Conte as Estrelas
24 Capítulo 22
O chão da galley do Night Fury vibrava. Marco se movia rápido, com o coração batendo na garganta. Ele sabia que os guardas já estavam subindo pelas escadas do avião — podia ouvir o som metálico das botas ecoando. Seus olhos percorreram a galley e, por instinto, ele notou algo: uma tampa retangular de metal, com parafusos parcialmente soltos. Um acesso técnico.
Sem pensar duas vezes, ele se ajoelhou e a puxou. A tampa se abriu com um estalo abafado, revelando um compartimento escuro e apertado. Marco enfiou a cabeça, viu o labirinto de cabos e tubos abaixo e desceu. Assim que seus pés tocaram o chão metálico, ele puxou a tampa de volta, fechando-a sobre si.
O ar ali embaixo era quente e cheirava a óleo queimado e poeira metálica. Ele se abaixou e respirou fundo, tentando entender o espaço — um porão de sistemas eletrônicos, cheio de conduítes grossos, válvulas e painéis de manutenção. Os sons externos ecoavam através da fuselagem do avião, vibrando como um trovão distante.
Acima dele, o barulho de vozes. Os guardas forçavam a escotilha. Marco olhou em volta, desesperado por algo que pudesse usar, até que viu um feixe de fios coloridos saindo de um conduíte lateral. Ele os arrancou com força, torcendo-os juntos. Subiu em silêncio sobre uma caixa e passou os fios pelas travas internas da escotilha, amarrando-os com firmeza.
O metal gemeu, mas resistiu. A tampa tremia sob o impacto das botas dos guardas tentando forçá-la. Marco manteve o olhar fixo para cima, sentindo a vibração no teto a poucos centímetros do rosto.
— Merda… — sussurrou entre os dentes.
Precisava seguir em frente. Aquele compartimento era seguro por poucos minutos.
Luz fria piscava por pequenas frestas. Ele caminhou agachado, tropeçando em canos e cabos até encontrar uma pequena porta de acesso, marcada com letras vermelhas: Forward Bay. Forçou a maçaneta. Estava destrancada.
Abriu devagar, deslizando para dentro.
O novo compartimento era maior, e ele percebeu onde estava — acima do alojamento dos trens de pouso principais. Um espaço estreito, mas que lhe dava uma visão limitada do solo através de pequenas frestas na estrutura.
De repente, um ronco profundo ecoou. O som das turbinas ligando de vez.
Marco se ajoelhou, tenso, olhando para o teto. Os motores estavam sendo acionados. O Night Fury ia decolar.
—X—X—X—
Do outro lado da base, Nicolas corria pelos corredores sob as luzes vermelhas piscando. As sirenes martelavam em seus ouvidos. Ele tentava lembrar o caminho de volta — a sequência de portas, corredores, rampas. O coração batia tão forte que doía.
Virando um corredor, ele viu sombras se movendo na parede à frente. Guardas. Vários.
Sem tempo para pensar, abriu a primeira porta que encontrou e entrou, fechando-a atrás de si. O impacto o fez tropeçar, e quando ergueu o olhar, viu um homem uniformizado sentado à mesa, encarando-o com os olhos arregalados. Um guarda.
— Ei! Quem é você? — a voz dele soou alta, carregada de desconfiança.
O tempo parou por um segundo. Nicolas sentiu o sangue gelar. Mas algo dentro dele — talvez o treinamento improvisado com Marco, talvez o puro instinto — reagiu antes da razão.
— O que está acontecendo aqui? — ele retrucou, firme. — Por que os alarmes estão disparados?
O guarda piscou, confuso pela inversão.
— Há… há uma invasão no hangar — respondeu o homem, hesitante. — Estão tentando conter…
— Cygnus já está ciente? — interrompeu Nicolas, pronunciando o nome com a firmeza exata que imaginou que Marco usaria.
O efeito foi imediato. O guarda travou. O nome pareceu pesar no ar.
— Ainda… ainda não, senhor — balbuciou, incerto.
Nicolas deu um passo à frente, deixando a credencial de Leonel pender sobre o bolso, de modo que o homem pudesse ver. O crachá reluziu sob a luz vermelha.
— Então faça seu trabalho — disse ele, em tom impaciente. — Vá ajudar os outros no hangar. Eu aviso Cygnus.
O guarda hesitou, dividido entre a ordem e a dúvida. Então, finalmente, assentiu, recolheu o fuzil e saiu às pressas.
A porta fechou-se atrás dele.
Nicolas encostou-se nela, o corpo tremendo. Um riso nervoso escapou de seus lábios — meio alívio, meio incredulidade. Não podia acreditar que tinha dado certo, mas ele tinha conseguido. Por um momento, pensou em chorar. A pressão, o medo, tudo parecia esmagá-lo. Mas respirou fundo. Não agora.
Seus olhos então caíram sobre algo na mesa do guarda: um computador ligado. Ele se aproximou e olhou a tela. O guarda estava monitorando as câmeras de segurança do hangar. As imagens tremiam com a vibração das turbinas dos aviões.
Nicolas ampliou uma delas e prendeu o fôlego.
O Night Fury estava com os motores ligados, as luzes piscando sob o teto do hangar. Guardas corriam em volta, gritando ordens. Alguns subiam no Prima, tentando ativá-lo também.
Ele praguejou, procurando desesperadamente o rosto de Marco entre a confusão. Nada. Nenhum sinal.
O medo o consumiu por dentro, uma chama fria que subia pelo estômago.
Mas a voz de Marco ecoou em sua cabeça: “Eu volto.”
Nicolas fechou o laptop, respirou fundo e se obrigou a continuar. Precisava sair dali. Precisava estar no carro quando ele voltasse.
—X—X—X—
No compartimento inferior do Night Fury, Marco ouvia o som abafado de vozes e o estrondo metálico dos motores acelerando.
— Tirem o avião daqui! — alguém gritou acima dele. — Precisamos removê-lo da base antes que os invasores cheguem perto!
O avião balançou. O chão vibrou sob seus pés. O som das engrenagens do hangar se movendo confirmou o que ele temia: a porta disfarçada na encosta estava se abrindo.
Marco rastejou até uma fresta na estrutura e olhou para baixo.
Viu luz natural — um feixe tênue de luar filtrando-se pelas fendas enquanto o hangar se abria para o exterior. Do lado de fora, lá embaixo, a encosta rochosa da pedreira se abria como uma cicatriz.
Ele não tinha mais tempo.
Retirou o explosivo plástico da mochila, fixou-o com fita no assoalho reforçado, bem entre as asas. Sabia que ali o impacto seria fatal para a estrutura. Programou o detonador manual, ajustando-o para o modo remoto.
O som das turbinas se intensificou até que o chão começou a vibrar como se o ar estivesse prestes a se partir. O ar ficou mais quente, mais denso. Marco se encostou ao painel, tentando manter o equilíbrio. A sensação de movimento aumentava — o avião estava sendo rebocado para fora do hangar.
Ele espiou de novo pela fresta e viu o clarão dos faróis refletindo na pista. Guardas corriam, veículos seguiam o avião.
O rugido das turbinas aumentou. O Night Fury começava a acelerar.
— Droga, droga… — murmurou Marco, tentando decidir o que fazer.
Não podia descer, e ficar ali significava morrer na explosão. Mas fugir para onde?
O avião tremia inteiro. Ele sabia que tinha segundos, talvez menos.
—X—X—X—
Nicolas saiu correndo pelos corredores, o som das sirenes ecoando.
A cada curva, esperava encontrar guardas, mas o caminho estava milagrosamente livre — todos haviam se dirigido ao hangar.
Quando finalmente atravessou a última porta de segurança e chegou ao estacionamento, o silêncio o atingiu como um soco. O ar noturno era frio, úmido, cortando o rosto suado.
Ele correu até o Toyota Etios branco, abriu a porta e entrou, tentando recuperar o fôlego. O interior do carro parecia absurdamente pequeno e seguro. Ficou ali por um instante, olhando em volta. Nenhum sinal de movimento. Nenhum guarda.
— Vamos, Marco… — sussurrou, com a voz embargada. — Anda, volta logo…
O som de motores ao longe fez com que ele se abaixasse instintivamente. Por um segundo, achou que eram carros. Mas o ruído cresceu, profundo, contínuo.
Um rugido de jato.
Nicolas ergueu a cabeça. Pelos vidros, viu uma sombra imensa se projetando contra o céu noturno. O Night Fury estava decolando, subindo rápido, como uma flecha negra em direção às nuvens.
E então, o mundo explodiu.
Um clarão branco rasgou o horizonte, seguido por uma bola de fogo colossal. O som veio um segundo depois, um trovão que fez o chão estremecer. Os destroços do avião se abriram no ar como pétalas de fogo, espalhando fagulhas e fragmentos incandescentes que caíam lentamente.
Nicolas saiu do carro, atônito. O reflexo da explosão tingia sua pele de laranja. Lágrimas ardiam nos olhos, e ele mal sabia se era pelo clarão ou pelo desespero. Antes que pudesse se recompor, uma nova explosão sacudiu o solo — vinda de dentro do hangar. O Prima havia sido atingido também.
O céu parecia em chamas.
Por um instante, o mundo inteiro se reduziu ao som de fogo e vento.
— Marco… — sussurrou, a voz falhando.
Mas não havia resposta.
De repente, vozes. Gritos atrás de si. Ele se virou e viu guardas saindo do prédio principal, apontando na direção dele.
— Aí! Peguem-no!
Nicolas correu. Entrou no carro, girou a chave, o motor rugiu. Engatou a ré e acelerou com força. Os pneus chiaram, o carro derrapou.
Tiros ecoaram. O para-brisa estilhaçou em uma teia de rachaduras. Nicolas abaixou-se, o corpo tremendo. Ele engatou a primeira e acelerou, batendo em outro carro estacionado, mas continuou em frente.
Mais tiros. O som seco de balas atingindo a lataria.
A guarita apareceu à frente, a cancela abaixada, o guarda tentando bloquear a passagem.
Nicolas não hesitou. Acelerou com tudo.
O Toyota atravessou a cancela, arrebentando a barra metálica em mil pedaços.
Atrás dele, o som distante das sirenes e tiros diminuía. À frente, a estrada sinuosa que levava de volta à cidade.
Mas o alívio não veio.
Lágrimas escorriam pelo rosto enquanto ele apertava o volante com força.
— Eu devia ter ficado — sussurrou, em desespero. — Eu devia ter ficado…
A imagem de Marco explodindo junto ao avião o atravessava como uma faca. Ele sentia o peito queimar, o corpo inteiro tremendo entre raiva e culpa.
“Você disse que voltaria…”
O carro seguia veloz, os faróis varrendo o asfalto. A estrada era estreita, cercada por mata fechada. De repente, algo surgiu diante dele. Uma figura humana, emergindo das sombras da vegetação, direto no meio da pista.
Nicolas freou com tudo. Os pneus cantaram, o carro derrapou, parando a poucos metros da figura.
O coração quase saiu pela boca.
E então ele viu quem era.
Marco.
Coberto de poeira e arranhões, o rosto sujo de poeira, o corpo ofegante — mas vivo.
Por um segundo, Nicolas achou que era uma alucinação. Mas Marco deu um passo à frente, cambaleando sob os faróis.
— Entra! — gritou Nicolas, a voz embargada.
Marco abriu a porta e entrou no carro. O motor ainda roncava. Nicolas acelerou, e o Toyota disparou pela rodovia.
Silêncio por alguns instantes, apenas o som do vento entrando pelas rachaduras do para-brisa.
Nicolas virou o rosto, os olhos marejados.
— Como… como você conseguiu sair de lá?
Marco respirou fundo, apoiando a cabeça no encosto.
— Esperei o avião parar na pista de decolagem. Eles estavam alinhando o Night Fury quando eu soltei o trem de pouso e me joguei pra fora. Desci rolando, me escondi nas sombras. Corri pela pista até a cerca… pulei, atravessei a mata. E vim pela via de acesso.
Nicolas o olhava, atônito, sem conseguir conter o choro.
Marco virou o rosto para ele, surpreso.
— Por que está chorando?
Nicolas sorriu, fraco.
— Porque você disse que voltaria. — Ele respirou, e as lágrimas desceram. — E voltou.
Marco ficou em silêncio por um instante, olhando para frente. Então, sem dizer nada, pousou a mão sobre a de Nicolas no câmbio.
O carro seguia pela estrada deserta, enquanto atrás deles, o céu ainda ardia em fogo.
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