ver tudo desabar ao seu redor, mas continuar parada exatamente no mesmo lugar, sem ir para trás nem para frente.

Meu bem, não temos chance, é triste, mas é verdade

Era isso. Não dava para juntar dois corações incompatíveis e obrigá-los a se entender. A união do fogo e da água sempre causa a destruição de um dos lados. O único jeito era esquecer o sentimento e jogar tudo para o alto; esquecê-lo, esquecer os poucos momentos em que tudo deu certo. Esquecer os abraços, os beijos, as noites de amor e as conversas que não terminavam em gritos. Se fosse tão simples...

Mas podia ser.

Eu sou bom até demais em despedidas

(I’m way too good at goodbyes)

Interrompendo o contato com ele e finalmente parando de observá-lo, Vivian tirou a aliança de namoro da mão direita, passando agora sua atenção para a argola fina e delicada até demais, o que era engraçado. Seu namoro era bruto, embora fosse também vaporoso. Não era consistente, e o anel transmitia isso. O único erro daquela jóia era ser bonita demais.

Eu sei que você está pensando que eu não tenho coração

Eu sei que você está pensando que sou frio

Por mais que seu rosto transmitisse uma imensa calma, ela não se sentia tranqüila ou indiferente, de fato, mas também não queria chorar, e não choraria. Afinal, ele a deixara tanta vezes, não? Em momentos de raiva, quando simplesmente ia embora, batendo a porta com força. E Vivian também não estava muito atrás.

Fechando a mão com o anel grudado na palma, ela se levantou, indo atrás das roupas espalhadas pelo quarto e as vestiu sem pensar muito. Havia coisas na vida que não foram feitas para durar para sempre, tinha de aceitar isso. Mas não aceitava, e as lágrimas começaram a cair antes mesmo que encontrasse sua camiseta.

Então era assim? A hora anterior, a que passara com ele, foi um “adeus” – mais um dos “adeus”? Fora a última vez? Talvez sim, talvez não... Mas ainda machucava.

Eu estou apenas protegendo minha inocência

Estou apenas protegendo minha alma

Vivian só queria manter um pouco do seu “eu”, ver como funcionava sem ele, se ainda conseguia a proeza de viver sabendo que não o encontraria por ali. Seria difícil, mas nada muito fora da realidade. Ele já não estava muito lá para ela, mesmo.

Você não vai me ver chorar, de jeito nenhum

Eu sou bom demais em despedidas.

Depois de colocar um casaco qualquer, a moça secou os olhos com a manga dele; o pulso ainda trancado. Ela queria dizer que já estava acostumada a espantar pessoas que não a acrescentassem de sua vida, mas não estava. Doía se despedir e seu peito estava esmigalhado – por mais que soubesse que aquela situação não era totalmente verdadeira.

A fim de acabar logo com aquilo, pegou as chaves do carro da cômoda e deixou a aliança sobre o lençol branco e bagunçado ao lado da mão dele, engolindo o nó que se formava em sua garganta.

Um lado seu torcia fervorosamente para que Henrique a procurasse mais cedo ou mais tarde; enquanto o outro, o mais racional, lhe dizia que seria melhor que aquele fim durasse para sempre. Com os olhos marejados, Vivian debruçou-se sobre a cama e selou seus lábios suavemente, tentando de todos os jeitos não despertá-lo – tornaria tudo ainda pior. Depois, sem olhar para trás, abriu a porta do quarto devagar e se direcionou à da sala sem interromper o ritmo constante de seus passos, se permitindo chorar dessa vez, antes de trancar a casa dele, como era o combinado sempre que decidisse sair sem que Henrique a visse.

Podia ser apenas mais um “adeus”, mas não significava que doía menos. Não fora tão difícil dessa vez, no entanto. Estava ficando um pouco melhor em despedidas.

Eu sou bom demais em despedidas

(I’m way too good at goodbyes)

Notas finais
Então é isso, gente; espero que tenham gostado! E sim, os outros contos terão diálogo, não se preocupem. É só que eu realmente achei que esse não precisava ter uma conversa, exatamente, então não fiz. Comentem e me digam o que vocês gostaram ou não no conto. Comentários incentivam os autores; e lembrem-se: Críticas construtivas são bem-vindas! Até semana que vem! Beijinhos!