Louis esperava que o choque fosse passageiro. Mas eram falsas esperanças. Ele sabia que não eram. Nunca é. Uma semana havia passado, e os cochichos e sussurros continuavam pelos corredores.

Marcos e Otávio não sabiam mais o que fazer. Era sempre assim. Louis estava com 14 anos e, desde o primeiro ano, já tinha mudado de escola umas 10 vezes. Era muita tortura para ele: as piadas de mal gosto, as “brincadeirinhas”, os xingamentos, as trocas de escola. Com sorte, ele ficava um ano inteiro em uma escola. Mas quando o bullying era tão intenso a ponto de ficar insuportável, mudavam ele de escola no primeiro trimestre, no segundo, no meio do ano… O que viesse primeiro.

— Louis, filho. Acho que já está na hora de conversar. — Otávio odiava conversas assim. Eram sempre a mesma coisa: “Siga firme”, “Não se deixe abalar”, “Você é um menino maravilhoso, será recompensado pelo sofrimento”.

— Pai, eu já sei o que você vai dizer, você já sabe o você que vai dizer, o pai Marcos sabe o que você vai dizer. Todos sabemos, então, será que podemos simplesmente curtir o shopping? Curtir o sorvete? Esquecer tudo isso por um segundo?

Silêncio.

— Obrigado.

***

Louis estava definitivamente cansado. Era a mesma história sempre, sempre e sempre, se repetindo de maneira infinita. Era inútil tentar. Ele apoiava que seus pais o tirassem da escola e contratassem tutores particulares.

No segundo mês de aula, ninguém havia se aproximado dele ainda. Lanchava sozinho, ouvia música sozinho, sentava sozinho no recreio, tudo sempre sozinho. Sua vida em casa continuava a mesma, conversando com seus pais normalmente; não gostava de falar acerca da homofobia contra seus pais nem do bullying contra si mesmo. Era um assunto que, apesar de não ter nada de novo, se renovava a cada onda de xingamentos.

Na metade do terceiro mês de aula, as coisas só pioraram.

— Pô, cara, cê tem que ver o moleque. Todo nerdizinho. Aquele que é filho dos gays. Sério, mano, não tô brincando. Aposto que é viado também.

“Não creio que esse ser humano está falando de mim. Justo o Luís Augusto? Ele só dormia a aula inteira e queria vir falar dele? Só para aparecer para os “amiguinhos”. Estamos no Rio Grande do Sul e ele vem com esse sotaque carioca. Aí, não, aí já é demais também…”

Quarto mês de aula. Todos os meses, um assunto “delicado” era tratado; o intuito era que os alunos discutissem e abordassem temas difíceis, dialogando entre si. No primeiro mês de aula, havia sido racismo; no segundo, feminismo; no terceiro, drogas. E o assunto desse mês era bullying. Louis nem prestava atenção nas palavras. Era a mesma ladainha que estava acostumado a ouvir toda vez, “Bullying é errado, crianças, não pratiquem!”, acompanhada de um sorriso Colgate.

Estava numa dessas palestras anti-bullying, quando uma garota se aproximou. No início, Louis estranhou, mas depois pensou que ela poderia ter se confundido ao sentar ali, ao lado dele, e continuou ouvindo sua música.

If you're havin' trouble with the high school head

He's givin' you the blues

You wanna graduate but not in his bed

Here's what you gotta do

Pick up the phone, I'm always home

Call me any time

Just ring 36 24 36 hey

I lead a life of crime

— Então… Louis, não é? — Louis imediatamente retirou os fones de ouvido. O que estava acontecendo ali? Alguém vindo conversar com ele? “Que bug no meu cérebro. Isso nunca aconteceu antes… O que eu faço?”

— E quem seria você? — “Ok. Contato humano. Conversa. Interação. Isso é estranho.”

— Meu nome é Amanda. — Era aquela mesma garota que havia entrado na sala depois de Louis no primeiro dia de aula e dado aquele grito histérico. A amigas dela estavam atrás, nas costas delas, como se fossem os zangões e a Amanda a Regina George.

— Hum… — A verdade é que se enturmar era algo em que ele não era bom, tinha dificuldades para falar com seres humanos quando não estava na tela de um PC, jogando videogame.

— Você… Quer ir no cinema amanhã? Vamos assistir aquele filme lá…

— “Aquele filme lá”?

— As Branquelas 2. Tá todo mundo, tipo, falando sobre isso. — Ela levantou a mão, pegou uma mecha do cabelo, colocou atrás da orelha e deu um sorriso. Um sorriso bem bonitinho, na opinião de Louis. Uma das amigas, uma menina ruiva e alta, olhava-o de cima a baixo, o julgando; já a outra estava meio aérea, nem olhou para ele.

— Eu, você e quem mais? — No mínimo, as amigas dela, não? E mais alguns amigos?

— Eu, — Ela começou a contar nos dedos: 1 dedo, — você, — 2 dedos, — e mais ninguém. — Ainda dois dedos.