Contos & Encantos
3 Mundos Quebrados - Final
Notas iniciais
Aquilo provavelmente foi como um balde de água fria em Thiago. Os olhos arregalados e a boca entreaberta denunciavam todo seu espanto.
— O que?! – aumentou alguns oitavos na voz.
— O que foi? É mais divertido transar com outras mulheres estando casado? – debochou, se forçando a voltar ao seu estado mais calmo, com o tom seco e inexpressivo, embora sua voz um pouco chorosa demonstrava que claramente ela não se sentia nem um pouco calma.
Mas, ainda sim, era bom continuar falando baixo e não se alterar ainda mais. Uma Melissa acordada não seria nada bom naquele momento e, bem, ela estava grávida. Esse era um excelente motivo para não se manter nervosa por muito tempo.
— Não! – gaguejou um pouco, esfregando os olhos a fim de tentar processar aquelas informações de forma mais rápida, provavelmente. – Espera aí, vamos conversar direito.
Agora ele queria conversar? Ela estava ali todo aquele tempo, disposta a ouvi-lo e perdoá-lo, até, mas Thiago chegou tarde demais e desperdiçou todas as suas chances. Beatriz não queria mais ouvir as mesmas desculpas esfarrapadas de sempre e as promessas de uma mudança que nunca chegava. Chegara a seu limite e acreditava, com todas as forças, que estava certa.
— Eu não quero conversar. – passou as mãos pelo rosto. – Vou embora com Melissa para a casa dos meus pais. – anunciou. – Pode visitá-la quando quiser e eu te aviso quando for fazer as consultas e as ultrassonografias.
Aquilo era mais ela se planejando do que o avisando como as coisas funcionariam dali para frente. Tinha que colocar em sua cabeça de uma vez por todas que continuaria tendo contato com ele através das crianças e teria que aceitar isso uma hora ou outra. Naquele caso, não tinha a possibilidade de sumir da vida dele. Não se quisesse continuar dentro da lei, pelo menos, e sua profissão exigia isso.
— Você fala como se já estivéssemos divorciados. – desesperou-se.
— Essa é a ideia.
E, sem nenhuma intenção de continuar com aquele diálogo, ela o contornou e seguiu para o corredor com a mala. Era bem ilógico, quando ouvia seu lado mais racional. Casais geralmente não se divorciam em seus aniversários de casamento, tampouco com um bebê à vista. Mas eles, mais uma vez, não eram como os outros casais, o que era uma pena. Talvez, se fossem como tantos mais, seriam um pouquinho mais felizes, e era só isso que Beatriz queria: Felicidade. E não fazia sentido continuar com alguém que estava muito longe de lhe proporcionar isso.
— Você pode pelo menos me dar chance de falar? – ele pediu, em um tom agudo que beirava o desespero, mas ela procurou não se deixar abater por isso. Thiago poderia estar sofrendo, no entanto nunca chegaria perto de tudo que ela sofreu.
E sim, Bia podia lhe dar uma chance de se explicar – como se fosse possível –, embora não quisesse. Agora ela só queria colocar as roupas da filha na mala, posicionar a menina na cadeirinha do carro e ir embora. Parecia tão simples quando não incluía Thiago como um imprevisto, na história...
— Tudo bem. – parou de andar subitamente, virando-se para ele. – Você tem alguma coisa para falar?
Beatriz o encarava em forma de desafio, provocando-o, deixando bem claro que sabia que ele não fazia a menor ideia do que dizer, mas uma centelha de esperança o aguardava com cuidado, implorando para que alguma palavra útil saísse de sua boca. Ela nunca veio.
— Acabou, Thiago. – constatou o óbvio, com a voz trêmula. – Nem era para ter começado.
Antes que a conversa tivesse alguma chance de recomeçar, entrou no quarto de Melissa tentando ser o mais silenciosa possível e se direcionando ao armário da menina. A ideia era colocar apenas algumas roupas ali dentro, e não tudo. Tinha plena consciência de que teria de fazer algumas viagens para conseguir pegar todas as suas coisas e as de sua filha, embora já estivesse cogitando a ideia de deixar o berço e alguns brinquedos ali, afinal ela precisaria disso quando ficasse com o pai.
“Deus, eu realmente estou fazendo isso?” era o pensamento que corria por sua mente enquanto estava ali no escuro, procurando o par certo de um sapatinho rosa. Dava para sentir a presença de Thiago atrás dela e, olhando por cima do ombro, o viu admirar a filha adormecida, a filha que boa parte das vezes ele esquecia. Bem, pelo menos ele teria tempo para se redimir com Melissa e com o bebê, era só querer.
— Você não pode fazer isso. – disse em tom baixo.
— Sim, eu posso. – e já estava fazendo. Enquanto pegava o ursinho de pelúcia no berço, continuou: – Não estou te privando de ver sua filha nem de acompanhar essa gravidez.
Ela saiu do quarto de Melissa, de repente achando difícil demais ter Thiago ali, como sua sombra, seguindo-a tão de perto. Seu medo era de que a qualquer momento fosse atraída pelo mais cômodo e continuasse com aquela vidinha patética, mas não se deixaria levar por sentimentalismo nenhum, dessa vez. Seu amor por ele nunca a levou a lugar nenhum, e era um mal que deveria ser cortado pela raiz.
Beatriz pegou as chaves do carro que estavam jogadas na mesa de centro e foi para o lado de fora, fingindo não reparar que seu – ainda – marido fazia o mesmo. O ignore, vai ser melhor para todo mundo. Num esforço maior do que deveria fazer, ela colocou a bagagem dentro da mala do carro. Seria tão bom fechar os olhos e fingir que nada disso estava acontecendo... Mas aquele pensamento foi esquecido com sucesso. Era perigoso e atraente demais para seu próprio bem.
Uma ampulheta imaginária a avisava que o tempo estava acabando; agora só faltava buscar Melissa e sair dali, o que lhe causou uma vontade terrível de chorar. Seu peito parecia pesar toneladas, mas Beatriz não derrubaria nenhuma lágrima enquanto ele estivesse em seu campo de visão. Preferia fingir que ele não a afetava; que não sentia tudo aquilo, de fato, mesmo que a realidade fosse o completo oposto.
Em meio a um suspiro, notou que estava por tempo demais olhando para além do carro e se preparou para entrar naquela casa pela última vez no dia e, caso tudo desse certo, pela última vez na vida, também. Claro, ela faria isso se tivesse o caminho livre.
— Sai, Thiago. – tentou, por mais que não estivesse se achando autoritária demais. Ele não saiu.
— Bia, por favor, me escuta. – praticamente implorou. Visto que ela não estava disposta a ter algum contato visual, Thiago envolveu o rosto dela com as mãos, mas Beatriz ainda não o olhava diretamente nos olhos. Não podia, não conseguia, não queria...
— Para com isso. – pediu, numa tentativa falha de se desvencilhar. Já era tudo difícil demais por si só, e ele não estava ajudando.
— Por favor, me perdoa. – Não... Não importa o quanto ele pareça arrependido, ele não vai mudar. – Eu sou um babaca, sei disso, mas eu te amo. Por favor, me dá uma chance, por favor.
Beatriz finalmente o encarou, o que não foi uma atitude muito inteligente, por sinal. Um misto de confusões a invadiu, dividindo-a bruscamente, sem lhe dar a chance de analisar as coisas mais friamente. Perdoar, ou não? Passar por cima ou não?
Sim. Ele está chorando por você; te implorando seu perdão.
Mas isso não é nem metade do que você chorou por ele.
E, antes que todo seu planejamento desmoronasse, colocou as mãos em seu peito e o empurrou – de uma forma gentil demais para seu gosto –, odiando aquelas duas ou três lágrimas que deslizaram por seu rosto sem a sua permissão.
— Não. – disse, não indo muito além de um sussurro, negando com a cabeça para enfatizar aquilo para Thiago e para si mesma. – Não dá mais. Vai viver a sua vida do jeito que você sempre quis. – deu de ombros, embora machucasse chegar à conclusão de que nunca fora o que ele desejava verdadeiramente. – Nem sei por que se casou comigo.
Dessa vez, não tinha como voltar atrás. Beatriz não pensou em nada que não fosse buscar Melissa e ir embora. Não cogitou a ideia de Thiago pará-la mais uma vez, tampouco a de seus pais não a aceitarem de volta. Certo, essa era uma preocupação válida – eles tornaram-se distantes depois do casamento dela com Thiago, que claramente era uma coisa que não aceitavam totalmente –, mas acreditava que a acolheriam até que estabelecesse sua vida de novo. Se não fosse por ela, seria pela neta, tinha certeza.
— Shhh... É a mamãe. – murmurou ao tirar Melissa do berço, ouvindo-a fazer muxoxo.
Em passos lentos, foi para o carro e colocou a filha na cadeirinha, procurando uma posição confortável, mas era difícil fazer isso com ela adormecida.
Beatriz ergueu-se para pegar o ursinho de pelúcia que deixara no teto do automóvel para deixá-lo junto da menina e notou Thiago encarando-a incrédulo, pasmo de um jeito que nunca achara possível dele ficar, mas isso já não importava mais. Para o bem ou para o mal, já havia tomado uma decisão e assumiria todas as conseqüências dela de cabeça erguida, mesmo que isso causasse algumas feridas.
— Eu vou dar início à papelada do divórcio. – avisou, mas realmente achava que tinha algo mais importante que qualquer documento. – Não esquece dela. – foi a última coisa que disse antes de sentar-se no banco do motorista e ligar o motor, virando a próxima esquina da forma mais rápida que podia.
Mas não seguiu adiante quando entrou na outra rua; apenas estacionou de qualquer jeito e ficou parada por cinco, dez, quinze minutos, colocando a cabeça em ordem. Tudo aquilo realmente havia acontecido em poucas horas. Era novelesco demais, mas era verdade. Tivera coragem de deixá-lo para trás e, por mais que sua cabeça estivesse mais leve, essa informação de paz não foi passada ao seu coração, que estava destroçado no momento.
Sendo assim, Bia não se julgou dessa vez, deixando todas as lágrimas caírem sem barreiras, sem nenhuma vozinha irritante em sua mente chamando-a de trouxa por amá-lo e nem um conselheiro do tipo grilo falante lhe consolando. Apenas chorou. Pelo fracasso do casamento, pela mudança na vida de Melissa e pela gravidez surpresa, tudo num dia só. Era demais, mas era o que tinha para hoje. Vários mundos individuais quebraram-se naquela noite, e isso fez com que um único desmoronasse completamente – o mundo que continha sua família – porém ela tentaria restaurar o seu e os de seus filhos. Thiago teria de se virar sozinho, dessa vez.
Quando se sentiu apta para voltar a dirigir o fez, finalmente deixando para trás aquela vida destruída e seguiu para uma nova, esperando que fosse melhor que a anterior. Mas era um preço justo a se pagar.
Dessa vez, não se planejou muito, apenas respirou fundo e seguiu em frente, decidindo que não se contentaria com migalhas dali para frente.
Fale com o autor