Conte as Estrelas
17 Capítulo 15
A madrugada parecia não ter fim.
Do lado de fora, o vento assobiava entre as frestas da janela, e o zumbido constante dos servidores na sala lateral criava um fundo sonoro contínuo, como se a própria casa respirasse.
Gael estava sentado à mesa, cercado por pilhas de papéis e relatórios carcomidos pelo tempo. O brilho azul das telas de Big Boy projetava sombras oscilantes sobre as paredes. Naquele contraste entre o claro e o escuro, o cansaço se misturava à obstinação de quem sabe que está mexendo em algo perigoso demais para recuar.
— Dormir é luxo. — Murmurou o jornalista, sem desviar os olhos da pasta aberta. — Ainda mais quando a gente cutuca um vespeiro desses.
Marco, encostado ao batente da porta, observava em silêncio. Estava descalço, vestindo apenas uma calça de moletom. Tinha o rosto sério, mas o olhar inquieto.
— E quando a vespa é o próprio governo — Respondeu ele, — a picada é letal.
Big Boy soltou uma risada breve, seca, sem humor. O som das teclas recomeçou, frenético, como uma metralhadora discreta.
O relógio de parede marcava quase quatro da manhã. Nicolas dormia — ou ao menos tentava — no quarto dos fundos. Nenhum dos três homens o mencionava, como se fosse um nome temporariamente proibido de circular pelo ar.
A luz fria do monitor refletia nos óculos de Big Boy. Gael, debruçado sobre as folhas, folheava cada página com o cuidado de um arqueólogo desenterrando um artefato perigoso. Ele murmurava trechos, datas, nomes técnicos. Tudo o que Leonel havia guardado agora estava ali, exposto sobre aquela mesa.
De repente, Gael parou. Pegou uma das pastas mais antigas, amarelada, e franziu o cenho.
— Olha isso…
Marco se aproximou. Big Boy girou a cadeira para olhar.
No centro da folha, uma lista de nomes — mas não de pessoas. Eram palavras curtas, em letras maiúsculas, todas em latim. Gael começou a ler, baixo:
— Aquila… Draco… Lyra… Orion… Ursa Major…
Fez uma pausa. A última linha dizia: CYGNUS.
— Constelações. — Disse Marco, reconhecendo o padrão.
Gael assentiu.
— Codinomes. — A voz dele soava diferente, mais grave. — É assim que eles se identificam. Os cabeças do Projeto Death Star.
Ele virou a folha e, no verso, havia apenas anotações de transferências bancárias e assinaturas sem nome.
— “Eles se veem como deuses olhando o mundo de cima”. — Continuou Gael, com um meio sorriso irônico. — Um grupo de homens que acha que pode brincar de estrela.
Big Boy, sem levantar a cabeça, respondeu:
— E cada estrela dessas deve custar milhões em contratos falsos.
O ar ficou pesado. O vento que entrava pela janela fez as folhas da mesa se moverem. Gael passou os dedos sobre o nome Cygnus como quem toca uma ferida antiga.
— “O cisne.” — Murmurou. — Na mitologia, é aquele que se joga nas águas quando perde o companheiro.
Marco arqueou as sobrancelhas.
— E o que isso significa pra eles?
— Que o líder talvez seja alguém disposto a se sacrificar… ou a usar o sacrifício dos outros como fachada. — Gael empurrou a folha para o centro da mesa. — Cygnus é a pessoa mais alta na hierarquia. Leonel me disse que era o verdadeiro cérebro por trás de tudo.
— Ele chegou a te dizer quem é essa pessoa?
Gael fez que não com a cabeça.
— Nossos encontros sempre eram muito rápidos. Ele nunca chegou a citar nomes. Mas a forma como ele descrevia… era como se Cygnus estivesse além do próprio governo.
O nome pairou no ar, e Marco sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha.
Cygnus.
Mesmo sem saber quem era, a palavra soava errada — pesada, antiga, como algo que sempre existiu.
Big Boy quebrou o silêncio com o estalar do teclado.
— Consegui abrir mais um arquivo dos pen drives. Tem uma lista cruzada de transações. Olha isso aqui. — Ele virou a tela.
Códigos, valores e assinaturas eletrônicas passavam em linhas intermináveis.
— Lavagem de dinheiro. — Gael percebeu. — Usavam empresas de fachada da construção civil. Leonel devia ser um dos elos logísticos.
Marco cruzou os braços.
— Isso é grande demais pra gente lidar.
— É grande demais pra qualquer um. — Emendou Gael. — Mas agora é tarde pra fingir que não sabemos.
Ele jogou o corpo contra o encosto da cadeira, massageando as têmporas.
— Faltam os nomes verdadeiros. Leonel devia ter uma lista. Talvez pretendesse me entregar pessoalmente.
Big Boy o encarou.
— Ou talvez nunca tenha existido lista nenhuma.
Gael o fitou em silêncio.
— Não. Leonel não arriscaria tanto sem uma prova.
O relógio bateu cinco horas. Do lado de fora, o céu começava a clarear. Um fio de luz cinza escorria pela janela, se misturando ao brilho azul das telas.
Marco observou os dois homens e sentiu um cansaço estranho.
— Vocês dois não dormem nunca?
Gael deu de ombros.
— Quando a verdade começa a aparecer, o sono some.
Big Boy levantou uma sobrancelha.
— E quando ela aparece demais, a gente desaparece.
Gael soltou um suspiro e afastou a pilha de papéis.
— Mas pensando bem, vou tentar dormir um pouco. Mas antes… — Ele retirou uma pasta do fundo da pilha e a abriu. Dentro, havia um cartão magnético, preto, com o logotipo apagado de um órgão federal.
Marco o observou de perto.
— A credencial de acesso.
— Da base subterrânea em Confins — Concordou, baixo. — Talvez a única porta que temos pra dentro do Projeto Death Star.
Marco desviou o olhar.
— Você não vai me dizer que está pensando em usar isso.
— Estou, mas ainda não sei exatamente como. — Gael respondeu, com um meio sorriso. — Mas repito, é a primeira vez em anos que temos algo real nas mãos.
Big Boy riu baixinho.
— O problema é que toda vez que a gente acha que tá no controle, alguém explode.
Gael recolheu o cartão e guardou no bolso.
— Então é melhor que ninguém exploda por enquanto.
O sol começava a se erguer, lavando o interior da casa com uma luz fria e metálica. A madrugada finalmente se dissolvia, mas deixava para trás o mesmo peso: nomes, códigos e uma presença invisível — Cygnus, o cisne que pairava sobre tudo.
Marco olhou em direção ao corredor que levava aos quartos. A porta de Nicolas estava fechada. Nenhum som vinha de lá. Por um instante, ele pensou em bater. Em perguntar se o garoto estava bem, mas desistiu. Às vezes o silêncio também é uma forma de cuidado.
—X—X—X—
Marco havia tentado dormir por algumas horas, mas o sono não viera. A cada vez que fechava os olhos, via flashes — o corpo de Leonel sendo arrastado, o brilho do míssil riscando o céu, a explosão iluminando a noite.
E, entre uma lembrança e outra, o rosto de Nicolas surgia em meio ao caos.
Levantou-se, passou as mãos pelo rosto e seguiu até a cozinha. A água do filtro estava fria e confortava conforme descia pela garganta. Do outro lado da sala, ouviu o som rítmico das teclas e o clique seco do isqueiro de Gael.
— Achei que você tinha ido dormir. — Disse o jornalista em tom casual, sem virar o rosto.
— Tentei. — Respondeu Marco. — Mas eu posso dizer o mesmo de você. Parece que o sono anda com medo da gente.
Gael sorriu de lado.
— Normal. Quem mexe com segredos começa a sonhar com eles acordado.
Big Boy ergueu o olhar das telas.
— Sonhar, não. Ter pesadelo.
O hacker girou a cadeira, as rodas rangendo no piso.
— Você viu a última pasta que abri? — Perguntou, e virou o monitor na direção deles.
No centro da tela, uma planilha colorida com códigos de contratos e siglas militares.
— São relatórios internos da Força Aérea — Explicou ele. — E essas colunas aqui são identificações cruzadas com datas conhecidas.
Gael se inclinou sobre a mesa.
— Essas datas... são as de incidentes ufológicos registrados no Brasil.
— Exato. — Big Boy ampliou um dos arquivos. — Operação Prato, 1977.
Abriu outro: Voo VASP 169, 1982.
Depois outro: A Noite Oficial dos OVNIs, 1986.
As fotos em preto e branco piscavam na tela — objetos luminosos, recortes de jornal, anotações técnicas de pilotos e controladores de voo.
Marco cruzou os braços, intrigado.
— Leonel tinha tudo isso?
— Cópias. — Disse Gael. — Ele devia ter acesso aos arquivos originais por causa das obras de infraestrutura que prestava ao governo. Deve ter retirado duplicatas para montar o quebra-cabeça.
Big Boy abriu outro diretório. Na tela, surgiram imagens de projetos tridimensionais: aviões, circuitos, armamentos. Um dos arquivos exibia o nome em letras claras: PROJECT NIGHT FURY — BOEING 767 MODIFICATION PROGRAM.
Marco se aproximou, o olhar fixo. O modelo 3D do avião girava lentamente na tela. Era um Boeing 767, mas transformado. As asas reforçadas, os pods acoplados sob o nariz e nas extremidades das asas. A fuselagem negra, recoberta por um material opaco.
— Então isso é… um avião de ataque? — Perguntou ele.
— Não exatamente — respondeu Gael. — É um interceptador de grande porte. Capaz de voar em altíssima velocidade, quase invisível ao radar, e armado com canhões laser.
Marco estreitou os olhos.
— Laser?
— Tecnologia experimental. — Completou Big Boy. — Mas pelas especificações, o sistema já estava operacional.
O hacker abriu o próximo arquivo: PROJECT PRIMA — EMBRAER C-390 MODIFICATION PROGRAM. O vídeo mostrava uma aeronave robusta, de aparência familiar, mas equipada com asas largas, motores basculantes e radares alongados.
— O Prima. — Gael anunciou. — Um avião de rastreamento e suporte, com motores capazes de girar noventa graus pra decolar e pousar na vertical. Ele é o olho do sistema. Detecta as anomalias, rastreia e guia o Night Fury pra interceptação.
O silêncio se instalou por alguns segundos. O som dos ventiladores do computador parecia mais alto.
Big Boy engoliu em seco.
— O projeto tá operacional.
Gael assentiu, sombrio.
— E se já está voando, é porque o governo não só sabe… como está testando.
Marco passou a mão no rosto.
— O que mais falta descobrir?
— Os nomes verdadeiros. — Disse Gael. — As pessoas por trás das constelações.
Ele abriu novamente a pasta dos codinomes e começou a cruzar as anotações com os arquivos digitais. Mas as colunas não coincidiam. Não havia nenhum registro civil, nenhum CPF, nada que ligasse aquelas constelações a pessoas reais.
— Eles usaram um sistema fechado. — Explicou Big Boy. — Cada codinome corresponde a um acesso biométrico. Sem o banco de dados original, não há como saber quem é quem.
Marco observava, impaciente.
— Então estamos de mãos atadas.
O relógio marcava oito da manhã quando a tensão começou a se dissipar. Gael e Big Boy pareciam satisfeitos com as descobertas — ou simplesmente exaustos demais para continuar. Marco serviu café e deixou-os discutindo as próximas etapas.
No quarto, Nicolas acordava devagar. O corpo ainda pesado da noite anterior, a cabeça cheia de ecos. Por um momento, não soube onde estava. Depois lembrou-se do armazém, dos computadores, da tensão de Gael e Big Boy.
E de Marco.
Estendeu a mão até o criado-mudo e pegou o celular.
O aparelho estava desligado. Ligou-o. Enquanto o aparelho iniciava, o jovem se levantou e foi até o banheiro. Abriu a torneira e encheu as mãos com um pouco de água gelada, jogando-a no rosto. Massageou os olhos lentamente, como se aquilo pudesse ajudar a desanuviar os pensamentos.
Nicolas ouviu um bipe e a tela do celular piscou. Logo, uma enxurrada de notificações surgiu. Entre elas, mensagens de Verônica Roche.
"Nicolas, você está bem? Fiquei preocupada depois da sua saída repentina."
"Se precisar de qualquer coisa, pode contar comigo."
Nicolas mordeu o lábio inferior. Sentiu uma pontada de culpa. Respondeu:
"Desculpa por ter saído daquele jeito. Estou bem agora."
Apertou “enviar” e ficou olhando para a tela.
— Isso é uma péssima ideia. — Disse uma voz às suas costas.
Nicolas se sobressaltou. Big Boy estava parado à porta, os braços cruzados. Antes que ele pudesse reagir, o hacker avançou e tomou o celular de sua mão.
— Ei! — Protestou Nicolas. — Devolve isso!
Big Boy já estava desligando o aparelho.
— Tá maluco? Quer botar a gente na mira deles?
— Você não pode simplesmente pegar meu celular!
— Posso, se for pra te manter vivo. — A resposta foi fria, objetiva.
O barulho da discussão atraiu Gael e Marco, que vieram apressados pelo corredor.
— O que tá acontecendo aqui? — Perguntou Gael.
Big Boy levantou o celular.
— O garoto tava mandando mensagem pra fora.
Gael franziu o cenho.
— Pra quem?
— Verônica Roche. — Respondeu Nicolas, irritado. — Uma amiga da família. Ela só perguntou se eu tava bem!
— Nicolas, escuta. — Disse Gael, tentando manter a calma. — Eles podem rastrear o sinal do aparelho. Localização, IP, torre de conexão… qualquer coisa. Se o grupo de Cygnus ainda estiver te procurando, você acabou de acender um farol em cima da gente.
Nicolas fechou as mãos em punho.
— Eu não sou um prisioneiro de vocês.
— Ninguém disse isso. — A voz de Marco cortou o ar.
Ele se aproximou devagar, sem pressa, e pousou a mão sobre o ombro de Nicolas. O toque foi firme, mas gentil.
— Eles só querem te proteger.
O olhar de Nicolas subiu até o dele. Por um instante, o mundo pareceu se calar. Gael e Big Boy trocavam palavras técnicas, mas o som se afastava, ficando distante. O calor da mão de Marco era o único ponto real ali.
— Tudo bem — Murmurou Nicolas, respirando fundo. — Eu entendo.
Ele estendeu a mão, pegou o celular de volta e o guardou no bolso. Big Boy, satisfeito, apenas assentiu.
— Agora sim, seguro.
Gael suspirou, passando a mão no cabelo.
— Vamos tentar descansar. A cabeça de todo mundo tá no limite.
Marco ainda olhava para Nicolas. O garoto desviou o olhar e voltou para o quarto, se sentando na beira da cama, o rosto meio virado para a janela. O sol batia de leve em seu perfil, revelando o cansaço, mas também algo novo — uma tensão muda, difícil de nomear. No fundo, Nicolas sentia que o perigo não vinha apenas de fora — mas também do que começava a nascer dentro dele.
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