Contos Diversos Volume 1.

26 Terceiro Conto - Arthur e sua epifania


Terceiro Conto – A epifania de Arthur.

Capítulo Seis – Um adendo ao passado parte 1 – O julgamento do passado.

Sempre tinha aquela pessoa em minha memória que gostaria de ser igual ela, sendo meu pai, meus amigos, meus professores, isso é estranho, pois eu nunca quis tentar ser eu mesmo, era como se todas as pessoas em minha volta fossem melhores do que eu e logo valeria a pena viver a vida de estranhos do que a minha própria, como dizia o ditado, “a grama do vizinho é sempre mais verde”. Todavia quando Helena entrou em minha vida ela trabalhou de uma forma como se eu mesmo me aceitasse e dessa forma eu desejava ser eu mesmo do que outras pessoas e aos poucos percebo o porquê as histórias de outras pessoas eram mais interessantes do que a minha.

Eu a conhecia para confiar nela? Quer dizer, eu não sabia de seu passado, se ela tinha uma família, se ela tinha amigos, porque ela veio para cá, e cada vez mais que eu pensava sobre isso tornava mais perturbador.

E se realmente ela for uma assassina?

E se ela se mudou de sua cidade por conta de antecedentes criminais?

Será que estou passando por um treinamento para se tornar um cúmplice de crimes ou algo assim?

Pare de ser idiota Arthur, isso é impossível, ela nunca ajudaria aquela mulher se ela fosse esse tipo de pessoa.

– Arthur, eu encontrei você, eu preciso de ajuda.

Eu gelei, ao ponto de não perceber o café escorrer pela xícara e queimar minha mão, eu por instinto solto a xícara que se espatifa no chão.

– Que tipo de ajuda? Quer dizer? Assaltar um banco ou coisa assim?

Merda, o que diabos eu estou falando?

– Na verdade eu queria atestar uma documentação, no entanto esse documento está sob sua jurisdição, você está bem? Parece pálido.

– E-eu, estou ótimo, enquanto a você? Parece que a gripe não passou.

– Ah, mas isso vai passar, já tomei alguns remédios para colisa e mal estar...

Ela logo pega o lixo destinado a copos e vomita dentro dele, logo depositando perto da máquina de café como se nada tivesse acontecido.

– Mas estou bem melhor agora.

– Estou vendo...

Sua voz estava rouca por conta da gripe, mas sua disposição não parecia como a de um doente, talvez seja verdade o fato das mulheres aguentarem mais as doenças do que os homens, eu acredito que se eu tivesse no estado que ela está naquele momento eu estaria em casa debaixo das cobertas assinando meu testamento.

–Não é por nada não, mas você não deveria estar em casa hoje? Ontem você já não estava legal.

– Eu preciso me distrair um pouco, por isso eu vim trabalhar.

– Você acabou de vomitar na lixeira dos copos.

– Quem vomitou na lixeira de copos? Que horror. – Gritou a novata do outro lado da sala.

– Era isso ou sujar o chão. – Comentou Helena.

– Acredite! Essa não é sua melhor forma, já pensou em ler um livro em casa, por exemplo?

– Você tem toda razão, irei arrumar minhas coisas e ir para casa.

– Obrigado...

Notável dizer que as pessoas tornam se mais vulneráveis quando estão doentes, talvez por estarem encarando a morte de perto eles sejam mais receptivos a sentimentos alheios, ou que quer que seja Helena demonstrava sinais de fraqueza e aquele momento seria ideal para que ela logo revelasse seu passado misterioso, afinal de contas eu apenas converso com ela para saber suas histórias, é esse meu motivo de vida.

Eu posso ter exagerado em dizer que meu motivo de vida é escutar histórias, mas acredito que caro leitor, esteja tão curioso quanto eu de conhecer o passado dela, agora é a hora, e pensar que o título dessa parte da história denuncia o que a trama sugere, como se eu mudasse o título da história dizendo que alguém vai morrer e isso acabaria com a graça da leitura, mas sejamos francos, nunca fui bom em guardar segredos...

Aquela noite sem estrelas no céu tornava mais sombria as ruas enegrecidas por conta dos postes que mal funcionavam na ausência de luz, os únicos brilhos que vinham daquela rua eram de prédios e arranha céus que insistia em dizer que havia uma parcela de pessoas acordada as duas da manhã naquela tarde, o dia foi longo como sempre, além do trabalho e da faculdade eu tive que ir a uma festa de um amigo meu que tem uma vida noturna ativa, logo era de se esperar que sua festa fosse comemorada após a meia noite, mas tive que ir um pouco mais cedo, até mesmo antes de cortar o bolo, se dependesse deles, eles cortariam o bolo quando o sol nascesse.

Aquele homem que havia me interrogado sobre Helena estava saindo da casa dela enquanto eu finalmente chegava a casa, logo me perguntei se ela realmente se entregou ou poderia ter acontecido coisa pior, acelerei o passo até me encontrar com ele.

– O que você está fazendo aqui?

– Nada demais, só conversando com uma antiga amiga.

– Uma amiga que você acusa de assassinato?

– Foi uma metáfora, entretanto você deveria conhecer o passado das pessoas que você interage, pelo seu próprio bem.

– Se ela esconde, quer dizer que não é uma história boa para compartilhar.

– É mesmo? – Ele logo tirou um caderno com capa de couro desgastado e logo me entregou.

– O que é isso?

– O diário dela, caso queira conhecer seu passado.

Toda a história de Helena estava em minhas mãos, eu o encarei atônito, o sujeito sorriu e seguiu até o ponto de ônibus, fiquei atentado a ler, mas um mau pressentimento me impediu de fazer isso, ao olhar a casa dela eu percebi que a luz estava acesa então eu decidi entregar aquele diário para ela afinal de contas eu não tinha o direito de bisbilhotar seu passado, mesmo que ela estivesse devendo história para contar.

A porta estava aberta e logo encostei a mão na maçaneta, eu logo imaginei em uma cena de filme inconveniente onde você entra em um quarto de alguém que está fazendo algo constrangedor, mas logo adverti a mim mesmo que aquilo era impossível, mas mesmo assim eu avisei que estaria entrando, pelo menos para que ela tivesse tempo para esconder seu constrangimento.

Demorei alguns segundos e não ouvi resposta, eu imaginei que ela estivesse no banheiro e não ouviu a minha advertência, sem pensar duas vezes eu abri a porta e logo senti um embrulho no estomago.

Helena estava desmaiada no chão, de pijama sua respiração estava ofegante e suava até demais, sua roupa estava encharcada.

– Meu Deus, o que aconteceu com você? – Eu corri para acolhê-la e percebi que ela estava quente até demais. – Você está ardendo em febre! Porque não pediu ajuda?

– Ele voltou, ele está de volta para me lembrar do meu passado. – Ela reuniu todas as forças para dizer isso antes de desmaiar.

Corri para ligar para uma ambulância e fiquei ao lado dela até a ajuda finalmente chegar.

Eu a acompanhei até o hospital, por algum fato que desconheço não havia ninguém que pudesse ser avisado pelo estado dela, era como se ela tivesse largado sua vida antiga junto com sua família e amigos, encarei o diário e me perguntei se todas as dúvidas estivessem ali, eu nem sei por que eu o levei comigo.

Passei o resto do dia no hospital, liguei para o serviço avisando que iria faltar e aquele diário não escapava de minha visão, mas logo eu encarava Helena dormindo tranquilamente na cama do paciente e esqueço um pouco do seu passado.

“Não vou ficar bisbilhotando a vida dela enquanto ela esta se recuperando, melhor esperar ela acordar e perguntar para ela diretamente.”

O tempo passou e ela não despertava logo eu comecei a mudar de ideia e estava prestes a ler o diário dela quando ela despertou.

– Vá em frente, pode ler.

No susto eu derrubei o diário dela, junto com o vaso de flores que se espatifou no chão.

– Avisa antes de acordar. – Eu reclamei.

– Ei! – Uma enfermeira abriu a porta enfurecida. – Silêncio, você está no hospital.

– Desculpa. – Eu sussurrei.

Logo ela fechou a porta e pude ouvir os passos dela que demonstrava uma pressão por estar com raiva de alguma coisa.

– Porque você não me avisou que estava passando mal? – Eu interroguei.

– Não queria ti preocupar.

– Mas conseguiu essa proeza.

– Me desculpe. – Estranho, nunca vi ela pedir desculpas, como eu havia dito, quando a pessoa está doente ela se torna vulnerável e aquela era a minha chance.

– Sobre aquele senhor...

– Todo meu passado está nesse diário, se quiser saber, é só ler, afinal de contas você gosta da história das pessoas...

– Tem certeza?

– Sim, afinal de contas você salvou minha vida, é o mínimo que eu posso fazer...

Engoli em seco, ela parecia mais triste que o normal, talvez aquele senhor o abalasse de mais, abalou tanto que ela acabou desmaiando por conta da gripe, e agora eu podia conhecer finalmente sua história, finalmente o que eu mais desejava dela, a sua história.

Abri um diário e me senti lendo um livro que eu tanto esperava, um livro pequeno basicamente, eu acredito que aquele caderno mal tinha quinze páginas e o resto das páginas foram arrancados propositalmente como se as páginas em branco fosse desconfortantes para ela, o livro, quer dizer, o diário começava com uma data decorada de corações e uma narração breve sobre seu primeiro dia, ou melhor, o primeiro dia que ela havia ganhado aquele caderno onde ela poderia brevemente registrar todos os seus dias deste então.

12/02/1998

“Um dia normal em minha vida, o dia que ganhei esse caderno, o dia que pretendo lhe dizer todos os meus sentimentos de minha vida, o dia do meu aniversário.”