Continue a nadar
1 Capítulo 1
Parado na frente da sua nova escola, Louis observava a fachada azul e verde, com o nome da escola — Academia São Bartolomeu — e os dizeres “Aqui você é bem-vindo” numa faixa fixada na entrada, logo acima da porta. Sua mente tentava convencê-lo de que estava tudo bem, mas seu corpo dizia o contrário; agarrava de maneira firme a alça da mochila, tanto que os dedos estavam brancos, batia o pé freneticamente no chão. Seu cabelo bagunçado vagava de um lado para o outro, sendo levado pelo vento.
— Filho… — Marcos, mesmo sentado no banco do carro, e sem poder ver o pé batendo e os dedos brancos, e com Louis virado de costas, percebia o quão nervoso ele estava.
— Sim?
— Relaxe, ok? Acho que, dessa vez, vai — falou, com incerteza na voz, embora tentasse mantê-la firme.
— Tá. — Ele andou pela calçada, avançando pelo novo território. Logo chegou ao gramado, e, quando percebeu, já estava lá dentro.
Ele caminhou pelos corredores, seguindo as placas indicativas até a secretaria; Louis não estava a fim de falar com ninguém, mas precisava verificar alguns documentos ou alguma coisa assim. Dobrando num corredor, chegou lá. Os móveis da secretaria e da recepção eram de madeira rústica. A “moça” que o atendeu devia ter uns 60 anos. Era rabugenta, mas fez o serviço dela de forma correta, dando a ele todos os documentos e informações de que precisava. A garota ao lado, que parecia ser bem mais nova — uns 30 e poucos anos, talvez —, disse algo sobre chamar alguém para mostrar a escola.
Veio, então, um homem, de idade indefinida, que o chamou pelo nome e o levou para um passeio pela escola, o homem sempre conferindo o horário e dizendo que tinham apenas 10 minutos antes que outro estudante novato chegasse para outro tour.
A cantina era sem graça. As salas eram entediantes. Passaram também pelos laboratórios e pelo pátio. O homem, que se apresentou, mas só no meio do tour, a Louis como Antônio, parou em frente a uma sala que tinha uma lista de alunos do lado da porta, na qual constava seu nome.
— Ahn, garoto, tenho que ir agora. Foi um prazer, seja bem-vindo, você sabe, essas coisas. — Apressado, Antônio correu de volta à secretaria. Louis se deu conta de que não sabia qual era a função do homem na escola. Porém pouco se importava com isso.
Louis sentou-se em uma das mesas, colocou seu de fone de ouvido e torceu para que o tempo passasse depressa.
***
Uma menina estranha e bonitinha adentrou a sala alguns minutos depois. Era baixinha, com o rosto cheio de sardas, o cabelo cheio e crespo, a pele morena. Usava o ridículo uniforme que a prefeitura tinha designado e que Louis ainda não havia recebido. A guria o encarou fixamente por alguns segundos, e então deu o grito mais agudo que já ouvira. Chamou as amigas dela ou algo assim. Depois disso, ele a ignorou completamente, assim como fez com os outros que iam chegando na sala.
Um sinal irritante se fez ouvir — algo entre uma sirene e uma galinha morrendo — e depois a professora chegou. Era alta, magra, loira, sardenta, olhos pretos intimidadores e profundos. Causavam certo medo a princípio, mas olhando melhor, se percebia que não transmitiam temor e sim respeito. Usava óculos azuis. Parecia ser gente boa e muito esperta, apesar de ter cara de exigente, só que Louis não confiaria tão fácil em ninguém.
O nome dela era Maria Cristina. Era professora de inglês. “Inglês? Sou ótimo nisso.” Ela fez todos os alunos se apresentarem e contarem sua experiência com aquele idioma... em inglês. Para 50% da turma foi bem complicado. Eles tiveram que ter ajuda da professora e dos colegas. Para 30% foi mais tranquilo, mas ainda assim um desafio. Para outros 15% foi fácil, e para os 5% restantes, Louis incluído, foi super fácil.
Louis contou que tinha sido alfabetizado em inglês e em português. Que seu pai Marcos era brasileiro, mas fora morar cedo, com três anos, nos Estados Unidos, mas, apesar disso, nunca perdeu o português. Já seu outro pai, Otávio, além de inglês, era professor de espanhol, língua esta que Louis sabia falar muito bem, pois começara a aprender com 7 anos.
Ele esperava que ninguém tivesse reparado. “Eles repararam? Acho que não… Espera! Estão cochichando. Acho que notaram, sim.”
— E, sim, eu tenho dois pais. Meus pais são gays — disse, dessa vez em português, para que todos entendessem.
Nas aulas seguintes — geografia, artes e matemática —, todos os olhares estavam nele. “É como se Argos, com seus cem olhos, olhasse para mim.”
No recreio, entre a aula de geografia e artes, a coisa foi ainda pior.
— “Meus pais são gays”. Cara… Aquilo foi hilário!
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