Sabádo — 8:00 horas

Por Jasminne Martinnelli

Minha mãe me deixou vários e-mail nesta semana, ela era melhor escrevendo do que falando. Inclusive avisou-me que minha presença era imprescindível no velório da minha tia, que – para deixar bem claro- mal conheço. Acontece que ela (tia Sonia) fugiu de casa para casar e foi morar em uma área rural, o seu marido – descobri também pelo e-mail – faleceu ano passado de câncer e eles tem uma filha de quatro anos, que vai morar com a vóvó por enquanto. O enterro foi às dez da manhã e lá estava eu com óculos de sol e roupa preta, imitando o restante da minha família. Liam ou qualquer um dos meus amigos não apareceram lá, eu também não fazia questão de dramatizar a morte de uma tia – que eu nem conhecia — para eles.

Depois da missa acompanhamos o caixão até o cemitério onde seria enterrada. Eu não via a hora de aquilo tudo acabar, tantas pessoas numa mesma sala chorando me davam até nojo. Algumas ainda vinham me abraçar, sujando meu casaco com suas lágrimas.

Logo que colocaram os últimos tijolos na capela nós saímos. O motorista já estava nos esperando. O destino dessa vez era a casa da minha avó conforme ela mesmo tinha pedido, já que um almoço em família faria bem.

—Você é minha prima, não é? – perguntou a menininha sentada ao meu lado na limusine.

—Sim. – Respondi sem interesse.

—Você já andou com esse carro antes? – a garotinha continuava tentando puxar assunto.

—Claro. – Respondi e revirei os olhos.

—Você gostou desse carro? – minha mãe puxou conversa.

—Simm. – falou sorrindo e continuou – é tão legal. Tão grande.

—Agora você pode andar com ele quando quiser. – disse Sueli já subornando a menina.

—O meu nome é Ísis e o seu? – perguntou a menina novamente olhando para mim. Será que essa pirralha cismou comigo.

Lá pelas quatro da tarde, já estávamos amigas. Ela havia me conquistado com seu jeito espontâneo e inocente.

Depois de almoçarmos todos juntos, meus avós e minha mãe foram para a sala de estar querendo conversar sobre a “nova família” da minha mãe. Sabendo das crenças da minha avó eu acredito que ela não gostará muito dessa ideia, já que ela é totalmente a favor da família tradicional e seus pensamentos conservadores.

Enquanto eles tinham uma “conversa de adultos” eu teria de ficar com minha prima. Jogamos Just dance no Xbox até nos cansarmos e então assistimos Frozen na televisão. Descobri ser seu filme preferido. Como eu disse anteriormente esse tempo foi muito bom para nós duas, visto que nos aproximamos. Eu não sabia como era ter uma criança na família e a Ísis me passou uma sensação muito boa.

Meu celular começou a tocar em algum lugar, em instantes veio a garotinha com ele na mão. Olhei no visor era a Katherine, com certeza queria combinar alguma coisa para fazermos hoje á noite. Geralmente no sábado sempre saiamos nós duas juntas com Liam e Thomy, o que me lembrou que eu não ainda não tinha falado com nenhum deles hoje.

—Hi bitch. – falei ao atender.

—Oi Jazzy. A gente pode conversar pessoalmente? – perguntou e eu estranhei muito seu tom de voz.

—O que houve? – perguntei preparada o que quer que fosse.

—Tu pode vir aqui em casa? –perguntou receosa.

—Claro. To indo. – avisei desligando o celular.

Me despedi da Ísis e do restante da família dizendo ter um compromisso urgente. O motorista me levou na casa da Katherine em poucos minutos, mas na minha cabeça tinham sido horas. Muitos problemas vieram no meu pensamento, porém eu sabia que todos eles conseguiria resolver.

—Oi tia, onde a Katt esta? – Perguntei à Gerusa assim que a mesma abriu a porta.

—Olá querida, está no quarto conversando com o Thomas, eles estão te esperando. – Ela avisou dando passagem para eu entrar.

Ao chegar perto da porta ouvi minha melhor amiga falando como se fosse uma bomba pronta pra explodir a qualquer hora. Deveria ser algo mais sério do que eu imaginei. Eu e Katherine nos conhecemos a muitos anos e eu a entendia de qualquer maneira, bastava um olhar ou um sinal. Dessa vez o que eu reparava era o tom da voz.

—NÃO INTERESSA THOMAS, A VERDADE É SEMPRE MELHOR CARA.

—Pxiiiiii- ele pediu para abaixar a voz – Katt, por favor, pensa no que você vai fazer, o que podes estragar por contar isso.

Dei passos silêncios me aproximando cada vez mais do quarto onde estavam. Só que dei uma topada e eles se viraram abruptamente por causa do barulho. Suas expressões estavam diferentes, a segurança e arrogância que sempre passavam não estava lá. Estava apenas uma Katherine nervosa e um Thomas apavorado.

—Contar isso? –Falei séria querendo uma resposta imediata.

—Que a gente ta namorando. –Thomas mentiu dando um sorriso falso e mandando um olhar para Katherine encobrir sua mentira.

—É serio gente? – Estranhei, mas fiquei super animada e lhes dei meu melhor sorriso.

—Isso é mentira, está longe o dia em que eu aceitaria ser sua namorada Thomas, agora se não quiser ouvir o que eu vou dizer pode se retirar. –A garota disse grossa.

Thomas me olhou profundamente e decidiu ficar, puxou a cadeira da escrivaninha do quarto da Kath e se sentou virado para nós.

—Pra que todo esse suspense galera? –Eu perguntei sem entender.

—Jazzy a gente soube de uma coisa. – Thomas começou.

—Eu vi uma coisa. – Kath interrompeu e apontou para o Thomy- E você também.

—Que coisa? Ai gente desembucha!

—Vimosoteunamoradobeijandoumaguria.

—QUÊ? Não entendi porra nenhuma Katherine, fala devagar.

—Nós vimos o Liam ficando com uma guria. –Thomas falou.

—O quê? Como ? Onde? Quando? –Meus olhos brilharam, mas eu cuidei para que as lágrimas não escorressem pelo rosto.

Thomas veio em minha direção e eu torci para que ele não me abraçasse, porque senão eu chorava de vez. Ele fez, ele me abraçou forte, como ele sempre fazia quando eu precisava.

—Eu vou pegar água com açúcar gente. – Kath se pronunciou.

—Não é verdade né? Por favor diz que não é. – Eu implorava.

Ele fez silencio e eu percebi que aquilo me respondia. Afinal quem cala consente.

—Eu vi ele antes da corrida no ponto que nos encontraríamos. – Ele falou explicando.

—Que corrida? Tu ta fazendo racha? Comecei a bater nele com meus socos que no corpo dele eram muito fracos.

Ele pegou meus punho e os prendeu tão facilmente. Eu comecei a chorar, eu tinha que descobrir isso logo na tpm assim meu drama só aumentaria, mas o pior é que era verdade. A traição é como uma faca nas costas.

Me deitei na cama da Katherine e Thomas me aconchegou, assim que ela chegou com o copo de água com açúcar na mão ficou meio enciumada por estarmos tão aninhados, apesar de ser normal para a gente. Ela chegou do meu lado e mandou ele sair.

—Gente tenho treino agora, preciso ir. – Thomy avisou vindo se despedir.

Com seu polegar limpou minhas lágrimas delicadamente e cochichou no meu ouvido “conta comigo” me deu um beijo no rosto e acenou um tchau para a Katt. A verdade é que sempre fui mais chegada com ele do que a Katherine.

—Não conta pro Liam que eu fiz parte disso! — nos afirmou.

Eu o entendia, era difícil dedurar o amigo. Por isso eu o admirava, eu sei que ele me apoiaria estando onde e quando eu quisesse.

Já se passavam três horas desde nossa conversa, eu já tinha visto as fotos várias vezes tentando pensar que não era o meu Liam. Também já tinha brigado com ele por mensagem, primeiro ele negou tudo e quando eu enviei as fotos ele me confessou e veio com muitas desculpas.

Liam chegou a vir na casa da Katt com uma caixa de chocolate e um buque lindo de orquídeas azuis. Com muita raiva eu joguei as flores no lixo e o chocolate eu comi não ligando para saúde, acne e as muitas calorias.

Mas na frente dele eu nunca deixei de ser a Jasminne Martinelli.

—A gente acaba aqui. – falei fria, como se nada tivesse me abalado.

Eu estava tão cansada de suas desculpas que fiz a Katt expulsar ele de casa. Se ele fez errado, então que assuma as consequências.

Neste momento eu estava na cama vendo série com minha BF, comendo brigadeiro nos meus braços.

***

Sábado – 19:30 hrs

Minha mãe já tinha me ligado umas cinco vezes, eu deixava tocar até entrar na caixa de mensagens. Apenas não queria falar com ela, mas isso também já estava me irritando.

—Fala coroa. – atendi mal humorada.

—Até que enfim você atendeu. Preciso que você venha para casa essa noite. – falou como se minha presença fosse muito importante.

—Não vai dar.

—Jasminne Mary Martinelli Scolari, você estará em casa daqui á uma hora para que possamos fazer as devidas apresentações. Jorge chegou hoje ao meio dia e eu nem pude dar atenção por causa de sua tia.

—Claro, porque ela deve mesmo ter planejado falecer no dia em que sua nova família chegaria.

—Olha o respeito, mocinha. Prometo fazer da sua vida um inferno se não estiver aqui as oito e meia. – falou e desligou o celular.

Levando muito a sério a promessa da minha mãe, eu me levantei da cama e fui tomar um banho. Katherine me arrumou, praticamente fiquei sentada na penteadeira enquanto ela escovava meu cabelo e fazia cachos. Depois me maquiou e enfim coloquei a roupa e algumas jóias para fechar o look e mostrar o quanto eu sou poderosa.

Assim que pisei na minha casa, Sueli já veio apertando meu braço.

—Você vai ficar e se sentar conosco na mesa. Comer, conversar e se comportar do jeito que foi criada para fazer. – minha mãe falava apertando meu braço cada vez mais quando eu comentei que não ficaria muito tempo.

Revirei meus olhos ao ouvi-la dar ordem dessa maneira. Eu estava louca para vazar, queria só pegar umas coisas e ir passar o sábado jogada na cama com a Katt. Só que minha mãe tinha outros planos para mim, queria ela que eu jantasse com os filhos do seu marido e que juntos formassem uma grande família feliz.

Não teria como eu negar esse jantar a ela, eu a conhecia e sabia que minha mãe era capaz de tudo. Por isso eu aceitei, mas depois é claro que eu dormiria na minha melhor amiga. Talvez víssemos outro filme de drama, choraríamos horrores e comeríamos brigadeiro de colher. Mas até lá eu me aguentaria, até lá eu não deixaria mais uma lágrima escorrer por Liam e muito menos por esse projeto de família.

—VOCÊ ENTENDEU JASMINNE? – Sueli gritou.

Concordei pensando que seria impossível sair dali sem fazer o que ela mandou. Minha mente ficava me dizendo que era fácil, apenas teria que me sentar, comer e depois poderia sair. Sim, iria ser fácil.

Cheguei na sala de jantar estavam todos sentados. Uma montoeira de gente.

—Minha filha veio para jantar conosco. – minha mãe falou sorrindo. Sínica! Quando estava comigo era só cara feia, mas na frente deles ela teria que ser a mãe boazinha. Não é mesmo?

—Querer não é bem a palavra. – cochichei para que apenas ela ouvisse.

—Cala a boca e faz o que mandei. – respondeu baixo para mim e eu fiquei vermelha. Ela não tinha que me tratar assim.

Procurei meu lugar na mesa. Estava ocupado. Por isso Aimee me olhava preocupada desde que me viu chegar. É claro que eu faria aquele velho sair de lá.

Cheguei do seu lado e sorri falsamente.

—Jasminne. – minha mãe repreendeu sabendo o que eu faria. Desisti, pois com o olhar dela era capaz de me deixar passar a noite na cadeia se eu tratasse sua nova família de maneira ruim. Aimee veio correndo com uma cadeira e a outra empregada com os talheres, as taças e os pratos.

—Desculpe senhorita Martineli, não estávamos a esperando. – Aimee pediu, ela era realmente a única que se preocupava comigo naquela casa.

—Pessoal, esta é a Jazzy. – minha mãe me apresentou lhes dando intimidade com meu apelido. – ela é uma ótima aluna, ela sabe administrar muito bem sua mesada, também sabe tocar alguns instrumentos e é uma ótima tenista. – mamãe falava (pela primeira vez) como se eu fosse perfeita. Como se eu fosse um produto na propaganda.

—Uau, você deve realmente orgulhar sua mãe. – meu querido (sintam a irônia) padrasto falou dando uma piscadinha que eu não entendi. Ele tinha cara de safado. Aquela barba por fazer. Careca e mal vestido. Definitivamente não sei como minha mãe o encontrou. – meu nome é Jorge.

—Eu sou o Joseph. – interrompeu a menor pessoa dali. Tinha cabelos ruivos e olhos castanho, ele era tão fofo que dava vontade de abraçar, só que eu não iria fazer isso por ser exatamente o que minha mãe queria – eu tenho cinco anos. Quantos anos você tem?

—Eu tenho dezessete – respondi por educação.

—É igual a minha irmã. – ele falou sorrindo para ela. Foi quando eu a reconheci.

PUTA QUE PARIU. Era a guria da foto no celular da Katt. A guria que beijava o MEU namorado, na verdade, agora ex.

Na mesma hora se formou um nó na minha garganta. Eu não conseguiria aguentar o choro.

Tirei o guardanapo de cima das minhas pernas e corri para o banheiro social que ficava mais perto.

Tranquei a porta e permiti algumas lágrimas escorressem, eu não conseguia mais parar de chorar. Apenas pensando no Liam. No quão otário ele foi por ter ficado com aquela puta.

Me olhei no espelho. Eu era Jasminne Martineli Scolari, por que eu estava chorando?

Enxuguei as lágrimas e tirei do nicho no banheiro um kit de maquiagem. Ajeitei a make e em segundos eu estava impecável. Sai do banheiro sorrindo, os outros não precisavam saber o quanto eu estava sofrendo.

—Ela tem alguns probleminhas. – minha mãe explicava achando que eu tinha ido vomitar.

—Jazzy – chamou meu padrasto percebendo minha presença – então como Joseph falou ele é meu filho mais novo. Antes tivemos a Joana de nove anos ....

Olhei para a menina que ele mostrava, ela tinha cabelo cacheado castanho escuro (que precisava de um corte e uma hidratação), tinha olhos castanhos claro e era banguela de dois dentes.

— a Jamille de 13 anos. – o marido da mamãe continuou falando. Essa estava com o cabelo preso em rabo de cavalo, mas dava para notar que também era cacheado só que era mais claro que o da irmã mais nova. Tinha olhos verdes e usava uma sombra ridícula (provavelmente feita por ela mesma). O homem continuou falando sobre seus intermináveis filhos — a Janessa de 17.

Então o nome dela era esse. O sorriso que eu falsamente dava para os outros membros familiares dela desapareceu do meu rosto. Em vez disso a encarei. Ela tinha o cabelo liso. Infelizmente era bonita, mas não sabia se vestir. Usava um short jeans e uma blusa que aparecia praticamente todo o seu sutiã. “Que puta” pensei. Seu cabelo era castanho e tinha mexas loiras. Olhos castanhos e um corpo aparentemente curvilíneo.

_E o João que tem 21, é o mais velho e não mora mais conosco.

—Poxa, imagino que trabalho decorar a idade de todos esses tantos filhos. – comentei dando ênfase nas três últimas palavras.

—Você notou que seu nome combina com o nosso? – Joseph falou com aquele jeito fofo dele.

Apenas assenti como resposta, mas para ser sincera eu não queria combinar porra nenhuma com eles.

—Aposto que você e a Janessa se darão super bem. – Jorge não parava de falar.

—Aposto que sim, já descobri alguns gostos em comum. – falei totalmente irônica. – como aquele garoto, como é mesmo o nome dele? – olhei para o teto fingindo pensar. – Acho que é Liam né. Liam Venturi se não me engano.

Ela sorriu de lado. Aquela garota não sabia com quem estava mexendo.

—Ele mora aqui perto não é? – me provocou.

—Sim. Ele sempre foi como um filho para mim. Ele, a Katherine, o Thomas e a Jasminne são inseparáveis. –minha mãe falava, não entendendo indireta nenhuma, como se nos desse muita atenção.

—Eu soube que ele está solteiro! – Janessa continuou a me provocar.

Oh céus que raiva daquela guria.

—Claro que não. – minha mãe respondeu pensativa.

—Felizmente está sim. – falei corrigindo Sueli.

Sueli me olhou de uma forma tão desagradável que nem sei explicar. Ela era o estilo de mulher muito bem informada. Não aceitava estar errada. Ainda mais quanto a isso. Saber que eu não quis contar isso a ela, machucou-a internamente e pela primeira vez por trás daquela aparência falsa parecia que ela se preocupava comigo.

—Quero conhecer esse rapaz, parece ser um bom garoto. – Jorge falou não sabendo que era meu ex-namorado.

Depois de algum tempo em silêncio Joseph começou a falar sobre a minha casa, como ela era grande e como ele tinha gostado de seu novo quarto.

—Com licença, preciso me retirar. – avisei educadamente.

—Amanhã faremos uma festa de boas-vindas á eles, Jazzy. Quero você aqui!

Peguei umas roupas e fui novamente para a casa da Katt. Entrei em casa como se fosse uma moradora dali e segui para o quarto. Abri a porta e joguei minha bolça em um canto qualquer, depois deitei e a abracei.

—Best? Katherine pausou a série, para me chamar.

—Hmm. –eu respondi sem nem abrir a boca.

—Vamos sair?

—Estou de luto!

—Ah é verdade, sua tia!

—Que tia nada. Pra mim quem morreu foi o Liam. – Disse fazendo cara feia.

—Mais o Liam acabou de vir aqui. –Ela disse se defendendo.

—NÃO FALA O NOME DESSE CAPETA. –Falei brava.

—Mas você acabou de falar. –Ela se defendeu novamente.

—Que seja. – falei revirando meus olhos.

—Vamos sair?

Eu preferiria muito mais ficar vendo seriado e comendo doce do que fazer qualquer outra coisa, porém eu precisava pensar em algo além do termino do meu relacionamento. Decidi ir e não estava nem ligando sobre dar um tempo antes de fazer festa, até porque respeito é a última coisa que ele merece.