Contos Amaldiçoados
2 Capítulo II - Senhor Smith
Notas iniciais
Parecia um corredor de prédio comercial. Talvez por que fosse um corredor de prédio comercial, mas não um comum. Naquele corredor, com várias e várias portas iguais, havia algo escondido. Se não pelos números gravados em um metal gasto em cada porta, qualquer um diria que todo aquele corredor era um grande reflexo. Naquela manhã, o ar estava úmido, porém, um forte cheiro de café vindo de Deus sabe onde cobria completamente qualquer outro odor que aquele tosco corredor poderia ter. Era um cheiro de café doce, talvez com bastante açúcar... Isso me dá fome.
.........
Foi naquele corredor que tudo iria começar, e ironicamente, era ali que tudo iria acabar. Passos pesados ecoavam no corredor. Quem escutasse esses passos diriam que um gordo troll estava a vir. Mas não era um troll (Ora bolas, afinal todos sabemos que os trolls trabalham em outra seção), apesar de ter um humor equivalente. O Sr. Smith subia escada acima. Era um homem pequeno, gordo, e que havia perdido vários fios de cabelo (de forma que de cima, os poucos que lhes restavam tinham um formato de “U”). Usava sempre um terno formal que de alguma forma acabava combinando com seu enorme bigode, e sapatos sociais muito bem engraxados. Sr. Smith não tinha muito o que contar vantagem para seus “amigos”, exceto aqueles sapatos de que tanto se orgulhava.
Uma das histórias que mais contava era que uma vez havia sido encurralado em uma armadilha de bruxas carnívoras africanas e que havia escapado. Até ai era verdade. Ele também contava que para fugir das tais bruxas, havia apontado seu sapato para o sol, fazendo com que ao atingir um certo ângulo, seu sapato em contato com os raios solares havia brilhado tanto que cegando suas opressoras, conseguiu se libertar das cordas que o amarravam, pondo-as para correr chamando por suas mães.
É claro que o Sr. Smith havia distorcido um pouco a realidade ele havia crescido fazendo isso. As bruxas estavam ansiosas para devorar aquele pequeno e gordo homem. Talvez fossem ter carne para uma semana inteira. Uma das três bruxas supôs que talvez durasse um mês inteiro. Mas Smith havia chorado tanto, pelas horas que as bruxas se preparavam arrumando seu jantar (sim, bruxas demoram bastante para jantar, a exemplo daquela que levou um tempo quase infinito engordando João e Maria e acabou atirada nas chamas...) que as bruxas haviam por fim tido pena do pobre coitado e acabaram o deixando fugir. Mas não foi uma perda total, as três riram bastante enquanto ele corria desastrosamente pelo quintal com aboboras encantadas e clamava por sua querida mãezinha.
Eu mesmo teria pena do Senhor Smith, se ele não fosse tão ridículo. Ou tão falsário .Ou tão ridiculamente um falsário gordo. Tudo é pior quando você é gordo. Mas por que diabos estou contando isso a vocês ?Vamos para o foco de nossa historia.
O Senhor Smith estava irritado aquela manhã (como sempre estava),pois o elevador havia quebrado e ele tinha tido que subir até o quinto andar pela escada.O Senhor Smith odiava andar e mais ainda odiava suor. Como o que escorria agora de seu corpo.Ao chegar no quinto andar arfando, tirou um lenço de bolso e enxugou a cara. Então caminhou vagamente até a porta onde deveria ir.
Parou em frente a porta numero 2412.Caso você entrasse nessa porta diretamente, daria direto em uma franquia de unicórnios de pelúcia. Entretanto, Smith sabia o que fazer. Com as dobras dos dedos, bateu quatro vezes no lado direito da porta, uma vez no lado esquerdo e uma vez embaixo. Então, abriu a porta. Um grande salão se materializou atrás da porta. Aquele salão que deveria ser do tamanho de um aparamento pequeno, deveria ser do tamanho de um hall de museu, e aquelas dezenas de portas davam impressão de que o local era infinito. Claro, isso tudo foi feito com mágica. E claro, não me dei ao trabalho de aprender como fizeram isso. Arquitetura mágica me dá dores de cabeça.
O local tinha um piso xadrez muito bem lustrado, de modo que parecia mais um espelho gigante com partes pretas e brancas. As portas eram inúmeras, de todas as cores e formatos. Até as maçanetas eram de diferentes materiais e formas, como uma chave feita de ouro maciço, uma arvore de prata, e uma maçaneta de formato comum feita de madeira de carvalho, todas muito bem lustradas (sim, isso inclui as maçanetas de madeira que brilhavam a luz das grandes lâmpadas). O salão estava lotado com pessoas e humanoides, que andavam de um lado para o outro carregando pastas.
No centro do grande salão, um portal com cerca de cinco metros de altura se destacava. Era quadrado e feito a partir de rochas negras, e exalava uma luz roxa. O portal estava tumultuado do lado da frente (portais não tem lado da frente ou de trás, mas como aquele estava virado para a entrada era denominado o da frente).
Uma fila havia sido colocada em frente ao portal, e parecia que apenas alguns podiam passar pelo mesmo. Smith passou direto pelo portal e viu que na parte de trás ninguém saia. A parte de trás servia apenas para sair ora bolas. O homem ranzinza bateu em uma vassoura inocente que varria o local. Ele deveria se importar, mas não o fez. Simplesmente seguiu para seu objetivo. Mal sabia o Senhor Smith que anos depois viria a ter pesadelos terríveis, vendo o senhor vassoura e seu filho espanador sendo derrubados e quebrados inúmeras vezes.
Então chegou a seu objetivo, uma sala no fim do hall. Era idêntica a uma barra de chocolate, na qual a maçaneta era um daqueles botões açucarados vermelhos e brancos típicos de grandes lojas de doces. Ao adentrar a sala no entanto, era semelhante a uma delegacia de polícia. Lá estava Angel, sua assistente. Uma bela mulher com rosto esbelto e belos cabelos e olhos escuros como a noite. Estava tentando acalmar uma garotinha que parecia assustada. A garotinha trajava um manto vermelho que era um tanto grande para a mesma, caindo sobre o rosto e cobrindo-lhe. Entretanto, Smith conseguiu de alguma forma sentir que a garotinha estava pasma.
Então, colocou a mesa sua pesada pasta, tirando de lá alguns papeis e arquivando-os. “Isso aqui não é uma creche, Angel.” Disse o homem secamente sem tirar os olhos dos vários papeis que remexia. Angel fez uma cara perplexa e se aproximou do homem.
–Senhor, sabe quem ela é?
–Você sabe quem EU sou?
–Senhor, ela está alarmada. Eu e o conselho acabamos de resolver uma situação hostil com o lobo e...
–A garota lida com o lobo sempre, o conselho lida com situações de perigo real. Se o conselho precisou intervir algo está errado com alguns dos lados, e isso não me afeta. –Sr. Smith começou a remexer alguns arquivos em sua mesa. Folheava-los, pegava alguns que valiam a pena e colocava em sua pasta. Os outros e menos importantes eram deixados em cima da mesa. Não valiam a pena.
Angel franziu a testa. Tinha aguentado aquele tipo de situação tempo demais.
–Senhor Smith!- Ela bateu na mesa e pela primeira vez Smith fitou. Parecia com uma extrema raiva. –O senhor é pago para ajudar todas as pessoas! –Ela apontou para os arquivos deixados de lado.- E isso inclui essa garotinha! Se não fizer nada, irei denuncia-lo ao conselho!
–Sei muito bem o que minha posição exige, senhorita. E sei também para que é paga, para me obedecer, não para questionar. Além do mais, tenho muitos contatos. A senhorita quer mesmo fazer isso, Angel?-Smith estava ao máximo tentando controlar seu mau humor, mas aquela mulher o estava provocando...
–Se o senhor não fizer trabalho corretamente irei fazer o possível para puni-lo. Convivi bastante com gente como o senhor, e para mim já chega! Farei tudo possível a meu dispor para...-Um barulho no ar. Carne batendo em carne. Smith deu um forte tapa na cara de Angel. Então aconteceu algo tão rápido que só vieram entender o que aconteceu depois.
Chapeuzinho usou a mesa como impulso, rodopiou no ar e deu um chute na cara de Smith, que o fez tombar para trás com um imenso impacto. Sangue escorria aos montes de sua boca. Smith sentia como se tivesse perdido três dentes ao mesmo tempo. A garota cambaleava arfando, como se ainda estivesse surpresa de poder fazer aquilo e de ter feito aquilo.
Angel ainda se recuperava do tapa que havia inchado seu rosto, quando estava tentando entender o que acontecera. Por cerca de um minuto, os três ficaram ali parados. Olhando de um para o outro. Por fim, Smith se levantou quebrando o silencio.
–Muito bem senhoritas. –Disse Smith calmo. De alguma forma pareceu que aquele chute havia tirado de sua cabeça todo estresse de sua limitada mente. Pegou seu lenço de bolso, limpando o sangue que sujava sua cara. –Conseguiram minha atenção.
..............
Smith agora caminhava com as duas garotas, em meio a imensidão de portas que era o Hall. Alguns empregados do local perguntavam o que havia acontecido com Smith, e para estes dizia que havia sido um acidente, pois não queria perder tempo dando informações que não interessavam a outros. Outros tentavam ajuda-lo, mas este os ignorava, pois sabia que não passavam de bajuladores em busca de boas recomendações. É claro que ninguém pareceu se importar com a grande marca que Angel tinha em rosto, afinal era apenas uma assistente e ajudar assistentes não garantia a ninguém uma boa recomendação, no máximo um obrigado e talvez um encontro. Não valia o esforço.
Enquanto andavam, Chapeuzinho contou o que acontecera com ela aquela manhã. Ela também afirmava que não se lembrava de nada de sua vida, exceto que era conhecida como Chapeuzinho Vermelho e que tinha 12 anos. Ou seriam 14? Na duvida, ela dizia que tinha 13 anos. Sua mente estava nublada e não se recordava de nada direito. Então continuou e contou que o Conselho havia levado-a até aquele local, enquanto tentavam faze-la aceitar de que ela e todo seu mundo eram de contos de fada. Ao chegar ao escritório de Smith, ainda estava tentando aceitar tal ideia.
Angel estava apreensiva pois, em todos aqueles anos trabalhando naquele local nunca havia topado com uma fabula que não lembrasse quem era. Aquele mundo era repetitivo e certinho demais para se aceitar tal ideia. Haviam chegado a um elevador e estavam descendo pra a sala do diretor geral. Então se ouviu uma explosão e as luzes se apagaram. O elevador começou a cair bruscamente.
Fale com o autor