— Eu acho que encontrei uma maneira de deter o Projeto Death Star. — Gael rompeu o silêncio.

Big Boy parou de digitar. Marco descruzou os braços.

— Explica isso direito. — Marco pediu, cauteloso.

Gael girou a cadeira, os olhos cansados, mas intensos. Havia um brilho ali que misturava lucidez e insanidade, o tipo de olhar de quem passou noites inteiras buscando um sentido em meio ao caos.

— Nós temos o cartão de acesso de Leonel — começou ele, pousando o objeto sobre a mesa. O crachá metálico refletiu o feixe de luz que passava pela janela. — Se ele realmente usava isso para entrar na base subterrânea em Confins, então ainda pode funcionar.

Marco arqueou uma sobrancelha.

— Você quer invadir a base?

Gael assentiu lentamente.

— Infiltrar alguém. Só uma pessoa. O suficiente para entrar, copiar o máximo possível de informações do sistema central e depois plantar algo dentro dele.

Big Boy estalou os dedos, empolgado.

— Tipo um vírus.

Gael apontou pra ele.

— Exatamente.

Big Boy girou a cadeira e se voltou para o computador.

— Eu posso montar algo rápido. Algo que se espalhe pelo sistema todo, apagando arquivos e corrompendo o banco de dados. Mas isso precisa ser feito de dentro. Eles têm firewalls pesados, camadas de isolamento físico. Só alguém conectado diretamente à rede da base conseguiria.

Gael cruzou os braços e inclinou a cabeça.

— Se o sistema for corrompido, eles perdem tudo.

— Tudo o quê, exatamente? — perguntou Marco.

Big Boy se virou outra vez, os olhos atentos.

— Os projetos, os registros, os protocolos de voo. Até os sistemas dos aviões.

— Os aviões? — repetiu Marco.

Gael assentiu.

— O Night Fury e o Prima. Se os sistemas de controle e armamento deles dependem do mesmo servidor central — e Leonel indicava que sim —, o vírus derrubaria tudo.

O silêncio voltou por um instante, denso e pulsante. Marco passou a mão no rosto, suspirando.

— Isso é suicídio — disse ele, por fim. — Invadir uma base militar secreta? Vocês têm ideia de como é a segurança em Confins?

— Eu tenho — respondeu Gael, calmo. — E também tenho uma ideia melhor: usar a única brecha que temos.

Marco o olhou com desconfiança.

— Que brecha?

Gael pousou o olhar sobre o crachá de Leonel.

— A identidade de Leonel ainda pode estar ativa. Ou, pelo menos, não deve ter sido completamente apagada. Se conseguirmos falsificar um novo crachá com o mesmo código, podemos enganar o sistema de entrada.

Big Boy já estava digitando, animado com a ideia.

— Isso eu consigo fazer. Só preciso de uma amostra do código RFID.

Gael assentiu, satisfeito, e então disse:

— Com isso, precisamos de alguém que se infiltre.

Marco estreitou os olhos.

— Alguém? Quem exatamente?

Antes que Gael pudesse responder, uma voz veio de trás deles, firme, mas contida:

— Eu.

Os três se viraram ao mesmo tempo.

Nicolas estava parado na porta do quarto, o rosto pálido, o cabelo bagunçado, a expressão tensa. Vestia uma camiseta preta e calça de moletom. Parecia não ter dormido.

Gael o olhou por um instante, surpreso. Marco, por outro lado, reagiu imediatamente.

— Nem pensar.

— Eu sou a escolha mais lógica — insistiu Nicolas, avançando alguns passos.

— Lógica? — Marco ergueu a voz. — Você tem noção do que está dizendo? Isso não é um jogo, Nicolas.

— Eu sei muito bem o que é — rebateu ele. — É exatamente por isso que quero ir.

O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som dos ventiladores dos computadores. Big Boy olhava de um para o outro, tenso, sem saber se devia intervir. Gael permanecia observando, como se medisse as palavras.

— Nicolas… — começou Marco, o tom agora mais calmo — …você não tem treinamento, não conhece os protocolos de segurança, não sabe nem o que vai encontrar lá dentro.

— E quem mais vai fazer isso? — interrompeu Nicolas. — Você? Gael? Big Boy? Todos vocês são rastreáveis. Eu não sou ninguém. E mesmo que eles estejam atrás de mim, aquele seria o último lugar onde eles me procurariam.

Marco fechou o punho, respirando fundo.

— Eu não vou deixar.

— Não cabe a você me deixar ou não — respondeu Nicolas, e havia algo de duro em sua voz. — Meu pai morreu por causa disso, Marco. Eu não vou fugir agora.

As palavras ecoaram pela casa como um golpe seco. Gael desviou o olhar, e até Big Boy parou de digitar. Marco manteve o olhar fixo em Nicolas por alguns segundos, os maxilares travados.

Por fim, suspirou.

— Você não entende o risco.

— Eu entendo. E justamente por isso eu sou o único que pode fazer isso — disse Nicolas. — O último lugar onde vão me procurar é na própria base.

Big Boy virou-se na cadeira, balançando a cabeça.

— Tecnicamente, ele tem razão.

Marco o encarou, incrédulo.

— Você só pode estar de brincadeira.

Big Boy ergueu as mãos.

— Eu só disse que faz sentido.

Gael, ainda observando, passou a mão na barba.

— É uma loucura. Mas... talvez seja a única chance que temos.

Marco deu um passo para frente.

— Você está aceitando isso?

Gael respondeu com serenidade:

— Estou aceitando que talvez ele tenha razão.

O ar parecia mais pesado. Nicolas manteve-se firme, mesmo com o coração disparado.

— Então é isso — disse ele, quebrando o silêncio. — Vocês precisam de alguém pra entrar. Eu vou.

Marco ainda tentou protestar, mas Gael o interrompeu com um gesto.

— Big Boy e eu vamos estudar as plantas da base e definir a melhor rota. Nada vai acontecer sem planejamento.

Marco assentiu, relutante, e saiu da sala sem olhar para Nicolas.

Gael e Big Boy voltaram a discutir detalhes técnicos. Nicolas ficou parado ali por um instante, sentindo o ar frio vindo da janela. Quando finalmente se virou, viu Marco encostado no batente do corredor, esperando por ele.

Marco estava com o olhar perdido no chão, os braços cruzados, o corpo rígido. Quando Nicolas se aproximou, ele ergueu o olhar, sem disfarçar o incômodo.

— Por que você quer fazer isso? — perguntou, direto.

Nicolas demorou a responder.

— Porque eu preciso — disse, enfim. — Nos últimos dias, tudo que eu achei que sabia sobre a minha vida virou fumaça. Eu passei mais de vinte anos tentando entender o que faltava em mim, e agora percebo que talvez essa resposta esteja justamente nas coisas que meu pai nunca quis me contar.

Marco o observava com atenção, os olhos sérios.

— Você acha que ir pra dentro daquela base vai te trazer paz?

— Não sei — respondeu Nicolas. — Mas talvez me traga um propósito. Eu não quero viver como ele viveu, preso em segredos e mentiras. Se eu conseguir encerrar o que ele começou, talvez eu possa seguir em frente.

Marco desviou o olhar, respirando fundo. Havia algo em Nicolas que o desarmava — uma mistura de vulnerabilidade e coragem.

— Você fala como se não tivesse medo — disse Marco.

— Eu tenho — respondeu Nicolas, num tom quase sussurrado. — Mas é pior ficar parado.

O silêncio se instalou entre eles. Marco se aproximou um passo, a voz baixa:

— Então me promete uma coisa.

— O quê?

— Que não vai fazer isso sozinho.

Nicolas o olhou, confuso.

— O que quer dizer?

— Se você for pra lá — disse Marco, firme — eu vou junto.

— Marco… — começou Nicolas.

— Não insista — interrompeu ele. — Meu trabalho sempre foi te proteger. Isso não vai mudar agora.

Houve um instante em que os dois apenas se encararam. O ar entre eles parecia vibrar, carregado de algo indefinido — medo, desejo, reconhecimento. Nicolas sentiu o coração bater mais rápido, e Marco desviou o olhar por um segundo, como se também tivesse percebido o que acontecia ali.

— Eu não pedi pra ser protegido — disse Nicolas, por fim, com a voz rouca.

— Eu sei — respondeu Marco. — Mas vou proteger mesmo assim.

Nicolas tentou sorrir, mas o gesto se perdeu. Apenas assentiu.

— Então parece que estamos presos um ao outro — murmurou ele.

Marco deu uma risada curta, quase agridoce.

— Parece que sim.

Eles ficaram assim por um momento, em silêncio. A chuva começou a cair do lado de fora, batendo de leve no telhado de zinco da varanda. Gael os chamou da sala, mas nenhum dos dois respondeu de imediato.

A distância entre eles era mínima. Nicolas podia sentir o calor do corpo de Marco, o cheiro de sabão misturado a gasolina e metal. Marco, por sua vez, desviava o olhar para não se perder naquele instante.

Foi Nicolas quem quebrou o silêncio:

— Então… o que acontece agora?

Marco respirou fundo.

— Agora, a gente espera o plano.

De volta à sala, Gael e Big Boy estavam cercados por papéis, diagramas e telas abertas com plantas subterrâneas. O mapa de Confins ocupava um dos monitores principais.

— O subsolo da torre de controle tem dois níveis principais — explicou Gael. — Leonel marcou entradas de acesso por dutos de ventilação, mas também há uma passagem lateral usada para transporte de material.

Big Boy mostrou outra tela.

— Eu posso falsificar a credencial com base no código RFID. Mas o vírus vai precisar ser inserido manualmente, direto no terminal de comando.

— O que ele faz? — perguntou Marco.

— Apaga tudo — respondeu Big Boy. — Histórico, registros, protocolos, bancos de dados, controle de armamento. Tudo.

Gael se recostou na cadeira.

— Um apagão total.

Nicolas observava em silêncio, o rosto imóvel, como se tentasse absorver cada detalhe.

— Vamos precisar de um tempo pra montar tudo — disse Gael. — E quando o plano estiver pronto, não vai ter volta.

Nicolas assentiu, com a voz firme:

— Eu sei.

Marco o observava de canto, e percebeu algo diferente no olhar dele — uma serenidade que não combinava com o caos ao redor. Era como se Nicolas finalmente tivesse encontrado algo em que acreditar.

Do lado de fora, a chuva engrossou, lavando o jardim da chácara. Lá dentro, o som dos teclados e dos trovões se misturava, criando uma melodia tensa e constante. E, entre os quatro homens reunidos ali, a sensação era clara: a guerra estava prestes a começar — e nenhum deles sairia o mesmo depois dela.