Conte as Estrelas
15 Capítulo 13
A estrada que levava à propriedade era tão estreita que parecia se encolher à medida que o Corolla avançava. Eucaliptos altos margeavam o caminho, encharcados pela chuva da madrugada, exalando um cheiro fresco que se misturava ao ar frio que penetrava pelas frestas da janela. A neblina envolvia tudo como um véu espesso, abafando sons, memórias, pensamentos. Era como dirigir por dentro de um sonho — ou de um luto.
Nicolas observava a curva se abrir lentamente, a cada metro revelando mais daquela encosta úmida, até que o portão de ferro surgiu sob a luz pálida do entardecer. O brasão “LMG” ainda estava ali. Não corroído, não apagado. Estava inteiro, firme, arrogante na sua perfeição.
Leonel Machado Galvão.
As iniciais eram como cicatrizes: antigas, profundas e sempre à mostra.
O carro parou. Marco desligou o motor. O silêncio que se seguiu parecia mais denso do que a neblina.
Nenhum canto de pássaros. Nenhuma folha balançando. Apenas o tique-taque discreto do motor esfriando e o gotejar lento da água escorrendo pelas calhas da propriedade. Um som distante, tardio, como se o mundo ali respirasse atrasado. Nicolas inspirou profundamente, sentindo o ar entrar pesado. Era estranho estar ali — e, ao mesmo tempo, parecia inevitável.
O portão abriu-se sem resistência, como se os anos não tivessem passado. Como se alguém tivesse lubrificado as dobradiças naquela manhã. Do outro lado, uma alameda perfeita de paralelepípedos se estendia até um galpão moderno, de fachada envidraçada e metal polido. Nada de teias de aranha, nada de sujeira acumulada, nada de abandono.
Era um lugar que ainda vivia. Ou que se recusava a morrer.
Marco olhou ao redor, desconfiado, franzindo levemente a testa.
— Eu esperava algo... diferente — Murmurou, baixando o tom, como se tivesse receio de perturbar a quietude.
— Abandonado? — Nicolas completou.
Marco assentiu com um olhar rápido.
— Acho que sim.
Nicolas deu um sorriso curto, sem alegria.
— Meu pai não abandonava nada. Só pessoas.
A frase caiu entre eles com o peso de algo que não se diz em voz alta, mas que, dito, parecia tão verdadeiro quanto o cheiro úmido da chuva.
O interior do galpão era ainda mais frio na sua perfeição. O chão de cimento polido refletia como um espelho lascas do teto de aço e das lâmpadas brancas. Cada carro — e eram muitos — estava alinhado com precisão matemática. Lonas limpas, etiquetas plastificadas com datas de revisão, pneus calibrados, superfícies brilhantes mesmo sob o tecido.
Tão bem cuidados quanto um filho poderia ser. E Nicolas sentiu a pontada da ironia.
As ferramentas pendiam organizadas em painéis metálicos, ordenadas por tamanho, função e cor. Não havia cheiro de gasolina nem de graxa — só o perfume estéril de limpeza profunda e cera automotiva.
Um templo.
Sim, não era uma garagem. Era um templo onde tudo tinha lugar — exceto o afeto.
Nicolas avançou alguns passos. Seus próprios passos ecoaram de forma quase desrespeitosa naquele ambiente tão controlado. A luz branca refletiu em seu rosto pálido. Ele parou no centro, absorvendo o cenário como quem olha para o passado através de um vidro grosso e impossível de quebrar.
— É assim que eu me lembro dele. — Disse, sem encarar Marco. — Tudo no lugar, tudo limpo, tudo perfeito. Menos ele.
Marco não respondeu. Apenas o observou. Era um silêncio que não julgava, mas que também não oferecia respostas.
Nicolas respirou fundo, sentindo o ar entrar pesado no peito.
— Marco... — Começou, hesitando. — É errado eu perceber que... que eu não tô tão triste?
Marco franziu o cenho.
— Como assim?
— Eu sei que devia estar de luto. — Nicolas engoliu em seco. — Mas o que eu sinto não é dor. Não é saudade. É... melancolia. Não pelo que foi, mas pelo que nunca vai ser. Eu continuo imaginando uma vida com ele. Uma vida que... nunca vai acontecer. E agora eu sei que acabou de vez. Nunca mais vou saber se ele... — Sua voz se quebrou — Se ele algum dia me amou.
O silêncio se instalou como uma sombra espessa.
Marco demorou alguns segundos para encontrar palavras — e quando encontrou, elas vieram baixas, cheias de cuidado.
— Eu... não sei se é errado. — Ele deu um passo mais perto. — Não existe um roteiro pra isso. Ninguém diz o que cada pessoa deve sentir quando perde alguém. Ninguém tem um manual pra viver o próprio luto. Então... não cabe a mim dizer o que você deveria sentir.
Nicolas abaixou o olhar.
— Mas me incomoda. — Sussurrou. — Porque agora tudo acabou. E eu nunca vou saber. Nunca.
Marco respirou fundo. O peito dele subia e descia num ritmo lento, medido. Como se pensasse cada movimento.Depois, sem aviso, ele deu um passo adiante.
Depois outro.
Chegou perto o suficiente para Nicolas sentir seu perfume discreto — algo entre sabonete, chuva e vontade de ficar.
E então disse, muito baixo, quase um segredo:
— Você não está sozinho.
A frase ficou no ar, quente e íntima demais, como se tivesse ultrapassado uma fronteira invisível. Marco percebeu tarde demais o peso do que dissera. Piscou, recuou meio passo, tentando recompor o tom.
— Quero dizer... você tem gente por perto. Eu tô aqui. Pro que precisar.
Nicolas o encarou por um instante longo, longo demais para ser casual. Havia algo ali entre eles — algo que parecia nascer no silêncio, no não dito. Algo que trazia conforto e perigo ao mesmo tempo.
Nicolas engoliu em seco, desviando o olhar para respirar.
— Eu vou... procurar os armários — Murmurou, quase tropeçando nas palavras. — Devem estar lá no fundo.
— Certo — Marco respondeu, a voz também rouca demais para ser neutra. — Eu vejo os carros.
Nicolas seguiu para o fundo do galpão enquanto Marco caminhava pela fileira de veículos. Passou por modelos nacionais raríssimos — Opala SS, Willys Interlagos, Lobini H1, Miura Saga, MP Lafer, um belíssimo Bianco S 1600 — e então parou diante de um Fiat Coupé azul.
Não tocou.
Apenas ficou ali, parado, olhando para o carro como quem encara uma memória antiga.
De onde estava, Nicolas percebeu o silêncio diferente. Mais denso.
— O que foi? — Perguntou.
Marco sorriu sem realmente sorrir, como alguém que revê uma fotografia antiga da própria vida.
— Quando eu era moleque... — Começou — Eu sonhava em dirigir um carro como esse. Pelas estradas do litoral. Com a janela aberta, o mar ali do lado... e nada pra me prender. Nem gente. Nem problema. Nem medo.
Nicolas observou o perfil dele, tão calmo e tão triste ao mesmo tempo.
— E por que você não fez isso?
Marco demorou alguns segundos para responder. Seus dedos tocaram o capô do Coupé, deslizando pela curva impecável como se tocasse uma lembrança.
— A vida... não foi por esse caminho — Disse enfim, com um riso curto, sem alegria. — Eu fui expulso de casa quando era adolescente.
Nicolas sentiu algo apertar dentro do peito.
— Expulso?
Marco assentiu.
— Não tinha pra onde ir. Não tinha dinheiro. Não tinha ninguém. Então... me alistei no Exército. Era o único lugar onde eu ia ter cama, comida e... um motivo pra levantar de manhã.
Nicolas ficou em silêncio. Não sabia o que dizer. Aquela revelação parecia arrancar camadas de Marco que ele jamais imaginara poder ver.
— Foi por isso que você virou agente? — Perguntou baixinho.
Marco soltou um riso esvaziado.
— Não. — Ele encarou o carro de novo. — Foi por isso que eu parei de sonhar.
As palavras ecoaram como um estalo dentro do galpão.
Nicolas abaixou o olhar, sentindo um peso que não era só o da história de Marco — era algo compartilhado, quase espelhado. Ele também parara de sonhar cedo demais.
Por alguns segundos, ficaram apenas o som distante da chuva e o silêncio entre eles.
Nicolas respirou fundo e se afastou.
— Eu… vou ver os armários. — Repetiu, quebrando a tensão com cuidado. — Talvez eu encontre alguma coisa que faça sentido.
Marco assentiu, ainda olhando para o Fiat Coupé, como se estivesse despedindo-se de uma parte de si.
Nicolas voltou para o fundo do galpão. Abriu o primeiro armário: ferramentas esterilizadas, alinhadas por tamanho. O segundo: produtos de limpeza embalados a vácuo. O terceiro: manuais encadernados com o logotipo da construtora.
Tudo limpo. Tudo organizado. Tudo vazio.
Até que, no canto mais distante, encontrou um armário maior, robusto, com portas reforçadas.
Tentou abrir.
Trancado.
— Marco! — Chamou.
Os passos do agente ecoaram pelo galpão.
— Achou alguma coisa?
— Esse armário. Tá trancado.
Marco se agachou, examinou o cadeado.
— Novo. E reforçado.
— Tem alguma ferramenta?
Marco encontrou uma caixa organizada com precisão quase cirúrgica. Tirou uma chave de fenda brilhante e, com calma, forçou o trinco. O estalo seco rompeu o silêncio como um tiro.
Os dois ficaram parados, atentos. Nada além do zumbido do ar-condicionado e do tamborilar da chuva nos vidros. Marco abriu o armário, e ali estavam: pastas pretas, pen drives lacrados, CDs etiquetados com siglas e selos oficiais. Tudo organizado com a mesma devoção que Leonel dedicara aos carros.
— “Projeto DS-77”... “Infraestrutura de Base Subterrânea — Confins” — Nicolas leu, a voz baixa, mas trêmula. — É isso. É isso que o Gael estava procurando.
Marco pegou outra pasta.
— “Desenvolvimento de Armas Sub-orbitais — Versão 3.” — Ele olhou para Nicolas, sério. — Seu pai guardava isso como se fosse ouro.
Nicolas deslizou os dedos pelas etiquetas.
— Ele nunca me deu nada — Murmurou. — Nem um abraço. Mas guardou isso como se fosse tesouro.
Marco suspirou.
— Talvez ele achasse que estava protegendo você.
Nicolas ergueu os olhos.
— Ou o contrário. Talvez estivesse me protegendo dele mesmo.
Marco não respondeu. Às vezes, silêncio era a forma mais honesta de estar ao lado de alguém.
Os dois recolheram o material e guardaram tudo na mochila e então saíram.
Quando atravessaram novamente o galpão, o ar lá dentro parecia ainda mais frio. As luzes refletiam no chão polido como lâminas brancas, indiferentes ao que haviam encontrado. Do lado de fora, a chuva fina continuava a cair, formando pequenos veios de água que corriam pelo asfalto e pelas folhas do jardim.
Era estranho pensar que aquele lugar — tão organizado, tão silencioso, tão metódico — guardava, ao mesmo tempo, os maiores segredos da vida de Leonel e os maiores vazios da vida de Nicolas.
Quando alcançaram a porta de vidro, Nicolas olhou uma última vez para dentro do galpão. As lonas cobrindo os carros pareciam vultos imóveis, sombras congeladas no tempo. Tudo ali estava perfeitamente mantido.
Como sempre. Como Leonel sempre quis. Mas ele não estava mais ali.
Do lado de fora, o jardim parecia recém-podado, mesmo sob a chuva leve. Refletores automáticos se acenderam quando eles pisaram na alameda, derramando luz branca sobre a grama curta e o cascalho molhado. O cheiro de terra úmida subia do chão, misturado ao perfume metálico do início da noite.
Marco abriu o porta-malas do Corolla e colocou a mochila com extremo cuidado, como se estivesse lidando com algo vivo. Nicolas permaneceu parado no meio da alameda, olhando a fachada envidraçada da casa principal. As cortinas estavam alinhadas. Os vidros, sem uma única marca. Tudo impecavelmente organizado. Como se Leonel fosse voltar a qualquer momento, passar a mão pela superfície das mesas, corrigir um quadro torto, reclamar de alguma poeira invisível.
Mas não voltaria.
— Ele cuidava de tudo — Murmurou Nicolas, quase sem voz. — Tudo, menos de mim.
Marco se virou para ele, mas não respondeu. O olhar dele dizia mais do que qualquer frase: eu ouvi, eu entendo, eu estou aqui. E isso, de algum modo, era suficiente.
Entraram no carro em silêncio. O motor ligou com um ronco baixo e constante, como um sopro que devolvia vida ao ambiente. As gotas de chuva batiam no para-brisa com um ritmo irregular, como se marcassem o tempo de uma música triste.
A estrada começou a se abrir à frente, estreita, úmida, coberta por névoa baixa. As luzes automáticas da propriedade foram desaparecendo pelo retrovisor, até que restou apenas escuridão, salvo pelo brilho tímido dos faróis.
Nicolas recostou lentamente na poltrona, observando as sombras da mata passarem como fantasmas pela janela. A mente dele fervilhava com lembranças, perguntas, pedaços de coisas que não voltariam jamais.
Por alguns minutos, nenhum dos dois falou. Era um silêncio pesado?
Não.
Era um silêncio cheio. Denso. Quente. Um silêncio que dizia mais do que palavras dariam conta.
Então Nicolas, ainda olhando para fora, quebrou o silêncio com um sussurro que parecia emergir do fundo do peito:
— Quando tudo isso acabar… você devia fazer aquela viagem.
Marco piscou, sem entender de imediato.
— Que viagem?
Nicolas virou o rosto para ele, e havia um sorriso leve — discreto, quase tímido — mas genuíno.
— Aquela do litoral. — Disse com suavidade. — No seu carro esportivo. Com o mar do lado. Sem ter ninguém te dizendo o que fazer ou pra onde ir. Só você… e a estrada.
Marco soltou um riso silencioso, quase um sopro, e sacudiu a cabeça de leve.
— É… talvez.
— Eu te imagino dirigindo — Continuou Nicolas, baixinho. — Com o vento cortando o rosto, e você finalmente… livre. Pela primeira vez.
As palavras ficaram no ar como algo proibido, mas necessário. Marco o encarou por um momento — um momento que durou mais do que deveria.
No reflexo da estrada molhada, os olhos dos dois se encontraram. E não recuaram.
Havia algo ali, nas entrelinhas, pulsando. Algo que nenhum dos dois nomeava, mas ambos sentiam.
Marco voltou a olhar para frente, respirando fundo, como se precisasse se recompor.
— Quem sabe um dia — Murmurou, com a voz rouca.
O Corolla seguiu adiante, cortando a chuva suave que voltava a cair. A neblina parecia se abrir ao redor deles como cortinas que recuavam para deixar a estrada livre.
Ao longe, as luzes de Nova Lima surgiam pouco a pouco. Primeiro borradas, tremeluzentes, depois mais nítidas. Um mosaico úmido de dourados e brancos refletindo no asfalto encharcado.
Dentro do carro, o silêncio voltou — mas não era o mesmo silêncio de antes. Não era o silêncio pesado da propriedade, nem o silêncio desconfortável de segredos.
Era um silêncio novo. Um silêncio que confortava. Um silêncio que aproximava.
E, de alguma forma que os dois ainda não compreendiam, também era um silêncio perigoso. Porque parecia carregar promessas. Parecia carregar o início de algo que nenhum dos dois sabia nomear.
Mas sentiam. E sentiam forte.
Nicolas fechou os olhos por um instante, respirando devagar, permitindo que o som dos pneus na pista molhada fosse se misturando aos seus pensamentos. Havia dor, havia alívio, havia medo — mas, acima de tudo, havia presença.
A presença de Marco ao lado dele. Constante. Silenciosa.
E, pela primeira vez em muito tempo, suficiente.
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