O zumbido constante do gerador da Vigília era o único som que preenchia o ar naquela noite abafada. O barulho ritmado parecia o eco distante de um coração tentando continuar batendo, mesmo depois de tudo. Nicolas estava sentado diante do notebook, o rosto iluminado pela tela, o olhar cansado e disperso. Quando uma nova mensagem apareceu na caixa de entrada, ele clicou automaticamente — e o nome que surgiu fez seu peito se contrair: Verônica Roche.


Meu querido Nicolas, espero que esteja bem. Tenho pensado em você desde a última vez que nos vimos. Hoje à noite organizo uma pequena recepção aqui em casa — nada grande, apenas amigos e música. Quero que venha. Acho que será bom para a sua cabeça... e para o seu coração.

Com carinho,

V.R.


Nicolas ficou encarando aquelas palavras por um longo tempo. Algo nelas o desestabilizou. “Para o seu coração.” A frase soava como um convite e, ao mesmo tempo, como uma lembrança de tudo o que ele tentava controlar — o medo, a solidão, o desejo de se sentir acolhido outra vez. Ele nem percebeu que Marco o observava à distância, encostado na parede, braços cruzados, a camisa semiaberta e o rosto em meia sombra.

— O que foi? — perguntou Marco, a voz baixa, mas carregada de atenção.

Nicolas virou o notebook em sua direção. Marco leu a mensagem devagar, os olhos se estreitando conforme avançava nas linhas. No fim, respirou fundo.

— Isso não parece seguro — disse ele, direto. — Pode ser armadilha.

— Verônica sempre foi próxima do meu pai. Ela só quer ajudar.

— Ninguém “só quer ajudar” quando o governo está caçando você. — Marco cruzou os braços. — Confiar é um luxo que a gente não tem.

Gael, que estava por perto, levantou o olhar dos papéis sobre a mesa e soltou um breve sorriso, daqueles que misturam ironia e pragmatismo.

— Talvez o rapaz deva ir — opinou. — Verônica Roche é uma mulher poderosa, muito bem relacionada. Se alguém sabia o que o seu pai estava fazendo, pode ser ela.

Marco o encarou com incredulidade.

— Você quer mandá-lo pra boca do lobo?

— Quero mandá-lo pra onde pode haver respostas. — Gael olhou para Nicolas. — Desde que vocês cheguem separados. Assim chamam menos atenção.

Nicolas sentiu o estômago se revirar, uma mistura de ansiedade e empolgação.

— Tudo bem — respondeu, tentando soar calmo.

— Use um terno preto — sugeriu Gael. — Te dá um ar mais maduro, e ninguém desconfia de alguém de preto numa festa da elite.

— E eu? — perguntou Marco, com um sorriso quase imperceptível.

— Você, sem gravata. Vai parecer um convidado casual.

Marco deu de ombros, mas Nicolas percebeu a pontinha de ironia no olhar dele. No fundo, sabia que Marco tinha razão em desconfiar, mas havia algo em Verônica que ainda o fazia sentir-se seguro — como se ela fosse o último elo com o mundo antes de tudo desmoronar.


—X—X—X—


A mansão de Verônica se erguia no topo de uma antiga pedreira desativada, em Nova Lima. O portão principal se abria para uma estrada de pedras bem cuidadas, ladeada por pequenas luzes embutidas no chão, guiando os carros até o pátio. O ar ali tinha um frescor úmido, e o som distante da água ecoava do fundo do paredão. Lá embaixo, escondida nas sombras, uma lagoa de azul intenso refletia a lua como uma lente líquida. O contraste entre o brilho do vidro e a escuridão da pedra dava à casa um ar de outro mundo.

Nicolas chegou primeiro. Desceu do táxi com as mãos trêmulas, ajeitando o terno preto. A roupa caía nele como se o fizesse parecer alguém mais velho, alguém que tentava disfarçar a própria confusão interna com elegância. Respirou fundo antes de atravessar o portão. O som da música e das conversas veio como uma onda suave.

No interior, o ambiente era iluminado por luzes âmbar e velas distribuídas em colunas de vidro. O aroma de vinho e flores misturava-se ao de madeira polida. As pessoas se moviam como vultos elegantes, rindo e conversando baixo — empresários, políticos, jornalistas e artistas, todos orbitando em torno da anfitriã.

Verônica surgiu no alto da escadaria, com um vestido branco perolado que parecia absorver a luz ao redor. O coque baixo com uma elegante franja lateral deixava o rosto dela emoldurado com perfeição, e o sorriso que dirigiu a Nicolas tinha algo de genuinamente afetuoso.

— Nicolas! — chamou ela, descendo os degraus com leveza e admirando o look do rapaz com indulgência. — Meu Deus, você está um homem. Seu pai teria tanto orgulho.

— Obrigado, Verônica — disse ele, quase sussurrando. — É bom ver um rosto conhecido.

Ela o abraçou, e o perfume dela, doce e discreto, o transportou para lembranças antigas — almoços distantes, risadas rápidas, o som do pai falando sobre negócios.

— Esta noite é pra descansar da dor — murmurou ela ao se afastar. — E pra lembrar que a vida ainda tem beleza.

Nicolas assentiu. Tentou responder algo, mas o olhar se desviou para o salão — e foi então que o viu.

Marco estava ali, do outro lado, parado junto ao bar. O conjunto social escuro realçava seus ombros largos, e a camisa, sem gravata, estava desabotoada o suficiente para deixar à mostra parte do peito. A luz incidia sobre ele como se o destacasse do resto do mundo.

Nicolas prendeu o ar. Por um instante, o barulho das vozes pareceu se dissolver. O tempo se distendeu. Marco o viu e retribuiu o olhar, com um aceno sutil de cabeça. Nada mais. E ainda assim, algo dentro de Nicolas se tensionou, como uma corda prestes a arrebentar.

Verônica percebeu o desvio do olhar dele e sorriu de lado, com a calma de quem entende o que o outro tenta esconder.

— Está tudo bem, querido?

— Sim, claro… é só o calor.

— Às vezes o calor vem de dentro — disse ela, enigmática, antes de lhe dar dois tapinhas no ombro e se afastar entre os convidados.

Nicolas respirou fundo, mas o coração ainda batia descompassado. Tentou se misturar ao ambiente, pegar uma taça, ouvir as conversas sobre política, mas tudo lhe soava distante. As palavras se perdiam, como se o idioma fosse outro.

Então o DJ fez um anúncio:

— Senhoras e senhores, essa vai pra quem acredita que a alma pode ser salva pela música…

As primeiras notas se espalharam pelo salão. O ritmo lento, os acordes sensuais, a voz suave e aveludada preencheram o ar como um véu. As luzes diminuíram, e um brilho azul pálido começou a pulsar nas paredes de vidro, refletindo a cor da lagoa lá embaixo.


“Save me now… from the depth of my infatuation…”


Nicolas fechou os olhos. Era como se cada palavra da canção escavasse algo dentro dele. Quando os abriu, Marco ainda estava lá, agora um pouco mais perto, observando-o. O olhar dele era intenso, direto, e parecia dizer tudo o que o silêncio guardava.


“I could drown in this sea of love and isolation…”


Nicolas engoliu em seco. A melodia o envolvia, as luzes giravam suavemente, e ele sentia que estava se afogando — não em vinho ou melancolia, mas num mar de sensações que não sabia nomear. Era desejo, talvez. Ou a súbita percepção de que alguém o via por completo.

A cada compasso da música, Nicolas se movia um pouco. Consciente ou inconscientemente, se aproximava de Marco. Verônica, parada junto ao piano, observava os dois. Os olhos dela eram cálidos, o sorriso gentil. Quando o rapaz passou por ela, ela murmurou algo apenas para ele:

— Não lute contra o que o coração já decidiu sentir, Nicolas.

Ele virou-se, surpreso.

— Como assim?

— Nada — respondeu ela, com doçura. — Apenas cuide de quem faz você respirar diferente.

Nicolas ficou sem resposta. Voltou o olhar para o salão e viu Marco agora a poucos passos de distância. A respiração ficou curta. As vozes ao redor se dissolveram, restando apenas o som da canção.


“Where is my strength when I need it the most? Tell me what have you done with my mind…”


Nicolas deu mais um passo, o suficiente para que o calor do corpo dele se misturasse ao de Marco. Os olhos se encontraram, e por um instante pareceu que o mundo inteiro tinha parado para observar os dois.

O salão pulsava ao redor, o som, a música, o perfume — tudo se tornava ruído de fundo. Nicolas sentiu o coração disparar e desviou o olhar por um segundo, buscando ar. O ambiente o sufocava. Murmurou um “com licença” e se afastou, caminhando até a varanda.

O ar frio o recebeu como um abraço. Do lado de fora, o vento balançava as cortinas brancas e trazia o cheiro úmido da pedra. Lá embaixo, a lagoa azul refletia as luzes da casa como uma superfície viva. Nicolas se apoiou no corrimão de vidro e respirou fundo, tentando conter o turbilhão dentro dele.

A música ainda soava distante, a voz de Andru Donalds ecoando como um sussurro no ar:


“Save me now…”


E, de alguma forma, Nicolas sentia que aquele pedido — aquele clamor — era dele. Foi então que ele ouviu passos atrás de si.

Lentamente, virou-se. Marco estava ali.

Marco parou na soleira da varanda, a luz do interior delineando sua silhueta. O ar da noite se misturava ao perfume amadeirado que ele usava — discreto, mas inconfundível. Nicolas não soube dizer quanto tempo ficou olhando para ele sem dizer nada. A sensação era de que o tempo havia se dilatado, que o vento tinha se tornado som, e o som, respiração.

— Eu imaginei que você acabaria aqui — disse Marco, a voz rouca, abafada pelo ruído distante da música. — Sempre que o mundo fica pesado demais, as pessoas procuram o ar livre.

Nicolas esboçou um sorriso fraco.

— E você? O que faz aqui, então?

— Talvez a mesma coisa.

Marco se aproximou, até que seus cotovelos repousassem sobre o mesmo corrimão de vidro. Ficaram lado a lado, olhando para a imensidão lá embaixo — o reflexo das luzes da casa tremulando na água azul da lagoa, o movimento leve das copas das árvores. Por um momento, nenhum dos dois falou. Apenas o vento se movia entre eles, empurrando e trazendo de volta o perfume do outro, o calor que emanava dos corpos.

— Às vezes — começou Nicolas, sem tirar os olhos da lagoa —, eu fico pensando se tudo isso está mesmo acontecendo. Parece que o mundo saiu do eixo.

Marco assentiu devagar.

— Às vezes o mundo sai mesmo. E a gente tem que aprender a andar torto pra continuar vivo.

O silêncio voltou, carregado, quase palpável.

Nicolas virou o rosto e o observou de perfil. A expressão de Marco era de uma serenidade forçada, mas os olhos denunciavam cansaço. Nicolas pensou em tudo o que ele tinha feito — em como o salvara tantas vezes, em como estava ali, firme, enquanto tudo à volta parecia ruir.

— Marco — chamou, num tom quase hesitante. — Posso te perguntar uma coisa?

— Claro.

Nicolas hesitou, buscando as palavras.

— Você acredita em destino?

Marco pensou por um instante, o olhar perdido no horizonte.

— Não. — Depois de uma pausa, completou: — Acredito em escolhas. O destino é só o nome que a gente dá praquilo que escolheu sem perceber.

Nicolas sorriu de leve.

— E você escolheu o quê?

Marco demorou para responder.

— Escolhi estar aqui. — Virou-se, encarando-o de frente. — E, pra ser sincero, não sei o motivo. Mas sei que não conseguiria estar em outro lugar.

O coração de Nicolas pareceu tropeçar dentro do peito. A distância entre eles diminuiu — não só a física, mas aquela outra, invisível, que vinha se dissolvendo desde o primeiro dia em que fugiram juntos. A música lá dentro mudou de tom, mas ainda era Save Me Now. Os versos finais ecoaram, abafados, como um sussurro que só eles podiam ouvir:


“I could drown in this sea of love and isolation…”


Nicolas sentiu o impulso. Um passo à frente, talvez dois. Marco o acompanhou, o olhar firme, fixo no dele. O vento passou entre eles como uma presença viva.

Por um instante, tudo pareceu inevitável. O toque, o beijo, a entrega. Os rostos se aproximaram lentamente, e Nicolas sentiu o hálito quente de Marco se misturar ao seu. Estavam a centímetros de distância, quando o som abrupto de uma batida de bateria atravessou o ar — o DJ havia trocado a música. O salão explodiu em um ritmo pop e frenético.

Abracadabra.

O feitiço se quebrou. Marco piscou, desviando o olhar, respirando fundo.

— Acho que vou buscar algo pra beber — disse, com um sorriso constrangido. — Quer?

— Pode ser. — Nicolas respondeu num sussurro, sem conseguir encará-lo.

Marco se afastou, desaparecendo por entre as cortinas. Nicolas ficou parado, o corpo ainda vibrando com a tensão do quase-beijo. Encostou-se no corrimão, tentando recuperar o fôlego. O som da festa voltou a invadir a varanda — risadas, passos, o tilintar de copos. Lá embaixo, a lagoa azul refletia as luzes como se fosse um espelho vivo.

Nicolas observou o reflexo das janelas no espelho d’água e teve a sensação de que algo o observava de volta.

Alguns minutos depois, ele voltou para dentro. Marco estava junto ao bar. O olhar dos dois se cruzou, rápido, e Nicolas sentiu o mesmo arrepio da primeira vez que o viu. Nenhum deles comentou o que havia acontecido. Fingiram que era apenas uma noite qualquer.

Verônica surgiu logo em seguida, irradiando elegância e calor humano. Aproximou-se de Nicolas com um sorriso maternal.

— Está aproveitando a festa?

— Está tudo ótimo, Verônica. — Ele hesitou, depois perguntou: — Você chegou a conversar com o meu pai nos últimos dias antes de... — sua voz falhou — antes de tudo?

Ela fez uma pausa breve, olhou-o com ternura, e respondeu com doçura calculada:

— Não, meu querido. Leonel andava muito reservado. Desde o fim do ano passado, parecia... preocupado. Mas nunca comentou comigo sobre o motivo.

Nicolas assentiu, desapontado.

— Achei que talvez ele tivesse te dito algo sobre o trabalho, algum projeto novo…

— Ele era discreto até demais — respondeu ela, com um sorriso triste. — E um homem de segredos, como muitos que constroem impérios.

A conversa ficou suspensa por alguns segundos. Verônica pousou uma das mãos sobre o braço de Nicolas, num gesto quase maternal.

— Sabe, Leonel me dizia que você era o oposto dele. Que sentia demais, pensava demais, e que isso às vezes te deixava vulnerável. Eu nunca vi isso como fraqueza. As pessoas que sentem são as únicas capazes de mudar alguma coisa no mundo.

Os olhos de Nicolas marejaram.

— Ele disse isso?

— Disse. E agora, olhando pra você, eu entendo o que ele quis dizer. — Ela sorriu. — Você é forte, mesmo quando não percebe.

A frase ecoou dentro dele como um abraço — ou uma armadilha.

Verônica percebeu o olhar distante de Nicolas e inclinou a cabeça, estudando o rosto dele. Depois sussurrou, quase num tom confidencial:

— E quanto a ele... — ela fez uma pausa, a cabeça inclinando na direção do bar, o olhar se estreitando com sutileza — ...sabe, às vezes é perigoso negar aquilo que o coração já aceitou como verdade.

Nicolas ficou surpreso, corando.

— Eu não... — tentou dizer, mas as palavras se perderam.

— Não precisa me explicar. — Verônica sorriu, gentil. — Eu só quero que você saiba que é livre pra ser quem é. O mundo é cruel demais pra desperdiçarmos amor, de qualquer forma que ele venha.

Ela o deixou sem fala. Aquilo soava como uma benção. Ou como uma isca.

— Obrigado, Verônica — disse, enfim.

Ela apertou sua mão, um toque firme, e olhou fundo nos olhos dele.

— Você é mais importante do que imagina, meu querido. Ainda vai entender o porquê. Mas, até lá, confie nas pessoas certas.

Havia algo estranho na forma como ela pronunciou “as pessoas certas”. Nicolas sentiu um arrepio, mas logo disfarçou com um sorriso hesitante.

O resto da noite transcorreu num véu de ruídos e imagens desconexas. Nicolas sentia o corpo leve e, ao mesmo tempo, exausto. Marco se manteve a uma distância confortável, mas o olhar entre eles dizia mais do que qualquer palavra poderia. Quando finalmente se despediram de Verônica, ela os acompanhou até a porta, mantendo o mesmo sorriso doce.

— Foi maravilhoso revê-lo, Nicolas. — Ela beijou seu rosto. — Espero que volte a me visitar quando o coração estiver mais tranquilo.

Ele sorriu, sem saber o que dizer. Marco apenas acenou com a cabeça.

— Foi uma bela festa — disse, num tom neutro.

O vento da madrugada soprava quando eles atravessaram o jardim. As luzes refletiam nas pedras úmidas, e o som da lagoa ecoava distante. Verônica permaneceu à porta, observando os dois se afastarem. Ela ficou ali por um longo tempo, imóvel, ouvindo apenas o som do vento. Então sussurrou para si mesma, quase sem voz:

— Tudo no seu tempo, meu querido Nicolas. Tudo no seu tempo.

O som da festa continuava atrás dela, distante e apagado, enquanto lá embaixo, na água imóvel, a lua se partia em mil fragmentos de luz.