Ele estava cansado... um metal temperado demais... pronto para rachar na próxima submersão, destinado a ser uma frustração do ferreiro, descartado. Inútil. Como desejava sonhar... mas não os sonhos espectrais do sono, não. O sonho que desejava era nada menos do que o sonho legítimo de menino. Daqueles que envolvem invenções impossíveis, aventuras improváveis e generosidade descontraída pelo mais sublime otimismo, pela mais pura esperança. Ele fora tão ordinário quando criança. Comum, como todas as outras. Ignorante e feliz, apesar de tudo. Mas não importa para uma criança ser ordinária. Afinal, o futuro é extraordinário! E grandes coisas aguardam a alma desejosa, pronta para alçar voo.

Pois bem, a criança ordinária cresceu, como tanto ansiava. Tornou-se, contudo, um homem ordinário. E, incapaz, portanto, de sonhar, foi o homem viver. Mas a vida tinha mudado, desde a última vez que o menino fora ver. Os robôs gigantes, tão almejados, não estavam em lugar algum. A muralha de campo de força incrível que ele usaria para proteger os animais da África também estava faltando. O seu diploma de Harvard sumira. A menina que o amava e admirava, doce e carinhosa, fugira de sua presença... De seus belos feitos não se lembrava mais, e de seu emprego na ONU não tinha mais notícia. O menino encontrou-se num espelho empoeirado e se viu velho. Mas não era o velho que ele lembrava, de barba longa e majestosa, com um olhar sábio e sereno, com filhos fortes e muitos netos que viviam querendo ouvir suas histórias. Invés disso, viu um senhorzinho, magro pela fome que a vida lhe deixou dos sonhos. Seus olhos, vermelhos, com cavernosas olheiras, abatidos e sem vida. Seu rosto estava limpo, mas uns espetos de barba por fazer coçavam-lhe as carnes. A cabeça, devorada pela calvície, suplantara sua cabeleira.

O menino se assustou com o reflexo. O tocou. Percebendo que era ele mesmo, nota lágrimas precipitarem no rosto do reflexo idoso. Chorava, aquele velho espectro, pois só lhe restaram as lágrimas da tenra idade. Escuridão o envolvia e nada era visível atrás de si. Estava acabado. Os sonhos, mortos. O menino fora esquecido. Só sobrara o velho fantasma a prantear, sozinho, por trás do vidro. Nada mais havia e mais ninguém...