Contos Amaldiçoados

1 Capítulo I - Chapeuzinho Vermelho


Notas iniciais
Aproveitem a história.Críticas e opiniões são sempre bem-vindas.

Era uma vez uma pequena garota.Apesar de ter um nome,todos a conheciam como Chapeuzinho Vermelho,então,este apelido acabou por substituir seu verdadeiro nome.O motivo do tal apelido provavelmente você já saberá quando ler isto,parte por que nos tempos de hoje todos nós conhecemos a amável Chapeuzinho Vermelho,parte por que o nome é um pouco obvio.Esta história apesar de ter a pequena Chapeuzinho,não há nada de doce em seu ser.

De fato,vocês logo entenderão o motivo disso.Então,tentaremos começar de novo,sim?

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Era uma vez,uma pequena garota.Todos a conheciam como Chapeuzinho Vermelho.Andava tranquilamente pela floresta,a caminho da casa de sua avó,entregar alguns doces e fazer uma bela visita,como já fizera tantas e tantas vezes.Andou despreocupada pela floresta,e mal chegou quando pôs os primeiros pés no quintal bem cuidado da vovó.Uma sensação de Dejavu perturbou seu ser.Sempre acontecia isso ao se aproximar da casa da vovó.Ela ignorou,como sempre fizera.

“Vovó?Sou eu,Chapeuzinho.A senhora está ai?”.A garota abriu a porta levemente.Na cama,estava deitado um grande lobo,usando uma touca rosa que Chapeuzinho reconheceu como da sua avó.Ela tinha a impressão de que deveria perguntar o que acontecera com a “vovó”,ela parecia...diferente.

Mas não havia necessidade...Algo no seu intimo formigava dizendo que aquela era a vovó,mesmo sendo bem obvio que não passava de uma grande fera deitada na cama da pobre senhora.

“Olá minha netinha.”Disse o grande lobo.

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“Tá me zoando?”disse secamente a garota.”Você não passaria nem por avó de urso,pode parar com essa farsa ridícula.”A garota sentia no seu íntimo que deveria participar daquela farsa,mas não fazia sentido.Por algum motivo,ela tinha a sensação que logo seria salva por um lenhador robusto...Mas apesar de ter doze anos,não era uma garotinha indefesa.

O lobo encarou a garota alguns segundos,então arrancou a touca,e ficou em pé.Tinha dois metros de altura,pelos castanhos como carvalho na primavera,e dentes que poderiam ser confundidos com facas.Seu olhar era de intimidar até o mais corajoso dos guerreiros.O lobo rosnou para a garota.

-Por que não fazemos como das outras vezes garota?-O lobo riu.-Não,dessa vez vai ser bem melhor.Mais divertido....-Ele lambeu os lábios e saltou para a garota com tudo.

Sangue caiu no chão.A garota empunhara uma faca de cozinha e acertava rapidamente no ombro do lobo.Como eu disse,ela não era uma garotinha indefesa.Não mais.Chapeuzinho roubara uma faca da cozinha de sua mãe e escondera na pequena cesta de doces.

Vocês já devem ter notado que há algo errado no reino dos contos de fadas,afinal,não é todo dia que uma garota de doze anos esfaqueia um lobo de dois metros.Mas é meio tolo deixar uma garota de doze anos vagar completamente sozinha e desarmada entre arvores escuras,cheias de animais ferozes...Bom,enfim.Eu poderia ficar aqui,citando 1001 erros de historias,mas vou deixar que vocês descubram por si só o que diabos está havendo.

O lobo uivou de dor e afastou bruscamente a garota.A faca caiu do ombro ferido,que começara a cicatrizar,e em menos de dois segundos,estava novo em folha.Nem o lobo nem a garota pareciam saber o que estava acontecendo.A garota aproveitou o tempo estupefato da fera e rolou para debaixo da mesa.Ela estava escondida,mas estava desarmada...Deixara a faca cair.

Quando recobrou a si,o lobo rapidamente detectou a garota.Claro,ela podia ser pequena,mas não podia escapar do olfato aguçado.O lobo mirou na mesa e deu um soco.A mesa se esmigalhou em centenas de pedaços de madeira.Nem o próprio lobo sabia que tinha tamanha força,mas aquelas habilidades momentâneas eram fantásticas.A garota não estava ali.

O lobo conseguiu ver a garota correndo casa afora.Deixou soltar um sorriso...A tempos não tinha uma caçada de presa e predador.”Não fuja de mim garotinha,o titio lobo só quer fazer um carinho em você.”

A garota corria desesperadamente floresta adentro.Embora conhecesse bem aquele local,o lobo conhecia melhor.Era mais forte,mais rápido,maior,mais monstruoso.Um predador.Foi ai que a garota percebeu...Em toda sua vida,em todas as sensações de dejavu,ela era sempre indefesa,alguém que precisava ser salva.Mas dessa vez seria diferente.

Ela parou abruptamente,soltando poeira para os lados.Os animais daquela área se esconderam.Sabia que aquela garota trazia mal pressagio.O lobo se aproximava do local,suas pegadas podiam ser ouvidas ao longe.O lobo estava tão convencido,que praticamente estava andando atrás da garota.Então,avistou a pequena Chapeuzinho em meio a uma clareira.Era como um banquete que se dava por vencido sem nem ao menos evitar ser devorado.

O lobo sorriu.”Agora vou mostrar a você por que me chamam de maioral.”A fera viu a garota escondendo algo com uma mão nas costas...Um velho truque idiota.O lobo já era um predador quando alguém inventara aquele truque.

-O que você tem nas costas pra mim garota?Não vai funcionar comigo.

-Vamos ver se não!-A garota com um rápido movimento,atirou uma pedra de sua mão em direção ao lobo.A pedra passou longe,batendo num galho atrás dele.

-Achou que ia funcionar?-Disse a fera convencida.

-Não,mas talvez isso funcione.-Ela chutou uma pedra a sua frente,que fez a mesma trajetória da anterior.O lobo olhou para onde ela mirava,e antes que se desse conta,um pesado galho caiu em sua cabeça.

Chapeuzinho tinha uma boa mira por passar horas em sua casa praticando arremesso de pedras em pequenos animais.Claro que essa parte da historia foi ocultada e desnecessária.A garota sorriu ao ver o lobo caído.

O lobo quebrou o galho,rugindo como um monstro descontrolado.Seus olhos mudaram para uma tonalidade completa de vermelho sangue.A garota estava assustada,mas não demonstrou.Algo no seu intimo começara a muda-la a partir daquela manhã.A tornara mais confiante,retirara seus medos.Mas tudo aquilo havia sido em vão.

Então,o lobo abriu sua enorme boca,ela fechou os olhos.Então,a ultima coisa que sentiu foi um espirrar de algo em seu rosto.Suspeitou que fosse seu próprio sangue,enquanto era devorada.Imaginou que a morte rápida fizesse com que toda a dor fosse embora.Então...

Ela abriu os olhos,e conseguiu ver os olhos do lobo voltando para sua tonalidade normal,enquanto caia com seu pesado corpo para o lado.Um tiro na sua cabeça.A parte direita de seu crânio havia passado de castanho para vermelho.

A garota deveria estar surpresa,mas não estava.Por algum motivo,aquilo também lhe era familiar.Algo assim era para acontecer.

“Deu trabalho te achar.” Disse o caçador que aparecera entre as altas arvores, ainda sorrindo pelo tiro certeiro.Por sorte,vocês fazem bastante barulho.O caçador chutou a carcaça do lobo.Parecia que se divertir com a cara de sofrimento que a criatura abatida fizera.

“Por que não seguiu o roteiro original?”Disse o caçador enquanto guiava a garota floresta adentro.”Roteiro?”Tudo veio a tona,a garota que lembrou naquele momento,de cada vez que visitara a vovó e era atacada pelo lobo,como se todo dia acontecesse a mesma coisa,e que o dia acabasse no “Chapeuzinho e sua vovó estavam juntas e felizes para sempre.”

Aquilo não parecia certo.Mas por que o caçador parecia lembrar perfeitamente disso e ela tinha apenas algumas sensações?Por que faziam isso?A quanto tempo faziam isso?Sua mente estava tão turbinada de perguntas,que mal notou quando chegaram até a casa da vovó novamente.Mas,estava rodeado de pessoas,criaturas e animais.

“Mas o que diabos...” A garota ficou parada,apenas fitando aquela confusão de criaturas que entravam e saíam da casa da vovó.Enquanto observava,olhou de relance para o caçador.O homem pareceu não notar isso,afinal,tinha apenas olhos para a garota.Aqueles olhos pervertidos que ela nunca havia notado.Mas aquela manhã,aquela manhã em especial,ela estava diferente e havia notado.

A garota não havia apenas ganhado confiança,mas uma percepção maior do mundo, quase como se tivesse virado adulta da noite para o dia.Quando olhava para algumas arvores pensava em coisas maliciosas que antes mal sabia da existência.Quando ouvia alguns sons de animais que ela achava que estavam se machucando,sabiam que estavam fazendo coisas que não deveriam ser ditas.Quando percebeu o olhar daquele homem,percebeu suas verdadeiras intenções. Chapeuzinho não notou,mas enquanto fazia sua linha de pensamento,fixava o grande homem ao seu lado com uma expressão de repudio.

Ainda com nojo,começou a se afastar do lenhador em direção a casa da vovó.Somente quando Chapeuzinho se afastou,o caçador pareceu acordar de seus devaneios,de fantasias que nunca aconteceriam.

“Ei Chapeuzinho...”

“Se afaste de mim seu grandalhão nojento!”

Chapeuzinho abriu caminho entre a multidão de humanos e humanoides,ate adentrar a casa da vovó.A pobre senhora estava lá,parecia assustada mas bem.Alguns homens usando um casaco azul-escuro estavam examinando a faca que a garota usara contra o lobo.

“Minha querida...”A avó correu em direção da garota e a abraçou.”Dessa vez ele foi tão brutal...”

“Dessa vez?” Ela se sentia desnorteada.”Quer dizer que houveram outras vezes?”

“Você sabe querida.”A avó se espantou com o jeito perdido que a neta falava.”O trabalho que fazemos todos esses anos.”

Chapeuzinho se sentiu confusa.Sua mente foi bombardeada de lembranças,lembranças de monotonia.A mesma cena se repetindo,ela visitava a vovó e era atacada pelo lobo depois salva pelo caçador.A mesma cena centenas e centenas de vezes.Mas por que só ela não se lembrava?Por isso se sentia como alguém que sempre tem que ser salva?Sua mente foi bombardeada de perguntas.

“Ela está confusa.”Disse o caçador aparecendo em meio a porta da casa de madeira e tijolos,em ristre o sorriso de alguém que não se deve confiar.A pequena garota mais uma vez olhou enojada o rosto do caçador.”Venha minha querida,eu ajudarei você...”Seu rosto se encheu de um ar malicioso. Como ela nunca havia notado aquilo antes? Como ninguém parecia notar? Então, antes que pudesse se defender, algo aconteceu.

Foi em menos de dois segundos.A parede da casa da doce senhora simplesmente foi arrombada,uma grande massa passou,abrindo por ela uma nova passagem.Em um momento de adrenalina,Chapeuzinho viu como se tudo estivesse lento.

Humanoides correndo em direção a casa.O grande lobo destruindo a parede e entrando com tudo,como se a casa fosse feita de papelão.A pobre vovó gritando desesperada enquanto a fera ia com as presas em sua direção. Então ,uma grande cortina de fumaça. Algo atingiu a cabeça de Chapeuzinho, e a garota desmaiou.