O caminho de volta à chácara foi silencioso, carregado de uma estranha gravidade. O motor do Corolla emitia seu ronco grave e intermitente, como se respirasse junto com os passageiros, alternando entre momentos de vibração e pausas quase meditativas. As árvores e a neblina que margeavam a estrada pareciam se mover mais devagar do que o carro, como se o mundo tivesse decidido desacelerar para que eles tivessem tempo de absorver tudo.

Nicolas colou o rosto à janela, o frio do vidro encostando na pele quente do rosto. O cinza do céu começava a clarear, mas sem pressa, espalhando tons suaves sobre as gotas que corriam pelo vidro. Ele se perdeu nos pensamentos, como se a estrada fosse um limbo entre o que haviam vivido e o que ainda estava por vir. Cada quilômetro percorrido parecia prolongar a sensação de suspensão, o momento antes do mergulho no desconhecido.

Marco dirigia com firmeza, os olhos fixos na estrada molhada, a mão firme no volante. A postura rígida era quase ritualística, um reflexo de anos de treinamento. Nicolas observava cada movimento, cada gesto contido, e não pôde deixar de notar como o corpo de Marco exalava calma e controle, enquanto o seu próprio permanecia tenso, pronto para qualquer ameaça imaginária. O hábito de sobrevivente, moldado por experiências duras e imprevisíveis, ainda o dominava: os ombros erguidos, os músculos contraídos, os olhos percorrendo constantemente o retrovisor.

— Não sei se algum dia vou conseguir relaxar de verdade — Murmurou Nicolas, quase sem voz, para si mesmo.

Marco não respondeu de imediato, mas o ouvido atento captou a leve alteração no tom da voz do passageiro. Um silêncio confortável se instalou entre eles, quebrado apenas pelo som intermitente do motor e pelo farfalhar da chuva nas folhas.

Quando finalmente chegaram à Vigília, a névoa ainda pairava baixa, envolvendo a casa e o jardim em um véu úmido e etéreo. O lugar parecia suspenso no tempo, como se tivesse parado de existir enquanto eles estavam fora. Big Boy abriu a porta com seu estalo habitual, a camiseta preta manchada de café e o olhar cansado denunciando noites mal dormidas.

— Conseguiram? — Perguntou, a voz rouca e pausada, mas carregada de expectativa.

Marco ergueu a mochila com firmeza, mantendo o controle sobre cada gesto.

— Está tudo aqui.

Gael exalou um suspiro de alívio, seus olhos brilhando com a antecipação de quem está prestes a tocar algo histórico. Gesticulou para a mesa da sala, onde cabos, laptops e pilhas de papéis se amontoavam em uma confusão organizada. Com cuidado quase reverente, começou a espalhar o conteúdo sobre a superfície gasta da madeira.

Papéis carimbados com brasões da Aeronáutica e timbres do Ministério da Defesa misturavam-se a relatórios detalhados, diagramas complexos e fotografias aéreas antigas. Cada folha parecia sussurrar segredos que ninguém deveria conhecer.

— Meu Deus… — Murmurou o jornalista, os dedos percorrendo os papéis com cuidado. — Isso é… tudo.

Nicolas ficou alguns passos atrás, observando a interação entre os outros dois. Sentia o peso da responsabilidade pairar sobre ele, misturado à estranha sensação de estar apenas assistindo, parte do mundo, mas não protagonista.

Gael encontrou fotografias antigas da Operação Prato, datadas de 1977. Imagens em preto e branco mostravam luzes pairando sobre o rio, manchas luminosas no céu e movimentos de objetos que desafiavam a lógica. Cada fotografia era um lembrete da estranheza e da magnitude do que haviam descoberto.

— Isso aqui… — Ele virou uma página com cuidado — …é a Noite Oficial dos OVNIs, 1986. Todos os relatórios de radar. Todos os registros de oficiais que estavam lá.

Big Boy se inclinou por cima do ombro de Gael, curioso, com a expressão alerta.

— Isso é coisa que ninguém devia ter. — Murmurou, quase em tom de reverência.

— E mesmo assim está aqui. — Respondeu Gael, os olhos marejando de assombro e emoção. — Leonel conseguiu. Ele conseguiu.

Entre as pilhas de papéis, havia também CDs, pen drives e até disquetes etiquetados com códigos e datas. Big Boy pegou o primeiro pen drive e se dirigiu à estação de trabalho, onde uma parede de monitores pulsava com linhas de código que mais pareciam o coração eletrônico da Vigília.

— Me dê uns minutos — Disse, inserindo o pen drive com precisão cirúrgica. — Se isso for realmente o que parece, vamos precisar de café. Muito café.

Gael assentiu, mergulhando de cabeça na análise dos papéis. Marco observava em silêncio, calculando cada possibilidade, cada risco, enquanto Nicolas permanecia de pé perto da janela, a neblina lá fora dissolvendo-se lentamente à medida que a luz do amanhecer se infiltrava na sala. A magnitude do que agora estava em suas mãos começava a se instalar. OVNIs, operações secretas, tecnologia avançada — tudo isso agora era concreto, tangível, e assustador.

As teclas de Big Boy quebraram o silêncio, emitindo um som rítmico que parecia acompanhar a tensão crescente.

— Aí está. — Anunciou, girando a cadeira em direção aos outros. — Senhoras e senhores, bem-vindos ao inferno.

O monitor principal exibiu a planta subterrânea da base do Projeto Death Star, ancorada sob o Aeroporto de Confins. Linhas azuis delineavam túneis labirínticos, áreas de acesso restrito, laboratórios de pesquisa e plataformas subterrâneas. No centro, um hangar enorme identificado com o código “B7-ALPHA”.

— Eles realmente construíram isso… — Murmurou Gael, a voz baixa e grave, como se a magnitude da descoberta quase o esmagasse.

— Parece coisa de filme. — Pontuou Marco, aproximando-se da tela. — Mas… é real.

— Totalmente. — Completou Big Boy, com o olhar atento, quase orgulhoso. — E não é só isso.

Ele abriu outro arquivo, revelando imagens técnicas e renderizações em 3D. Duas aeronaves se destacavam: uma preta e afilada, lembrando um predador noturno, e outra com pintura camuflada, robusta, com asas largas e motores basculantes.

— O primeiro é o Night Fury. É um Boeing 767 modificado — Explicou Big Boy, apontando os detalhes na tela. — Estrutura reforçada, fuselagem revestida com material stealth que absorve e reflete ondas de radar, motores mais potentes e canhões laser em pods sob as asas e no nariz.

— E o outro? — Perguntou Marco, a voz carregada de curiosidade contida.

— Esse é o Prima. — Continuou Big Boy, com fascínio. — Baseado num Embraer C-390, mas com asas largas e motores basculantes. Ele carrega radares potentes para servir de apoio para o Night Fury. Esses motores basculantes servem para pousar e decolar verticalmente e o permitem pairar no ar, como um helicóptero.

Nicolas engoliu em seco, o coração apertando-se no peito. Reconheceu o Prima. Era o avião que havia destruído a mansão de seu pai. Um frio percorreu sua espinha, misturado a um cansaço profundo que lhe pesava os músculos.

— Esse… — Disse em voz baixa, quase um sussurro, apontando para a tela — …é o avião que destruiu a minha casa.

O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Marco suspirou, e Big Boy e Gael trocaram olhares rápidos, silenciosos, carregados de compreensão. Nicolas sentiu o mundo se fechar por alguns segundos, como se aquela revelação tivesse isolado o tempo ao redor deles.

— Então é isso… — Murmurou Gael, finalmente quebrando o silêncio. — Eles estão usando tecnologia de ponta para caçar o que não entendem.

Gael continuou a explorar os arquivos e encontrou um cartão magnético, preto, com o brasão da Força Aérea e uma sequência de números gravada a laser.

— Isso… — Disse ele, segurando o cartão à luz — …é uma credencial. Leonel conseguiu acesso físico à base.

Big Boy levantou os olhos, ciente da importância do objeto.

— Isso pode ser nossa entrada.

— Nossa chance. — Completou Gael, a excitação evidente no olhar.

Marco cruzou os braços, a expressão fechada.

— Chance de morrer, você quer dizer.

— De descobrir a verdade — Rebateu Gael, firme.

— E depois? — Marco insistiu, controlando o tom, mas sem agressividade. — Mesmo que a gente entre, o que exatamente você acha que vai acontecer?

Gael respirou fundo, o peito subindo e descendo com lentidão.

— Não sei. Ainda. — Admitiu, olhando para Big Boy. — Mas é a primeira vez que temos algo tangível. Algo real.

O clima no ambiente era uma mistura de expectativa, medo e uma estranha sensação de poder recém-descoberto. Nicolas, quieto, observava, ainda tentando digerir o turbilhão de acontecimentos que o levara até aquele ponto: a morte do pai, a fuga, a destruição, e agora, a oportunidade de confrontar o que parecia impossível.

Após algum tempo, Gael comentou:

— Não vou conseguir dormir hoje.

Big Boy apenas sorriu levemente, sem olhar para ele.

— Eu nunca durmo mesmo. — Disse, voltando a digitar linhas de código que piscavam na tela.

Marco, finalmente, se levantou, o corpo pesado, cansado de tanta tensão.

— Vou tomar um banho e tentar descansar um pouco — Murmurou.

— Faz bem — Respondeu Gael, sem tirar os olhos dos papéis. — Amanhã decidimos os próximos passos.

Nicolas permaneceu em silêncio. Levantou-se, sentindo o corpo carregar o cansaço e a adrenalina acumulada. No quarto de hóspedes, trancou a porta, tirou a roupa e se deitou, o colchão com cheiro de madeira e sabão oferecendo uma sensação de refúgio temporário.

O silêncio preenchia o quarto, quase sólido, mas não opressor. Nicolas olhou para o teto por longos minutos, sem pensamento concreto. O som da chuva, constante, parecia acompanhar sua respiração. Cada trovão distante ou gota batendo na janela reforçava o ritmo irregular de seus pensamentos e emoções.

O dia que se iniciava lá fora parecia não pertencer a ele ainda. Dentro, o coração acelerava ao lembrar de Marco — o toque firme, a voz grave, a presença que agora lhe parecia impossível de ignorar. Nicolas respirou fundo, fechou os olhos e se questionou pela primeira vez: o que exatamente eu sinto por ele?

O cansaço físico e mental se misturava a uma curiosidade perigosa. Era algo novo, confuso e irresistível.

No silêncio do quarto, a chuva parecia ganhar uma vida própria. As gotas batiam no telhado com intensidade variável — ora rápidas, ora preguiçosas — como se respondessem ao fluxo turbulento dos pensamentos de Nicolas. Ele se virou de lado, puxando o lençol até o peito. O tecido era frio, contrastando com o calor que pulsava de dentro de seu corpo.

Fechou os olhos, mas as imagens insistiam em aparecer, como projeções involuntárias numa parede interna da memória. O Prima pairando sobre a mansão. A explosão. A cortina de fumaça engolindo tudo. O brilho do fogo refletido na sua pele. E, entre tudo isso, como um graveto em chamas lançado no meio de destroços, o rosto de Marco.

A primeira vez que o viu naquela noite. O jeito como Marco o segurou pelos ombros quando ele desabou. O toque firme, seguro, quase desesperado. Como se estivesse segurando algo que temia perder.

Nicolas apertou a mão contra o peito, tentando desacelerar o próprio coração, mas o corpo insistia em reagir como se Marco estivesse ali, naquele exato momento, ao alcance da mão.

Era ridículo. Era inoportuno. E era inevitável.

Nicolas respirou fundo, mas o ar entrou quente demais, e ele soltou um suspiro trêmulo. A lembrança do toque de Marco em sua pele — breve, necessário, profissional… mas também carregado de algo não nomeado — o fazia estremecer.

O modo como Marco o olhava. Sempre atento. Sempre avaliando. Sempre presente.

Havia algo naquele olhar que estava quebrando as defesas de Nicolas sem esforço — uma combinação de força e vulnerabilidade que era, ao mesmo tempo, assustadora e impossível de ignorar.

Ele tentou desviar a mente, mas não conseguia.

As conversas no carro. A forma como às vezes Marco hesitava antes de falar. O silêncio confortável. A tensão tênue quando suas mãos se tocavam por acaso.

E a frase que ainda ecoava, como martelo batendo devagar:Você não está sozinho.

Por algum motivo, aquelas palavras o haviam desarmado mais do que todas as explosões, tiros e revelações desde a morte do pai. Nicolas abriu os olhos e encarou o teto, a luz trêmula do abajur desenhando sombras que se moviam em ondas hipnóticas. Era como se o mundo inteiro dançasse ao ritmo de sua respiração confusa.

Por que Marco tinha dito aquilo daquele jeito? Por que a voz dele soou tão baixa, tão grave, tão perto? Por que aquilo mexia tanto com ele agora?

A chuva engrossou, e por um instante parecia que o barulho tomava conta do quarto, abafando tudo. Os pensamentos de Nicolas se entrelaçavam, formando um nó difícil de desfazer. Ele podia sentir a pulsação nos dedos, no pescoço, no peito — como se o próprio corpo estivesse tentando lhe contar algo que ele ainda não tinha coragem de admitir.Ele fechou os olhos de novo e passou a mão sobre o rosto, tentando afastar a confusão. Mas o que veio foi pior: uma lembrança tão clara que parecia tátil.

Marco se inclinando sobre ele, aquela expressão séria e intensa. A proximidade. O cheiro da pele. O calor do corpo. A respiração sutil batendo contra seu rosto.

Nicolas virou o rosto para o lado, tentando fugir da própria memória, mas a lembrança veio com mais força. E então, como se o ambiente participasse de sua inquietação, uma rajada de vento atravessou a janela entreaberta, fazendo as cortinas inflarem para dentro do quarto. O tecido balançou como se respirasse, acompanhando o ritmo acelerado do peito de Nicolas.

Ele prendeu o ar.

As cortinas avançaram, recuaram, avançaram de novo.

O abajur oscilou.

A sombra de um galho lá fora projetou-se na parede, movendo-se como uma mão paciente.

Por um instante, Nicolas teve a sensação perturbadora de que o quarto inteiro reagia a ele — às suas emoções, ao seu calor, ao seu desejo não dito. Seu corpo respondeu antes do pensamento, e ele sentiu a confusão se transformar em algo mais quente, mais perigoso, mais íntimo. Sua cueca foi ficando apertada, e sua mão desceu automaticamente até lá. E aquilo o assustou.

Porque não era só físico. Não era só carência. Não era só o caos dos últimos dias.

Era Marco. E isso complicava tudo.

Nicolas respirou fundo, tentando recuperar o controle. Puxou o lençol até o peito e virou-se de bruços, pressionando o rosto contra o travesseiro. O tecido tinha cheiro de madeira e sabão — o cheiro de um lugar que deveria ser seguro, isolado, longe do mundo. Mas seu corpo não acompanhava essa sensação de segurança. A mão insistia em ficar dentro da cueca, e a mente insistia em voltar para Marco.

Seus olhos. Sua postura defensiva. A forma como ele segurava o volante com força quando estava preocupado. A forma como relaxava os ombros quando olhava para Nicolas.

Nenhuma daquelas coisas fazia sentido naquele contexto absurdo: uma base militar secreta, aviões clandestinos, tecnologia impossível, perseguições, explosões. Mas, paradoxalmente, Marco era a única coisa que fazia sentido no meio do caos.

Nicolas inspirou devagar e sentiu o ar atravessar o peito com certo alívio. O corpo começou a relaxar, como se finalmente aceitasse o cansaço acumulado. A chuva lá fora diminuiu, o vento acalmou, e o quarto pareceu voltar ao seu estado normal — silencioso, frio, quase confortável.

Ele virou-se de costas e encarou o teto uma última vez.

E então, a pergunta veio.

Simples. Silenciosa. Inescapável.

Estou… sentindo algo pelo Marco?