Sábado – 14:00 horas.

Por Katherine Dupont

Esperei minha mãe sair de casa para sair também. Já que ela só sabe falar que eu não paro em casa, que eu deveria dar mais atenção para ela, que eu deveria dormir mais, estudar mais, e tocar mais piano. Argumentos que ela usa para que eu fique presa naquele lugar, e quando eu arrumo alguma desculpa ela me proibi dizendo ser “perigoso” (não importando o que eu farei). Na cabeça dela até visitar minha melhor amiga pode ser perigoso por eu ter que atravessar a rua e então um bêbado meio cego me esmagar no asfalto.

Mas ela tem este instinto protetor apenas quando meu pai não está em casa, acho que um pouco disso é porque ela se sente sozinha, e deseja mais minha companhia. Meu pai trabalha na Petrobras faz muito tempo, ele costuma ficar quinze dias na plataforma de petróleo em alto mar e quinze dias “de férias”. Então quando ele está de folga fazem o máximo que programas juntos, desde ir ao cinema até à Paris.

Peguei minha bolça e sai encontrando um taxi logo na frente de casa. Fui até a esquina da Catedral pensando em como era insano o que eu faria: entrar num carro e deixar sua vida sob responsabilidade de outra pessoa. Era perigoso eu sabia e apesar de a voz da minha mãe não sair da minha cabeça eu queria mostrar para o Thomy que estaria do seu lado em qualquer situação.

A rua em que o taxista parou era bem pouco frequentada, exceto nos domingos por causa da missa. Paguei o motorista e saltei observando o estilo do pessoal que ali se encontrava. Os caras querendo se pagarem de ricos com colares e óculos falsificados e as garotas vestidas com decotões e mini saias que sorriam forçadamente para qualquer cara que fosse canta-la.

Mexi minha cabeça tentando esquecer aquele povinho e lembrando o real motivo de eu estar aqui. Caminhei até o cara das apostas empurrando e me esquivando de algumas pessoas suadas e nojentas.

Olhei para o lado direito e pude observar que os dois carros já estavam posicionados e que Thomas estava encostado no seu bugatti veyron preto com muitas mulheres peitudas ao redor rindo, bebendo e o elogiando.

—5 mil no Thomas. – arrisquei falando para o cara das apostas (chamado Jhow), mas ainda olhando para o Thomy.

—Olha ai papai. Esta garotinha gosta de brincar. – Jhow falava sobre mim e o pessoal ao redor se esforçava para me ver e ouvir. Achavam que eu estava brincando.

Abri a bolça e tirei as notas amarradas juntas. Jhow deu um largo sorriso mostrando seus dentes amarelo e seu piercing. Pegou o dinheiro e conferiu.

Logo o pessoal começou a aumentar as apostas no Thomas, acho que passei confiança. Apesar de ele não correr assim a tempos ainda sei que ele é o melhor.

De repente começou uma muvuca sobrando apenas os carros, uma guria com top e um pano na mão e eu ali parada. As demais pessoas tinham feito uma linha imaginária atrás dos carros e estavam começando uma contagem. Ai deus se eu não fosse rápida o suficiente eu ficaria aqui tendo que esperar com esse pessoal.

Andei rápido até o lado do passageiro do carro do Thomas e abri a porta. Me sentei disfarçadamente enquanto ele encarava o motorista (gato) do carro ao lado. Quando me viu começou a brigar.

—Pode sair. – falou bravo.

—Capaz.

—Anda Katherine. – falou e abriu a porta fazendo sinal para eu sair.

—Você mentiu para mim. – falei o encarando.

—Se falasse a verdade estaríamos até agora discutindo.

—E não estamos? – perguntei arqueando a sobrancelha.

—É sério Katt, vai começar em alguns segundos. É melhor você sair. – falou por último.

—Eu já disse. Não vou sair. – disse autoritária fechando a porta e o convenci.

—Então nesse caso aperte muito o cinto de segurança. – falou e arrancou o carro.

Achei que ia voar. Acho que não consigo explicar essa sensação, mas é adrenalina pura. Veio a curva.

Achei que fosse morrer. Eu via a paisagem como um borrão. Entramos na área comercial deste bairro.

Achei que fossemos atropelar alguém. Comecei a rir. Eu estava nervosa, rir era bom. Enxerguei uma cor no meio da rua. Verde. De repente já era vermelho. Droga o semáforo.

Achei que íamos bater. Então alguns segundos depois entramos em outra rodovia deserta. No final dela estavam um grupo de pessoas, quando mais perto mais eu os identificava. Estávamos onde tudo começou, ou seja, estávamos no fim. Só que o Thomy não desacelerava e então ele puxou o freio de mão. O carro girou e parou de lado para o pessoal. Thomas sorriu vitorioso e colocou sua mão sobre a minha.

Agora quem não queria desacelerar era meu coração. Maldito!

—Estou no céu ou no inferno? – virei para ele e perguntei.

—Ainda está na terra. – gargalhou e depois falou.

Puxei-o para um abraço. Meu nariz roçava seu pescoço e eu conseguia sentir o cheio maravilhoso do seu perfume francês. Nos afastamos e então ele saiu do carro, sendo recebido por vários “fãs” satisfeitos com a corrida.

Eu também desci do carro. Claro, queria meu dinheiro.

—Você fez uma ótima aposta. Sorte de principiante. – Jhow comentou.

—Não é sorte de principiante, apenas meu instinto. – Falei sorrindo de lado. Abri minha bolça e ele jogou alguns bolos de dinheiro nela.

—Te reconheceria se tivéssemos nos encontrado antes. Espero te ver logo, gostei de jogar contigo, temos várias corridas para esse mês.

—Acho que não me verá tão brevemente. – sorri e dei as costas.

Neste instante meus olhos se concentraram na catedral, mas especificamente em quem estava apoiado em sua parede.

Andei até o Thomas e o puxei.

—Olha lá. – falei apontando.

—Espera – ele olhou para mim e para a catedral novamente – você acha que é o Liam?

—É obvio que é o Liam, mas aquela não é a Jazzy. – comentei observando os dois se pegarem (de uma forma bem fogosa devo acrescentar).

—Liam não gosta desse pessoal, não tem porque estar aqui. Na boa ele nem sequer sabe que eu estou aqui.

Então ouvimos uma sirene. A muvuca começou. As pessoas começaram a correr e a gritar. Senti o Thomas me puxar, sua reação foi rápida ele estava acostumado com isso. Enquanto corria até o carro me permiti olhar para trás, eu não iria ficar com aquela dúvida. Era mesmo o Liam, agora eu podia ver seu rosto. Observei ele indo de encontro à outro carro de mãos dadas com a garota. Puxei meu celular do bolço e comecei a tirar uma sequência de fotos. Quem sabe alguma prestaria.

—A menos que deseja que a tia Gê vá te buscar na delegacia, é melhor andar rápido. Thomy me tirou do transe e eu terminei o espaço que faltava para entrar no carro. Ele acelerou e depois fomos direto para a minha casa.