Contos & Encantos

2 Mundos Quebrados


Notas iniciais
Oi, gente! Voltei, mais pontual do que nunca! Vocês estão bem? Espero que sim! Bom, o conto de hoje não é uma "song-fic", muito embora tenha sido um pouco inspirado na música "I’m not the only one", também do Sam Smith (já deu pra perceber que eu gosto bem pouco das músicas dele, não é?). Sobre o conto, eu particularmente gosto um pouquinho mais dele, o que é engraçado, porque sou bem autocrítica. Enfim, como é muito grande, vou dividir em duas partes para não ficar muito maçante, tudo bem? A segunda postarei amanhã. Aproveitem a leitura!

Fazia exatos cinco anos que estavam casados, mas claramente aquele não seria um dia de comemorações – nunca se festeja aquilo que deu errado. Thiago se esquecera mais uma vez da data e sua esposa não estava muito disposta a lembrá-lo naquele ano. Eles agiriam de jeito forçado, abrindo sorrisos falsos e Beatriz saberia exatamente onde ele preferia estar. Não, estava bom daquele jeito.

Talvez esse fosse o maior problema. Aquele se tornara o seu bom e estava se conformando com aquilo. Tudo que vinha a mais era lucro, e o que vinha de menos não demorava muito a se tornar o seu normal e, embora soubesse que merecia um pouco mais, não conseguia sair daquilo.

O problema é que arrastava mais pessoas para aquele furacão que vivia: Melissa, sua filha, que vivia completamente alheia à grande falta de atenção do pai, e a pequena sementinha que descobrira naquele dia estar em seu ventre. Beatriz estava realmente bastante feliz com essa notícia, mas não saberia responder como sequer eles chegaram a ter um primeiro filho. Aquele casamento só chegou a funcionar de alguma forma no primeiro ano, e se rastejando, e Melissa chegara depois, quando as coisas já estavam fora do trilho.

Quando descobriu a primeira gravidez, achou que as coisas ficariam melhores; que Thiago pararia de sair quase todas as noites para o bar e voltar completamente bêbado para casa com batom e perfume feminino na camisa, que passaria a te dar um pouco mais de atenção, e foi assim quando a notícia ainda estava fresca. Nos primeiros três ou quatro meses se mostrou um excelente marido; a maior parte de sua atenção estava focada nela. Saíam juntos, brigavam menos e ele aparentemente passou a beber menos e a não traí-la, mas, depois que se acostumou com a ideia de ter um filho e que ainda faltava para este chegar ao mundo, continuou com a rotina que mais gostava.

— Pra você, mamãe. – Melissa a despertou, entregando-lhe uma folha desenhada.

Beatriz sorriu. Bem, desenho não era exatamente a palavra – eram vários rabiscos gigantes e coloridos com rosa, roxo e preto –, mas, definitivamente, eram os rabiscos mais lindos.

— Que lindo. O que é?

— Você. – respondeu tranquilamente, pegando uma folha limpa, agora, sem notar a risada que sua mãe prendia. Aquele era um jeito peculiar de enxergá-la, mas iria parar na porta da geladeira.

Eram aqueles pequenos momentos – e, ultimamente, os grandes também – que Thiago perdia. Ele até podia ser um pai carinhoso e mais ou menos presente, mas estava longe de ser considerado em algum momento da vida o “melhor pai do mundo”, e a menina não demoraria a perceber isso baseada no fato de que, embora morassem na mesma casa, se viam dia sim, dia não, porque ele às vezes chegava quando ela já estava dormindo. Do que adiantava todo o amor que ele dizia ter pela filha se não o demonstrava direito?

Aquilo era qualquer coisa, menos a vida que desejara ter. Bia definitivamente não queria alguém que passava mais tempo ausente do que presente e que banalizasse quase todo assunto que fosse relacionado a ela. Thiago não a tratava mal, mas estava longe de ser um marido exemplar. Tratá-la com carinho, de forma amorosa quando estava sóbrio ou quando tinha platéia não apagava as coisas erradas que fazia, pelo contrário: Só criava comparativos na cabeça dela, deixando-a ainda mais confusa.

— O papai chegou?

— Ainda não, amor. –respondeu, penteando os cabelos da menina com os dedos preguiçosamente. – Está trabalhando. – a mentira saiu tão facilmente de sua boca que até Beatriz acreditou.

Era nesses momentos que ela agradecia por Melissa ainda ter pouco menos de três anos e não formular perguntas como “Que espécie de trabalho é esse?”, porque essa Beatriz não saberia responder. Talvez pudesse dar uma de louca e buscá-lo no bar ou até no motel mais próximo, mas não se humilharia desse jeito. Já achava que estava sendo idiota demais apenas por chorar escondida quando passava da meia-noite e Thiago ainda não estava em casa. Claro, mencionar a filha surtia algum efeito, mas o mesmo acabava em menos de vinte e quatro horas.

A verdade era que estava cansada; era tudo muito mais do que podia suportar, e sentia que explodiria a qualquer momento. Simplesmente não agüentava mais levar uma conversa com seu marido quando de manhã, antes de ambos irem trabalhar e achava ridículo até demais chegarem às festas de família fingindo ser a “Família do ano” apenas porque era orgulhosa demais para admitir que seus pais estavam certos sobre Thiago: Que ele a decepcionaria mais cedo ou mais tarde. Dito e feito. Ela se sentia bastante decepcionada, no momento.

Decepcionada e revoltada, principalmente quando pensava no assunto mais a fundo. Doara-se tanto a ele... Sempre fora uma esposa boa, carinhosa, dedicada, alguém que tentava agradá-lo de todos os jeitos que podia. E isso tudo para que? Para, no final, ganhar um par de chifres? Que bela recompensa, essa!

No entanto, enquanto ela era a mais afetada, engolia a seco e ignorava boa parte das coisas, mas Melissa já começava a perceber a ausência do pai e perguntava por ele, e agora mais uma criança estava entrando no meio daquele caos, o que tornava tudo ainda mais sério, e Beatriz tinha plena consciência de que tinha, no mínimo, uns 40% de culpa no cartório, por ser boba demais; por amá-lo demais.

Observando sua filha pintando qualquer coisa aleatória ao seu lado, alheia a tudo aquilo, percebeu que estava sendo uma péssima companhia, mas, Deus, sua cabeça parecia prestes a explodir, e com motivos. Havia descoberto uma segunda gravidez naquele dia – mais uma não planejada – e ainda se encontrava em estado de estupor e, embora seu maior lado estivesse extremamente feliz com a notícia, o outro, apenas uma pequena porcentagem, não conseguia acreditar em como fora tão burra por deixar mais um elo entre ela e Thiago vir ao mundo em um momento tão ruim de seu relacionamento. Ele sequer dava conta de criar um filho, quem dirá dois!

— Mel. – chamou e a menina a olhou brevemente. – Você gostaria de ter um irmãozinho?

— Pra brincar? – perguntou, em meio a um bocejo, fazendo sua mãe sorrir. É, aquela era uma boa forma de definir.

— Sim. – ela confirmou, levantando-se do chão e pegando Melissa no colo. – Vamos dormir, princesa?

— Quando ele chega? – deitou a cabeça no ombro de Beatriz, com a voz baixinha.

— Ainda vai demorar um pouquinho. – concluiu, no mesmo tom.

Quando ninguém mais tinha o que falar, ela seguiu para o quarto da filha, ligando o abajur e cantarolando uma musiquinha infantil qualquer – a única que conseguia se lembrar no momento –, balançando-se levemente no ritmo para que Melissa pegasse no sono mais rápido. Seu objetivo maior, confessava, era que a menina não visse o pai no estado degradante em que ele provavelmente se encontraria assim que atravessasse a porta da sala.

Não contou exatamente os minutos que estava ali com ela em seu colo – sabia que Mel já havia pegado no sono há algum tempo, porém realmente estava confortável com aquela posição –, mas sabia que já fazia um bom tempo. Lentamente, depois de depositar um beijo em sua testa, colocou-a no berço e ajeitou o cobertor sobre ela, antes de sair do quarto.

Nos finais de semana, quanto Thiago saía à tarde e não dava as caras antes das três da manhã, ou simplesmente quando Beatriz ficava mais aborrecida, ela deixava a filha dormir ao seu lado, para que ele entendesse o recado, e isso funcionava quase sempre; mas, naquele dia, não faria isso. Tinha planos maiores do que simplesmente aceitar mais um dia infernal que ele lhe proporcionava.

Mal chegara ao corredor e a porta de entrada foi escancarada, apresentando uma figura um tanto quanto cambaleante que destruiu, sem dizer sequer uma palavra, toda sua tranqüilidade recém-adquirida.

Thiago passou pela esposa, ainda parada no mesmo lugar, de cabeça baixa – e com um cheiro enjoativo de álcool – sem olhá-la diretamente, seguindo calado para o banheiro. Podia ser apenas dificuldade de focá-la, por conta da bebedeira, mas Beatriz se sentia muito bem imaginando que ele ao menos se envergonhava pelas atitudes imaturas.

O barulho do chuveiro sendo ligado a despertou e ela seguiu para o quarto, a fim de seguir o que seu lado mais impulsivo – que, por incrível que pareça, era o mais certo naquele momento – dizia. Sem muita cerimônia, abriu o guarda-roupa e puxou do alto uma mala grande e vermelha e logo depois a deixou sobre a cama, abrindo-a.

Aquele aniversário de casamento esquecido fora apenas o estopim, a gota d’água que fizera o copo transbordar e tudo cair por terra. Estava cansada de não ser valorizada, de ser taxada de idiota, daquela relação de pura fachada, e não conseguia encontrar mais um bom motivo para aturar aquilo tudo. Melissa não sentiria mais falta do pai do que já sentia no momento, e o bebê... Bem, ele ainda nem estava oficialmente no mundo. Ele se adaptaria bem facilmente, se arriscava a dizer.

Um pouco desnorteada, pegava primeiras roupas que via à sua frente e amontoava-as em seus braços, jogando-as de qualquer jeito na mala. Na segunda vez que foi tentar fazer isso, as camisas começaram a escorregar dos cabides, que, por algum diabo de motivo, continuavam presos na arara, fazendo-a praguejar mais alto do que gostaria enquanto se abaixava para pegá-las novamente.

— O que é isso? – Thiago perguntou, surgindo no quarto. Sua voz mais clara indicava que ele agora estava menos patético e bêbado, graças ao banho, provavelmente frio, que tomara.

— Não te interessa. – respondeu secamente, procurando dobrar as vestes dessa vez, fingindo uma calma que não existia. – E então, com qual vadia você resolveu comemorar o nosso aniversário de casamento?

Talvez ainda fosse o álcool presente em seu sangue, mas, a julgar pela demora, ele não captou a mensagem de imediato. Dava quase para ouvir o eco de seus neurônios – os que ainda não haviam sido afogados pela bebida – trabalhando.

Enquanto seu marido tentava pôr a cabeça para funcionar, Beatriz tentava espantar todo o cansaço que pousou em seu corpo e começou a guardar suas coisas na mala com menos violência. Quando Thiago xingou baixinho, soube que ele finalmente desvendara o enigma.

— Era hoje?

Uma risada saiu da boca dela, muito embora a situação, pelo menos para Beatriz, não fosse nem um pouco engraçada. E a raiva dela apenas cresceu pela pergunta ridícula e sem noção que ele fizera.

— Sim, mas não importa. Nosso casamento não é motivo para comemoração.

— Bia...

— Ah, cala a boca! – esbravejou, deixando uma peça cair mais uma vez no chão e finalmente o encarando, ignorando o mal-estar que sentia. – Eu estou cansada de fingir que não tem nada de errado quando tudo está errado. E você se lembra que tem uma filha? Porque sim, você tem; e eu já não sei mais o que dizer quando ela pergunta por você. Estou tentando não contar que na verdade você é um bêbado, cafajeste e que não está nem aí para ela! – cuspiu as palavras.

Um silêncio desconfortável se instalou entre os dois, pesado, denso e nada amigável. Era como se as palavras de Beatriz tivessem tomado forma de uma fumaça espessa e escura, tornando o ambiente impossível de se respirar.

— Me desculpa. – murmurou, parecendo não ter nada melhor para dizer.

— Para que se desculpar se vai fazer tudo de novo? – o objetivo era atingi-lo através do olhar frio também, mas já estava ficando enjoada de olhá-lo, então apenas voltou a atenção à mala. – E, a propósito, caso te interesse, eu estou grávida.

Aceitando que não venceria a guerra contra as roupas, Beatriz apoiou um dos joelhos na cama e debruçou-se sobre a bagagem, fechando-a da melhor maneira que conseguiu, para logo em seguida puxá-la para o chão, o que, incrivelmente, tornara-se uma atividade complicada demais. Todo o esgotamento a atingiu de uma vez, junto com uma imensa vontade de se jogar naquela cama e dormir a noite inteira, de preferência, mas não faria isso. Tomara uma decisão, e não faria nada além de segui-la.

— Grávida? – murmurou, e sua esposa ergueu uma das sobrancelhas, cruzando os braços diante do peito.

— Era essa a palavra mágica?

O objetivo era simples: Destilar todo o veneno que pudesse atingi-lo, machucá-lo, feri-lo, assim como ele fazia com ela.

— Beatriz, esse assunto é sério.

Ela sentiu vontade de rir quando o ouviu, por mais que isso contrastasse com o nó em sua garganta. Era muita hipocrisia para uma pessoa só.

— É claro que é. Mas sabe o que mais é um assunto sério, Thiago? – agora estava frente a frente com ele, cutucando em seu peito a cada vez que queria enfatizar uma palavra. – Filhos, casamento... E você não valoriza nada disso! Irônico, não?

— Bia... – tentou.

— Não! Eu já ultrapassei todos os meus limites. – o interrompeu bruscamente. – Já passou pela droga da sua cabeça que eu tenho sentimentos? Que a sua filha sente saudades de você? – o cutucou com mais força. – Quer saber? É uma pena que esse filho – apontou para a própria barriga ainda lisa – também seja seu, porque a imbecil aqui não tem sequer a capacidade de te trair, também.

— Beatriz, para com isso. – a voz calma dele junto com tentativas de recolher seu pulso a irritaram ainda mais.

— Ah, parar?! – Bia riu, odiando seus olhos marejados por traí-la. – Por que você não para? – pressionou o dedo em seu peito com mais força, obrigando-o a dar um curto passo para trás.

Sua cabeça estava funcionando rápido demais; um zumbido em seus ouvidos a incomodava e o sangue superaquecido corria por suas veias provavelmente numa velocidade incrível. Ainda sim, ela se forçou a pensar um pouco mais. Não tinha mais nada para resolver; seria inútil. Thiago não mudaria em um dia o que não mudara em cinco anos.

— Eu quero divórcio. – declarou subitamente parecendo cansada demais.

Notas finais
Então é isso, gente! Muito obrigada a você que leu esse conto (parte dele, no caso) e espero muito que tenha gostado. Como eu disse, vou postar o restante amanhã. Comentem, pois isso incentiva muito o autor; e lembrem-se: Críticas construtivas são bem-vindas! OBS: Sim, eu mudei a capa. Espero que tenham gostado! Me digam qual das delas vocês preferem (se ainda se lembrarem da antiga, kkkk). Até amanhã! Beijinhos!