Conte as Estrelas
22 Capítulo 20
O relógio no painel do Toyota Etios marcava 22h47. O motor vibrava baixo, como se sentisse a tensão dos dois ocupantes. A chuva fina riscava o para-brisa em linhas inclinadas, refletindo as luzes alaranjadas da rodovia.
Nenhum dos dois falava.
Nicolas olhava pela janela, o rosto levemente iluminado pelo neon que piscava nos postos de gasolina e restaurantes fechados à beira da estrada. O silêncio era sufocante. Não o silêncio confortável de quem tem o que compartilhar, mas o silêncio denso de quem carrega demais dentro de si para dividir.
Marco segurava firme o volante, os olhos cravados na faixa branca central da estrada. O ruído dos pneus sobre o asfalto molhado era a única coisa que quebrava a imobilidade do carro. Ele pensava em cada passo do plano — e, mais do que isso, em cada coisa que poderia dar errado.
Por duas vezes tentou dizer algo, mas as palavras morreram antes de alcançar a boca. Até que, finalmente, a terceira tentativa veio:
— Então... — a voz dele soou rouca, quase um desabafo — vamos repassar tudo.
Nicolas virou o rosto na direção dele, sem dizer nada. Marco continuou:
— Assim que entrarmos, eu sigo até o hangar. Lá é onde ficam os aviões. O Prima e o Night Fury. Eu vou tentar causar uma distração, algo grande o suficiente pra afastar os seguranças da ala de comando.
Fez uma pausa, desviando os olhos do retrovisor.
— Enquanto isso, você fica escondido. Só age quando ouvir o sinal.
— Que tipo de sinal? — perguntou Nicolas, tentando soar firme.
Marco respirou fundo.
— Você vai saber quando acontecer.
O silêncio voltou. Nicolas encarou a estrada escura por alguns segundos, o som do limpador de para-brisa marcando o compasso de seus pensamentos.
— Marco... — chamou, baixinho. — Que tipo de distração você pretende causar?
— Ainda não pensei.
— Você está brincando.
— Não — respondeu Marco, sem emoção na voz. — Ainda estou avaliando as opções.
Nicolas cruzou os braços, fitando o painel do carro.
— Eu tenho uma ideia.
— Ah, é? — Marco arqueou uma sobrancelha, lançando-lhe um olhar breve. — Que ideia?
— Passa por Lagoa Santa.
— O quê?
— Você ouviu. Tem um canteiro de obras da Machado Galvão lá. Preciso pegar uma coisa.
Marco estreitou os olhos.
— Nicolas…
— Confia em mim.
Marco respirou fundo, estudando o rosto do rapaz. Havia algo diferente em Nicolas naquela noite. O medo ainda estava lá, evidente no brilho dos olhos, mas agora havia algo novo — determinação. Uma centelha que o fazia parecer mais velho, mais decidido. Marco assentiu devagar.
— Tudo bem.
—X—X—X—
O canteiro de obras se erguia silencioso à beira da estrada, um esqueleto de concreto iluminado por refletores amarelados. O letreiro da construtora, gasto pela chuva, balançava com o vento.
Marco parou o carro a alguns metros do portão de entrada.
— Não estou vendo ninguém.
Nicolas já abria o cinto de segurança.
— Ótimo. Espera aqui.
— Espera! O que você vai fazer?
— Só me dá cinco minutos.
Sem esperar resposta, Nicolas abriu a porta e correu.
A chuva aumentava, encharcando a roupa que ele vestia. Escalou a grade baixa com agilidade e pulou para o outro lado, desaparecendo entre as sombras do canteiro.
Marco o observou pelo retrovisor, o coração acelerado. Cada segundo parecia interminável.
Quando Nicolas voltou, trazia algo embrulhado num plástico escuro. O cabelo colado à testa, a respiração acelerada. Ele abriu a porta e jogou o pacote no banco de trás, pingando água no tapete.
Marco olhou para o objeto, depois para ele.
— O que é isso?
— Dois blocos de explosivo plástico. A construtora usa pra demolições.
Marco piscou, sem acreditar.
— Você tá brincando comigo.
— Estou parecendo que estou brincando? — respondeu Nicolas, sério.
Marco olhou para ele por longos segundos, em silêncio. Então uma expressão estranha cruzou seu rosto — surpresa, admiração e, por um instante, um desejo inexplicável.
Ele soltou um meio sorriso.
— Você está ficando perigoso, garoto.
— Prefiro “útil”, se não se importar.
Marco riu baixo, balançando a cabeça.
— Vamos acabar logo com isso.
O motor do Etios rugiu, e os dois partiram em direção ao aeroporto.
—X—X—X—
O letreiro azul do Aeroporto Internacional Tancredo Neves surgiu à distância, recortado pela neblina. O relógio marcava 23h58. A cidade dormia, mas a estrada parecia observá-los com olhos invisíveis.
Marco manteve o farol baixo, evitando chamar atenção. A pista de decolagem brilhava distante, como nervos luminosos sob a pele do concreto.
— É aqui — disse ele, e parou o carro num recuo da via.
Nicolas respirou fundo e soltou o cinto.
— Eu vou no porta-malas.
Marco virou o rosto bruscamente.
— O quê?
— Eles não podem me ver. Se eu ficar lá dentro, há uma chance de passarmos.
— Eles vão revistar o porta-malas, Nicolas.
— Então eu me escondo melhor.
Antes que Marco pudesse protestar, Nicolas saiu do carro, abriu o porta-malas e retirou o pneu do estepe. Ele o rolou para fora da pista e depois se encolheu dentro do compartimento. Dobrando os joelhos contra o peito, tentou se encaixar da melhor forma possível.
— Isso é loucura — murmurou Marco, agachado ao lado dele.
— É o que temos.
Marco olhou para o rosto dele, iluminado apenas pela luz trêmula da lanterna. Por um instante, quis dizer algo — talvez que estava orgulhoso, talvez que estava com medo. Mas o que saiu foi apenas:
— Respira fundo. E não faz barulho.
Nicolas assentiu, e Marco puxou o carpete sobre ele, cobrindo tudo.
O som abafado do porta-malas se fechando mergulhou Nicolas na escuridão total.
—X—X—X—
O Etios rolou lentamente pela estrada lateral que levava à torre de controle. As luzes da pista ficavam para trás, e a paisagem dava lugar a um terreno murado com cercas altas. No final da via, uma pequena guarita se erguia, com um holofote girando em seu topo.
Marco diminuiu a velocidade e respirou fundo.
— Calma. É só mais um carro de serviço — murmurou para si mesmo.
Um guarda saiu da guarita com uma lanterna. Marco baixou o vidro e estendeu o cartão de acesso. O guarda o passou no leitor, mas não abriu a cancela de imediato. Caminhou em direção ao carro.
Marco ouviu o rádio do guarda crepitar:
“Quase gol do Cruzeiro! Inacreditááável!”
E foi aí que a ideia veio.
Quando o homem se aproximou, Marco forçou um sorriso.
— Que jogo, hein?
O guarda, surpreso, relaxou a postura.
— Tá maluco, rapaz! Quase me deu um infarto agora.
— Eu achei que ia entrar — disse Marco, balançando a cabeça. — Mas o ataque deles tá perdido hoje.
O guarda soltou uma risada cansada.
— Isso é falta de treino. Falta de estratégia.
Marco abriu o porta-malas.
— Concordo. Time bom precisa de direção, senão desanda.
O homem ergueu a lanterna, olhou rapidamente para dentro do veículo e assentiu.
— Pode seguir.
Marco sorriu.
— Valeu, chefe.
Quando o guarda começou a se afastar, ele se virou novamente.
— Espera aí... eu não te conheço, conheço?
Marco manteve a calma.
— Provavelmente não. Sou novo aqui. Nem todo mundo aguenta essa rotina.
O guarda riu, balançando a cabeça.
— É, tem disso. Vai lá.
A cancela se ergueu com um estalo. Marco acelerou suavemente e entrou.
—X—X—X—
O estacionamento subterrâneo da base era frio e úmido, com iluminação branca e incessante. O som dos pneus sobre o cimento ecoava como batidas de tambor.
Marco parou o carro entre outros Etios brancos, idênticos. O disfarce perfeito. Desceu, deu uma olhada rápida ao redor e, satisfeito, abriu o porta-malas.
Nicolas emergiu do escuro, ofegante, o rosto suado.
— Eu não acredito que isso funcionou.
Marco deixou escapar um riso nervoso.
— Você é mesmo um gênio.
O olhar de Nicolas se cruzou com o dele, e por um instante houve algo ali — não apenas alívio, mas algo mais profundo, mais denso.
Marco desviou o olhar e pigarreou.
— Certo. Não temos tempo.
— Qual o plano agora? — perguntou Nicolas.
— Eu sigo pra ala do hangar. Vou colocar os explosivos perto dos aviões. Você precisa chegar até o centro de comando e plugar o HD.
— E se tiver alguém lá?
Marco o olhou nos olhos.
— Então você dá um jeito. Se esconda, finja ser técnico, improvisa. Mas não hesite.
Nicolas assentiu, mas o coração batia acelerado. Ele observava Marco falando, o jeito firme, o tom de voz controlado.
E percebeu, de repente, o quanto sentia medo de perdê-lo. Quis dizer algo — não morre, por favor, talvez —, mas as palavras ficaram presas na garganta.
Marco deu um passo para trás, preparando-se para seguir seu caminho. Nicolas pigarreou, tentando disfarçar a emoção.
— Vamos acabar logo com isso — disse, num fio de voz. — Assim a gente se livra logo.
Marco assentiu, mas seu olhar permaneceu fixo em Nicolas por um segundo a mais do que o necessário. Ele sabia que aquele "se livrar logo" significava o oposto. Nenhum dos dois queria que acabasse.
Eles se viraram para seguir em direções opostas, mas Nicolas, num impulso, segurou a mão de Marco.
O toque foi rápido, instintivo, mas o suficiente para travar o mundo ao redor. Marco se virou e o olhou — e naquele olhar havia tudo que eles não tinham coragem de dizer. A tensão, o desejo, o medo, a culpa.
O som distante das turbinas, o zumbido dos holofotes, o gotejar dos canos no teto — tudo pareceu se dissolver.
Nicolas o encarou. As palavras saíram baixas, quase um sussurro.
— Volta.
Marco ficou imóvel por um instante, sentindo o peso daquilo. Depois, apertou firme a mão de Nicolas.
— Eu volto.
O toque durou um segundo a mais do que deveria. Ou dois. Ou três. Nenhum deles parou para contar.
E então se soltaram.
Nicolas observou Marco desaparecer pelo corredor à esquerda. A sombra dele se misturou à névoa da ventilação subterrânea até sumir de vista.
Ele respirou fundo, segurando o HD contra o peito, e sussurrou para si mesmo, como uma prece:
— Volta mesmo.
Depois, virou-se e seguiu pelo corredor oposto, rumo ao desconhecido.
Do lado de fora, a chuva engrossava. O relógio marcava 00h23. E o som distante das turbinas ecoava como um aviso.
A noite em Confins acabava de começar.
Fale com o autor