Uma tela nunca se encontra inteiramente vazia. Em sua brancura primordial estão todas as cores da luz e, portanto, encontram-se ocultas em sua superfície todas as formas potenciais. Ao se deparar com o artista, a tela muda. Limita-se em seu potencial pela imaginação do artista, pela sua personalidade, pela sua ideologia, pelo seu estilo, pelos seus conceitos e preconceitos, habilidade e firmeza das mãos.

Então, traz o artista as ferramentas de seu ofício e, novamente, a tela se contrai. Limita a sua miríade de cores a um conjunto definido de tinturas. Limita seus traços à anatomia do pincel.

O artista então rasga a brancura etérea, impiedosamente a sangra de suas cores. A tela diminui novamente e, como último sacrifício, desconstrói-se para se tornar Ser. Desfaz-se do seu manto de potencialidade e, como um recém-nascido, vem ao mundo em linhas definidas. Torna-se real.

É pela limitação do potencial que o Dever-Ser ascende à matéria. O artista analisa a obra de suas mãos e sorri. Acha-a bela.