Conte as Estrelas
14 Capítulo 12
Dentro da casa, o ar era morno e abafado, carregado pelo cheiro de café requentado e fumaça de cigarro que parecia ter se infiltrado nas paredes com o tempo. As lâmpadas amarelas lançavam uma luz cansada sobre o chão de tábuas escuras, e o som distante da chuva contra o telhado ecoava como um respiro constante, ritmado. Big Boy olhou para os dois homens encharcados e bufou, sem levantar totalmente o olhar do jornal dobrado à sua frente.
— Trouxeram a chuva junto, foi? — Resmungou, a voz rouca, sem hostilidade.
Gael não respondeu de imediato. Apenas se moveu com a calma de quem já estava acostumado àquela casa — pegou duas toalhas de uma pilha sobre o sofá e as entregou aos recém-chegados. O som dos tecidos úmidos sendo esfregados quebrou o silêncio por um instante, misturando-se ao gotejar de água que escorria das roupas e formava pequenas poças junto à porta.
Nicolas mal conseguia sustentar o olhar; os olhos ardiam e o peso da fadiga o esmagava. O corpo parecia ter esquecido o próprio eixo. Marco, ao lado, mantinha-se em pé por pura disciplina, os ombros tensos e o maxilar travado.
— Tem quartos sobrando — Anunciou Gael, a voz rouca pelo cigarro. — Usem o que quiserem. Amanhã a gente pensa no que fazer.
Marco assentiu em silêncio, e Nicolas apenas repetiu o gesto, com um leve movimento de cabeça.
Enquanto seguiam pelo corredor estreito, cruzaram olhares rápidos — um lampejo de compreensão muda, uma trégua silenciosa entre o alívio e o esgotamento. As paredes, cobertas por fotografias antigas e recortes de jornal, pareciam observar a passagem dos dois, guardando segredos em cada moldura.
Nos quartos, o ar tinha cheiro de madeira antiga e poeira. O colchão afundou sob o corpo de Nicolas como se o puxasse para dentro da terra. O som distante dos ventiladores dos servidores ecoava da sala ao lado, um ronco constante, quase hipnótico, que parecia embalar o espaço em um estado de vigília adormecida.
Nicolas se deixou cair sobre a cama. A textura áspera do lençol, o murmúrio metálico da chuva, o som abafado de passos distantes — tudo se misturava num torpor morno. Ele pensou em Marco, na forma como o vira sob a chuva, a silhueta firme contrastando com a tempestade. Pensou em como, por um instante, sentira-se protegido, mesmo sem saber o motivo. Quis entender aquele impulso, aquele aperto no peito, mas o sono veio rápido, pesado, arrastando cada pensamento para o fundo escuro de um poço silencioso.
Do outro lado da parede, Marco demorou mais a dormir. Sentado à beira da cama, observava a água escorrendo pela janela em filetes tortos. A imagem de Nicolas, encharcado, vulnerável, os olhos fundos e a respiração curta, voltava em ciclos insistentes. Algo naquele garoto o inquietava profundamente — talvez a forma como tentava parecer inteiro quando já estava quebrado. Quando finalmente adormeceu, o relógio marcava quase seis da manhã, e o sol começava a insinuar-se pelas frestas das janelas altas.
O amanhecer dissolveu a penumbra com uma lentidão suave. O silêncio da casa foi sendo preenchido pelo zunido das máquinas e o estalar das madeiras.
Era meio-dia quando Marco abriu os olhos, desorientado, com a sensação de ter dormido por anos. O corpo doía, os músculos rígidos e a cabeça latejava como se ainda ecoasse o som da chuva. Ele se levantou devagar, lavou o rosto na pia estreita e seguiu o som abafado que vinha da sala principal.
Gael e Big Boy estavam diante de uma parede coberta por telas e cabos. O ar vibrava com o calor dos equipamentos; a luz azulada dos monitores lançava sombras móveis nas paredes. Em uma das telas, imagens granuladas mostravam o céu noturno — pontos luminosos que se moviam em zigue-zague sobre uma faixa azul-escura.
Big Boy mastigava um sanduíche frio enquanto digitava com rapidez mecânica.
— Isso é o quê? — Perguntou Marco, aproximando-se.
— Relato de avistamento — Respondeu Big Boy, sem desviar o olhar. — A tripulação de um voo da Azul registrou algo. Região de Sete Lagoas.
— Pode ser outro drone? — Questionou Gael, acendendo um cigarro.
— Se fosse drone, o radar não teria captado. Mas o controle aéreo registrou o objeto.
Marco cruzou os braços, o olhar cético.
— E vocês acham que é o quê, então?
Gael soltou uma risada breve, sem humor.
— Não é questão de achar. É questão de investigar.
Big Boy virou-se meio de lado, com um sorriso cansado.
— Aposto um café que o governo já apagou o relatório original. Se sobrou alguma imagem, é porque alguém dormiu no plantão.
Marco balançou a cabeça, incrédulo, mas não perguntou mais nada. Sentou-se numa cadeira de ferro, observando as linhas de código que corriam nas telas e os ruídos secos de dados sendo baixados.
O tempo parecia suspenso dentro daquela sala. A tarde avançava, e o ar se tornava mais pesado, saturado de fumaça e eletricidade. Marco quebrou o silêncio com voz baixa:
— Vocês têm alguma ideia do que fazer agora?
— Ainda não — Respondeu Gael, tragando devagar. — Leonel ia me entregar documentos com mais detalhes sobre o projeto, mas... — Soltou a fumaça num longo suspiro — não deu tempo.
— Documentos? Que tipo? — Marco se inclinou à frente.
— Projetos, nomes, talvez provas sobre as armas que estavam desenvolvendo.
— E você não sabe onde ele escondeu isso?
— Só o que ele me disse antes de morrer. — A voz de Gael saiu rouca. — Que estava tudo guardado em sua “coleção”.
Big Boy se virou, arqueando uma sobrancelha.
— Coleção de quê?
— Não faço ideia. — O jornalista passou a mão pela têmpora, exausto. — Leonel era reservado demais.
Marco coçou o queixo, pensativo, o olhar perdido no chão.
— Se a gente soubesse o que ele quis dizer com isso, podia ser um bom ponto de partida.
O silêncio se instalou, pesado e frustrante. O som dos ventiladores voltou a dominar o espaço. Foi então que uma voz suave veio da porta, cortando a monotonia:
— Eu acho que sei o que ele quis dizer.
Todos se viraram. Nicolas estava encostado no batente com os braços cruzados, os cabelos ainda úmidos e os olhos fundos, como se tivesse dormido pouco. O rosto pálido denunciava a noite mal dormida, mas havia determinação no seu olhar.
Marco endireitou-se.
— O que você quer dizer com isso?
Nicolas entrou na sala, as mãos nos bolsos.
— “Coleção”. Meu pai tinha uma. Uma coleção de carros antigos. Ficava numa propriedade em Nova Lima. Ele mantinha aquilo em segredo até mesmo dos funcionários da construtora.
Gael e Big Boy trocaram um olhar.
— Uma garagem particular? — Perguntou o jornalista.
— Mais do que isso — respondeu Nicolas. — Era o refúgio dele. Um das poucas coisas que pareciam fazer ele se sentir humano.
Marco franziu o cenho.
— Nunca ouvi falar disso.
— Ninguém ouviu. Era o segredo dele.
Gael apagou o cigarro num cinzeiro transbordando e se levantou.
— Faz sentido. Se ele tinha algo a esconder, guardaria num lugar assim. Discreto, pessoal, fora do alcance de curiosos.
Marco olhou para o jornalista, que sustentou o olhar com firmeza.
— Então a gente já tem por onde começar.
Gael assentiu.
— Concordo. Talvez seja a única pista real que temos.
Marco inspirou fundo, o olhar distante.
— Eu posso ir.
Nicolas cruzou os braços.
— Eu vou junto.
— Nem pensar — Respondeu Marco de imediato. — Você já passou por coisa demais.
— E você acha que vai encontrar alguma coisa lá sem mim? — A voz de Nicolas agora era firme, quase desafiadora. — Eu conheço o terreno, o galpão, cada sala daquele lugar. E com todo o respeito, Marco, não cabe a você decidir o que eu faço.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Big Boy, sem tirar os olhos da tela, murmurou:
— O garoto tem razão. Se ele sabe onde procurar, economizamos tempo e evitamos exposição.
Gael assentiu.
— Concordo. Vamos precisar dele.
Marco manteve-se calado por alguns segundos, o olhar fixo em Nicolas. Havia dureza em sua expressão, mas também algo mais contido — uma preocupação que não cabia em palavras. Finalmente, respirou fundo e cedeu:
— Tá bom. Mas a gente vai fazer do meu jeito.
Nicolas não respondeu, apenas sustentou o olhar. Por um instante, o ar entre eles pareceu vibrar — tudo estava dito, mesmo no silêncio.
Do lado de fora, a chuva voltou a cair, fina, insistente, riscando as vidraças como fios prateados. O som da água nos telhados e do vento nas árvores formava uma melodia lenta e hipnótica, como se o mundo tivesse desacelerado para ouvir o que viria a seguir.
Gael puxou uma cadeira e se sentou diante de um mapa aberto sobre a mesa. As bordas do papel estavam marcadas por dobras antigas, e o cinzeiro ao lado já acumulava uma pequena colina de pontas de cigarro. Big Boy inclinava-se sobre o teclado, os olhos fixos em linhas de código que corriam como formigas elétricas. O barulho do teclado se misturava ao zumbido baixo dos computadores, criando uma sinfonia mecânica que preenchia a casa.
Nicolas observava tudo em silêncio, os braços cruzados, ainda se adaptando àquela rotina caótica. Marco permanecia de pé ao lado da janela, o corpo tenso, como se todo o peso da responsabilidade se acumulasse em seus ombros. Observava a chuva que caía lá fora, cada gota refletindo os tons amarelados da iluminação interna. O som das águas correndo pelas calhas tinha um ritmo próprio, constante, que acentuava o silêncio entre as falas.
— A propriedade em Nova Lima — Começou Gael, traçando uma linha sobre o mapa com a ponta do lápis — fica numa área alta, certo?
— Sim — Confirmou Nicolas, aproximando-se. — Fica dentro de um condomínio fechado, próximo a uma reserva ambiental. Meu pai sempre dizia que era “o melhor lugar do mundo para se esconder de quem quer te ver”.
Big Boy soltou um resmungo breve, sem tirar os olhos da tela.
— Que poético — Murmurou.
Marco se aproximou da mesa, apoiando as mãos sobre o tampo de madeira gasta.
— A gente não sabe o que pode ter lá — Disse. — Pode estar sendo monitorado, assim como a mansão. Ou pior.
Gael assentiu, tragando o cigarro até o filtro.
— Isso é um ponto — Emendou, soltando a fumaça lentamente. — Mas se existe alguma chance de encontrarmos os documentos, precisamos arriscar.
O silêncio caiu novamente, denso e calculado. Cada um parecia pesar os riscos em silêncio, como se houvesse uma linha invisível entre a coragem e a prudência. Do lado de fora, o vento balançava os galhos das árvores, e o som ritmado da chuva criava um pano de fundo quase meditativo. A casa respirava junto com eles.
— E quando nós vamos? — perguntou Nicolas, quebrando o silêncio.
— Assim que o tempo melhorar — Respondeu Marco de bate pronto.
— E quando vocês descansarem de verdade. — Gael complementou.
Marco desviou o olhar para Nicolas. Pela primeira vez, percebeu o quanto o rapaz parecia exausto. As olheiras fundas escureciam o rosto pálido, e a tensão nos ombros denunciava noites mal dormidas e pensamentos demais.
Ele se aproximou, a voz mais branda.
— Você devia tentar comer alguma coisa.
— Não tô com fome. — Nicolas respondeu rápido, o olhar fixo em um ponto no chão.
— Mesmo assim — Insistiu Marco, sem dureza. — Vai precisar de energia.
Nicolas o encarou por um momento, hesitando entre o orgulho e o cansaço, e por fim assentiu com um gesto pequeno.
Enquanto ele se afastava em direção à cozinha, Marco o acompanhou com o olhar. Havia algo inquietante na forma como o garoto se movia — um equilíbrio tenso entre fragilidade e teimosia. Talvez fosse isso que o perturbava tanto: a força contida na tentativa de parecer inteiro, mesmo quando tudo o traía.
A tarde se arrastou lenta, como se o tempo tivesse engrossado dentro das paredes da casa. O som dos teclados, do vento e da chuva compunha uma música monótona. Cada pequeno ruído — o estalar de um cigarro, o clique de uma tecla, o pingar da água do telhado — parecia ecoar mais do que devia.
Nicolas voltou com uma caneca de café nas mãos. O vapor subia preguiçoso, e o cheiro amargo se misturava ao de tabaco queimado. Sentou-se num canto, observando o movimento. Big Boy o cumprimentou com um aceno de cabeça, sem parar de digitar. Gael, por sua vez, afastou-se do mapa e aproximou-se dele.
Apoiou as mãos no encosto da cadeira de Nicolas e o observou por um instante, como quem mede o peso das palavras antes de soltá-las.
— Você parece seu pai, sabe? — Comentou, num tom neutro, quase contemplativo.
Nicolas ergueu o olhar, confuso.
— Eu espero que não.
Gael deu um meio sorriso cansado.
— Não é um insulto. Leonel tinha uma inquietação parecida com a sua. Ele odiava se sentir impotente. E, no fim, foi isso que o matou.
O silêncio que se seguiu foi áspero. Nicolas desviou o olhar para o café, tentando esconder o incômodo. A lembrança do pai ainda era uma ferida aberta, e ouvir aquele nome em voz alta fazia o peito arder.
Marco, observando de longe, percebeu a tensão e interveio:
— Deixa o garoto respirar, Gael.
Gael deu de ombros, apagou o cigarro no cinzeiro e voltou para o mapa. O ar pareceu ficar mais denso por alguns segundos. A chuva batendo nas janelas soava mais alta, quase como um lembrete de que o mundo lá fora continuava.
Nicolas respirou fundo, levantou os olhos e quebrou o silêncio:
— Eu quero ir o quanto antes.
Marco o observou em silêncio antes de perguntar:
— Tem certeza?
— Não dá pra esperar. — A voz de Nicolas tremia levemente, mas havia convicção nela. — Se o meu pai morreu tentando esconder alguma coisa, não quero que morra junto com ele.
As palavras ficaram suspensas no ar por um momento. Marco apenas assentiu, devagar.
— Tudo bem. A gente vai.
Lá fora, o céu escurecia rápido. Quando o relógio marcou quatro da tarde, já parecia noite. O temporal se armava novamente, o vento assobiava pelas frestas, e as árvores gemiam lá fora.
Discretamente, Gael pegou uma pistola pequena de cima de uma prateleira e a entregou a Marco.
— É só por precaução — Disse, sério. — Se for necessário, você sabe usar.
Marco aceitou a arma sem dizer nada, o gesto automático de quem carrega mais responsabilidade do que quer admitir.
Big Boy, ainda debruçado sobre um monitor, falou sem se virar:
— A estrada pra Nova Lima tá limpa. Se forem agora, chegam em menos de uma hora.
Gael assentiu.
— Beleza. Levem o Corolla. Discreto o suficiente.
Marco pegou as chaves sobre o balcão e olhou para Nicolas.
— Pronto?
— Bora. — A voz dele tremia só um pouco, mas o olhar permanecia firme.
Antes de saírem, Big Boy disse sem levantar o rosto da tela:
— Cuidado. Esses caras não brincam.
Gael acrescentou, apagando o último cigarro:
— E lembrem-se: se acharem algo, tragam tudo. Mesmo que não entendam o que é.
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