A base subterrânea parecia respirar um ar próprio — pesado, metálico e carregado de eletricidade estática. As luzes frias piscavam em intervalos regulares, emitindo um zumbido constante que parecia nascer das paredes. Marco andava com cautela pelos corredores de serviço, o celular em uma das mãos, a planta da instalação aberta na tela. Os dedos dele tremiam levemente, mas seus passos eram precisos, silenciosos.

O lugar tinha algo de claustrofóbico. As paredes eram estreitas, recobertas de painéis metálicos e cabos que subiam como veias grossas até o teto, onde dutos de ventilação exalavam um ar frio e artificial. Cada corredor parecia igual ao anterior, um labirinto de aço e concreto sem janelas ou sinal de vida. Ainda assim, Marco se guiava pelo instinto.

A cada som distante — o clique de uma porta, o roçar de botas sobre o piso — ele se encostava na parede e ficava imóvel, o peito subindo e descendo devagar. O treinamento militar voltava como um reflexo antigo. “Fique invisível”, dizia a voz distante de um instrutor na memória.

Em determinado ponto, ele parou, ouvindo o som abafado de vozes vindo de uma galeria lateral. Dois seguranças conversavam distraídos, e suas sombras se moviam contra o chão. Marco se abaixou atrás de um contêiner metálico e esperou, o coração batendo com força suficiente para vibrar em seus ouvidos. Quando o som se afastou, ele voltou a se mover, desta vez com passos mais curtos e respiração contida.

O ar da base cheirava a metal e ozônio. O som longínquo de turbinas — aviões manobrando em algum ponto acima — reverberava pelas estruturas subterrâneas. Por um instante, ele pensou nos relatórios que Gael havia lhe mostrado. O zumbido das máquinas, o reflexo das luzes, tudo parecia trazer àquela situação um pesado senso de realidade.


—X—X—X—


Enquanto isso, em outro ponto da instalação, Nicolas caminhava pelos corredores principais da base, tentando parecer parte daquele lugar. A credencial que pertencia ao pai balançava levemente pendurada ao bolso de sua camisa, e ele a mantinha à vista de propósito.

Cada porta pela qual passava tinha sensores eletrônicos e leitores de crachá. Ao aproximar o cartão magnético, uma pequena luz verde piscava, seguida do som metálico de trancas se soltando. Aquele barulho repetitivo — clique, liberação, clique, liberação — marcava o ritmo de seu avanço e de seu medo.

A iluminação branca dos corredores refletia nas superfícies polidas, multiplicando o próprio reflexo de Nicolas. Ele sentia o suor escorrer pelas costas sob a camisa, o tecido colando à pele. Tentava manter o rosto parcialmente abaixado, evitando o olhar direto das câmeras fixadas nos cantos, como se o simples contato visual pudesse denunciá-lo.

Em seu íntimo, algo pulsava entre a coragem e o pavor. O coração batia tão forte que ele podia sentir a vibração na garganta. Cada passo o levava mais fundo, mais perto do que quer que fosse o coração do projeto que havia consumido a vida e, agora, a morte do pai.

A ideia de que talvez pisasse nos mesmos corredores onde Leonel caminhara tantos anos o enchia de uma sensação estranha — não de orgulho, mas de vertigem. Como se estivesse seguindo as pegadas de um fantasma.


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Marco virou outro corredor estreito e avistou uma placa metálica ao fundo. Gravadas nela, letras frias e diretas: HANGAR 1.

Ele diminuiu o passo e respirou fundo. O som do ar condicionado agora era mais forte, quase um rugido grave vindo do teto. Ao atravessar a última porta de manutenção, o espaço se abriu diante dele como um templo.

O hangar subterrâneo era imenso — uma caverna industrial iluminada por refletores brancos suspensos a dezenas de metros de altura. O chão, de um cinza polido, refletia as luzes como um espelho úmido. E no centro, repousando como feras adormecidas, estavam as aeronaves.

O primeiro deles dominava a cena com sua estrutura robusta. O Prima, como dizia discretamente a inscrição nas laterais da fuselagem. Era um cargueiro Embraer C-390 com as asas redesenhadas para acomodar motores basculantes capazes de pousar e decolar na vertical. O corpo da aeronave era coberto por uma pintura em tons de cinza geométrico, formando padrões de camuflagem que lembravam circuitos eletrônicos.

Ao lado, repousava o Night Fury — e Marco prendeu o fôlego.

A aeronave parecia quase viva. Era um Boeing 767 todo pintado em preto fosco, como um animal predador, exibindo linhas afiadas e elegantes. Nas asas, pods cilíndricos denunciavam o posicionamento dos canhões de laser, e um domo sobre a fuselagem refletia as luzes do hangar como um olho.

Marco sentiu uma pontada de fascínio involuntário. Aquilo era engenharia e terror fundidos numa única criação. Ele se lembrou do bombardeiro F-117 Nighthawk, o “avião invisível” das forças americanas, pintado da mesma cor escura para absorver ondas de radar. Agora, o Brasil tinha seu próprio monstro invisível.

Ele olhou em volta, avaliando a movimentação. Dois guardas conversavam em uma das extremidades, perto de uma escada hidráulica.

Marco respirou fundo. O tempo parecia correr mais devagar.

Em silêncio, ele atravessou parte do hangar, rente às sombras da parede, até alcançar a rampa traseira do Prima, que estava abaixada. Subiu a rampa em movimentos contidos, sentindo o eco metálico de seus sapatos contra o piso.

Dentro do compartimento de carga, o ar era denso e cheirava a combustível e graxa. O espaço era grande, vazio, e as luzes brancas vibravam levemente no teto. Marco caminhou até a junção das asas, avaliando as estruturas reforçadas. Sabia, por instinto, onde uma explosão causaria mais dano.

Retirou o pacote de explosivo plástico da mochila, moldando-o com calma, e o fixou sob uma viga interna, prendendo o detonador.

Cada estalo de fita adesiva parecia ecoar quilômetros.

Quando terminou, ficou parado por um momento, escutando apenas o som do próprio coração.


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Nicolas chegou diante de uma porta mais larga e diferente das demais. No letreiro metálico lia-se: Apenas pessoal autorizado.

Ele olhou para os lados. Nenhuma movimentação.

Passou o cartão. A luz verde piscou. A porta se abriu com um som seco.

Dentro da sala, um homem uniformizado estava de costas, observando um painel de monitores. Nicolas parou instantaneamente, o ar travado na garganta.

Não havia tempo para pensar. Recuou em silêncio e abriu a porta lateral ao acaso, entrando num pequeno depósito de suprimentos.

O espaço era apertado, com cheiro de papel e produto de limpeza.

Ele encostou-se à parede e observou pela fresta da porta. O segurança virou-se, bocejou e, depois de alguns instantes, saiu da sala principal. O som das botas no piso ecoou até desaparecer.

Nicolas esperou mais um pouco, o suor frio escorrendo pela nuca.

Quando se convenceu de que o corredor estava vazio, abriu a porta lentamente.

Silêncio.

Ele respirou fundo e voltou ao comando central.

O que viu o paralisou.

Telas enormes cobriam as paredes, exibindo imagens de satélites, dados, coordenadas, gráficos que ele não compreendia. No centro, uma mesa semicircular com dezenas de painéis e telas piscando — como uma torre de controle de aeroporto, mas mais silenciosa, mais sombria.

Nos cantos, armários cheios de pastas, e sobre as paredes laterais, painéis de fotografias. Centenas delas.

Nicolas aproximou-se. E sentiu o estômago revirar.

Ali estavam registros de naves — discos, triângulos, esferas, formatos de gota — pairando sobre oceanos, desertos e florestas. Havia imagens noturnas captadas por radar, fotografias aéreas e até desenhos técnicos.

Mas então, seu olhar encontrou outro painel, e ele recuou instintivamente.

Nele, corpos.

Criaturas pequenas, de pele cinza e cabeças desproporcionais, olhos negros enormes, membros finos e compridos.

As fotos vinham acompanhadas de logotipos militares dos Estados Unidos, Rússia, China — e, no canto de várias delas, o brasão da Força Aérea Brasileira. Em algumas, os corpos estavam sobre mesas metálicas. Em outras, eram apenas sombras em macas cobertas.

Nicolas reconheceu alguns registros: o Caso Roswell, de 1947. O Caso Trindade, no Brasil. Mas uma das fotos, isolada no centro, atraiu seus olhos.

Um corpo pequeno, de pele amarronzada e oleosa, olhos avermelhados e três protuberâncias na cabeça. Deitado sobre uma mesa metálica, cercado de homens de jaleco.

Nicolas sentiu o chão desaparecer sob seus pés.

O ET de Varginha.

Seu corpo começou a tremer. A mente girava, as imagens se sobrepunham — o pai, a fuga, Marco, as mortes.

A realidade o golpeava com força. Tudo era real.

O projeto existia. O pai participara dele.

E agora ele estava dentro do mesmo inferno.

Um princípio de crise tomou conta de seu corpo. A respiração tornou-se curta, irregular. Ele apoiou as mãos sobre a mesa, tentando não desabar.

Mas, entre os flashes de pânico, um rosto surgiu em sua mente: Marco. A lembrança da voz firme dele, da mão sobre seu ombro, das promessas.

Nicolas inspirou com força, lutando contra o colapso.

Num gesto impensado, arrancou a foto do painel e a dobrou, guardando-a no bolso da camisa. Ainda trêmulo, ele se aproximou do computador central e plugou o HD externo que Big Boy lhe dera.

Um som metálico ecoou.

Na tela, uma janela se abriu:

“Dispositivo conectado. Instalando...”

A barra de progresso começou a encher lentamente.

Nicolas manteve os olhos fixos nela, o suor escorrendo pelas têmporas.


—X—X—X—


Marco terminava a instalação do explosivo no Prima.

Verificou o detonador, ajustou o cronômetro e respirou fundo. Voltou pela rampa, observando o hangar. Os dois guardas ainda conversavam próximos ao Night Fury, distraídos. Se movesse com cuidado, talvez conseguisse alcançar a segunda aeronave.

Ele deu dois passos. No terceiro, o ombro encostou em algo.

Um cabo de energia se desprendeu e caiu no chão, produzindo um som metálico que ecoou como um tiro.

As vozes cessaram. Dois rostos se viraram ao mesmo tempo.

— Quem está aí?! — gritou um dos guardas.

Marco ficou imóvel por um segundo. Depois, correu.

— Pare!

Ele subiu a escada lateral do Night Fury. Atrás dele, o alarme explodiu.

O som era ensurdecedor.

As luzes vermelhas começaram a girar, varrendo o hangar e os corredores.

Sirene. Eco. Caos.

Marco correu pelo corredor estreito do avião e deu de cara com outro guarda que vinha saindo. Sem pensar, avançou. Atingiu o homem no peito com o ombro, prensando-o contra a parede. O som seco do impacto ecoou no metal.

O guarda tentou reagir, mas Marco o segurou pela nuca e bateu a cabeça dele contra o painel. O corpo caiu mole.

Marco pegou a arma e continuou.


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No comando central, o reflexo das luzes vermelhas pintou o rosto de Nicolas.

A sirene soava como um rugido vindo das entranhas da Terra.

Por um instante, ele acreditou ter sido descoberto. Mas então, um dos monitores mostrou a cena do hangar: guardas correndo, luzes piscando, alarmes disparados.

No meio da confusão, a figura de Marco. Sozinho, lutando para fugir.

O coração de Nicolas apertou com uma dor física. Ele sentiu uma vontade quase desesperada de correr até lá, de ajudá-lo, de não deixá-lo sozinho — mas sabia que seria inútil.

A razão venceu o impulso.

Se eu for pego, morremos os dois.

Ele respirou fundo, tentando conter o choro. Olhou para a barra de progresso na tela — o vírus estava instalado.

Apertou o punho e virou-se, saindo da sala.

No bolso, a fotografia do ser de Varginha queimava como uma lembrança viva.

O corredor estava tomado pelo vermelho das sirenes. O som reverberava nas paredes, vibrando em cada osso. Ele começou a correr, o coração acompanhando o ritmo da luz pulsante.

Cada curva parecia mais estreita, cada respiração mais curta. Mas, acima de tudo, um pensamento o guiava:

Marco prometeu que voltaria.

E ele acreditava nisso com a força de quem já não tinha mais nada.