Contos Diversos Volume 1.

10 Primeiro Conto - Homem Máquina: Último Capítulo.


Primeiro conto – Homem máquina.

Capítulo Final – Ser máquina é...

Todos estavam mortos, foi o que o sistema havia dito a mim sobre o resto do grupo da “verdade” que tinha sido capturado pelos executores, e Agatha tinha razão, o sistema irá eliminar qualquer ameaça em potencial de sua administração, entretanto eu preferia ser morto em vez de passar por tudo aquilo.

Após relembrar a minha verdadeira vida, passei por inúmeros testes, onde basicamente eles retiraram de minha cabeça inúmeras informações sobre minhas invenções e informações importantes sobre o projeto Adão. Aquela era a forma mais dolorosa possível de obter as informações e para piorar aquele dispositivo foi criado com base de minhas invenções.

Eu pensei em tudo que eu havia passado até ali, eu imaginei que seria mais feliz se não soubesse minha real identidade e que a última coisa que eu gostaria de fazer em vida seria ajudar o sistema a se fortalecer.

Após dias de exames e análises, o sistema parou com os testes, eu imaginei que eles haviam conseguido tudo que precisava e logo mais tarde eu seria executado como todos os outros, de certa forma foi um alívio, eu estava cansado de ser tratado como rato de laboratório.

– Agora! – A voz do sistema ecoava naquela sala. – Iremos iniciar o processo de desumanização, e encerrar com o processo de maquinização.

Maquinização? O que seria isso?

Máquinas surgiram na porta principal da sala, com inúmeras ferramentas cirúrgicas.

– Não me diga que... – Tentei me debater, mas as mordaças não soltavam de jeito algum.

– Vamos iniciar o processo de remoção do cérebro.

– Vocês vão me prender em uma máquina? Eu me recuso, não cheguem perto de mim.

Eles injetaram algo em mim, como eu me debatia eu senti uma forte dor, e logo minha vista começou a escurecer.

– Não façam isso.

– Você não precisa de uma bateria de testes como os outros do rank, você me criou e isso prova que é útil para o sistema, ser o cérebro do país.

Foi à última coisa que ouvi antes de apagar por completo...

O tempo se esvaia e eu tentava imaginar onde eu estava. Eu estava morto? O que havia acontecido? Tudo estava escuro e assustador, logo uma voz começou a me guiar naquela escuridão.

O logo da corporação girava intensamente enquanto a frase a seguir surgia na tela, além de uma voz que presidia o seguinte slogan.

“Corporação Volta. Qualidade de vida para toda família”.

Um homem que aparentava ter aproximadamente uns cinquenta anos com barba ralada e cabelos grisalhos além de usar óculos se apresentava diante do público.

– Olá, sou Doutor Goldman, você deve me conhecer do livro mais vendido, “ser humano é...” e a continuação, “ser máquina é...” Esses livros discutem de maneira filosófica até quanto à mente humana deve ser trabalhada em máquinas no nosso cotidiano, mas não será dos livros que falarei agora, e sim dos grandes recursos que a corporação Volta podem lhe proporcionar para sua qualidade de vida.

O homem se levantou da cadeira e seguiu ao lado esquerdo, a câmera acompanhava seus passos, ele se aproximou de uma tela de vídeo e o ligou, o logo da corporação surgiu na tela e logo um zoom sobre a tela foi mostrado.

O narrador começava a dizer o seguinte texto.

“A corporação Volta foi uma empresa privada criada em 2005 pelos visionários, Alexandre Volta e Tobey Titor, ambos tinham uma visão do futuro e logo tornaria a vida das pessoas mais qualitativa possível graças as suas tecnologias de ponta.”

“Foi à primeira empresa a utilizar combustível biodegradável para suas tecnologias e a primeira empresa que criou um tipo de tecnologia que não era nocivo ao meio ambiente.”

Um homem magrelo surgiu na tela, para dizer o seguinte.

– A corporação Volta é uma das corporações mais caras do mundo, e nem por isso eles não deixaram de se preocupar no meio ambiente.

“Dispositivos como mochila a jato e até mesmo uma cozinha inteligente, foram desenvolvidos por eles com o menor custo e a melhor qualidade possível, mas isso não os impediam de crescer.”

Outro senhor começou a dizer o seguinte.

– Foram aí que eles decidiram contratar Doutor Albert Goldman, um renomado engenheiro, e escritor, eles pretendiam revolucionar o mercado com essa parceria.

“Dessa forma, eles adotaram o logo, juntos na revolução, marcando o inicio da mudança do mercado. Até que em maio de 2035, foi apresentado o chip do livre arbítrio.”

Um vídeo de uma palestra do Doutor Goldman surgiu na tela, ele apresentava sua nova intenção.

– Essa tecnologia veio para mudar de vez o conceito homem máquina empregada na terceira revolução industrial, ele basicamente faz com que a máquina tome decisões próprias do que achar necessário de forma que eles não precisem do comando das pessoas para trabalhar, essa facilidade surgiu quando inúmeros acidentes de pessoas despreparadas tentavam controlar essas máquinas.

“Aquela palestra marcou o nome de Goldman e da corporação Volta na história.”

Uma mulher de cabelos loiros disse o seguinte.

– Dá para acreditar? Um homem onde você não aposta nada disse que revolucionou a indústria ao criar um dispositivo que permitia as máquinas tomar decisões próprias de acordo com aquele trabalho.

Outro sujeito apareceu na tela e começou a dizer.

– Antigamente era possível automatizar a máquina a fazer duas ou mais coisas de uma vez, mas segundo o Doutor Goldman, as possibilidades da máquina escolher o que fazer era infinito, ele acabará de desenvolver um complexo cérebro humano em uma máquina.

A tela escureceu e novamente o foco foi para o Doutor Goldman.

– E após essa apresentação eu veio lhe apresentar a conclusão do projeto Adão.

Ele retirou o manto que estava em cima de uma mesa ao seu lado, e no momento que ele o fez, uma máquina com uma esfera no centro de seu corpo que brilhava intensamente foi mostrada ao público.

– Esse é o Genesis, a nova máquina pensante das empresas Volta.

O vídeo se encerrou e tudo ficou escuro.

Eu me lembrava daquela palestra, eu havia participado nos bastidores e estava feliz com o desempenho de nosso trabalho, nunca iria imaginar que iria me arrepender profundamente depois.

O fato de essa memória surgir em minha mente era para se lembrar de meu pecado original, a raça humana seria extinta por minha causa, e eu não poderia morrer já que o sistema faria assistir para sempre a queda do mundo as chamas.

Um tempo depois eu comecei a me acostumar com a escuridão, de alguma forma eu não estava vivo, mas também não estava morto, senti uma leve dor de cabeça como se mais informações passassem em minha mente.

E finalmente despertei.

Em frente às câmeras de vigilância, seria um sonho? Tudo que eu havia visto não era real? Porque não sinto meu corpo? Será que é aquele fenômeno conhecido como paralisia do sono, onde o corpo da pessoa torna-se desligada enquanto a mente está ativa.

O que está havendo? Irei tentar olhar para baixo.

Nada, não havia nada, o que é essa câmera?

– Teste número 239827A, projeto 16, iniciar...

O que está havendo? Porque essa sala tem um vidro espelhado?

– Consegue me ouvir?

Mas é claro que sim, porque minha voz não sai?

– Muito bem, agora defina o que você sente agora?

Porque esse tipo de pergunta?O que está havendo? Não consigo encontrar meu corpo, não consigo...

Encarei para o vidro espelhado, a meu reflexo mostrava uma cabeça robotizada mexendo sem parar, a cabeça não tinha expressão alguma, a boca estática só mostrava várias barras que acendiam de acordo com minha voz...

Eu havia me tornado máquina, isso... Não... Pode... Está... Acontecendo!

– Não pode estar acontecendo o que?

– Me... Tirem... Daqui...

– Só iremos tirar você daí quando terminarmos os testes, agora nós vamos iniciar a segunda bateria de testes.

Nada... Foge... Dos... Meus... Olhos era o que conseguia dizer naquele estado, agora com um corpo inteiro eu tinha limitações de movimentos graças ao núcleo que se encontrava em meu peito, um núcleo que servia como segundo cérebro e impedia meu cérebro humano de fazer coisas absurdas, eles me colocaram isso quando tentei várias vezes em me destruir, não queria ser máquina pelo resto da vida.

O sentimento é como se você estivesse preso, no entanto você não conseguia tomar suas próprias decisões para seguir com a vida, isso mantém a ideia de que o sistema fez isso para nos culpar por ter tratado eles com poucas limitações.

Eu não podia fazer nada, apenas assisti as câmeras e denunciar aquelas pessoas que pareciam suspeitas, não tinha mais necessidades de comer, eu só dormia quando era necessário recarregar o meu corpo, meu corpo maquinário que me permitia manter vivo, que deixava o cérebro viver, e isso era terrível.

Primeira hipótese.

“O que define ser humano...?”

Creio que a definição de ser humano agrega particularmente a capacidade de decidir de maneira individual seu próprio caminho, com escolhas que acerca suas vontades.

“O que define ser máquina?”

Minha ideia em relação a maquina é criada a partir de um ser oco que não tem controle de seu próprio destino, tudo é pré-determinado.

“A partir do momento que eu tenha uma escolha imprevisível, eu deixo de ser máquina?”

Sim.

“A partir do momento que eu sei a sua ação futura já pré-determinada por mim, você torna-se máquina?”

Sim.

“No momento que o humano segue regras de um ser superior, ele deixa de ser humano?”

Acredito que não.

Última Hipótese.

“Existe uma regra para definir se a máquina é humana ou não?”

A máquina continuará sendo máquina, pois suas funções são determinadas pelo ser humano, independente se existe um “chip de livre arbítrio criado por um doutor hipócrita como o doutor Goldman”.

“Enquanto a você? Você define-se como humano ou máquina?”

Pude encarar um espelho retangular a minha frente e meu corpo feito de carne e ossos foi se deteriorando e se tornando reluzente, como uma carcaça metálica e os olhos incandescentes, eu não o via mais como humano, eu não soube responder aquela questão.

Meu sistema retornou a funcionar, voltei ao meu trabalho de vigia e esqueci aquela breve discussão que tive com minha mente.

FIM...