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— CNFA [GMT-3 | 01:03:35]:Beta infiltrou-se com sucesso nas instalações de Confins. Acompanhado de um cúmplice, implantou um vírus que corrompeu integralmente os sistemas da base. Os aviões Prima e Night Fury foram destruídos. Perdas totais.

— Cygnus-PortCom1 [GMT-3 | 01:04:22]: Isso é inaceitável! Os responsáveis pela segurança pagarão caro!

— CNFA [GMT-3 | 01:04:57]:Deseja que iniciemos o protocolo de reconstrução?

— Cygnus-PortCom1 [GMT-3 | 01:05:33]: Ainda não. A destruição da base não encerra o Projeto Death Star. Podemos recomeçar em qualquer lugar — e o faremos. Mas antes, há um assunto a resolver.

— CNFA [GMT-3 | 01:05:49]:Quais são suas ordens?

— Cygnus-PortCom1 [GMT-3 | 01:06:13]: Quero que usem todos os recursos disponíveis para encontrar Beta. E quando o encontrarem… eliminem-no.


End transmission



—X—X—X—


O motor do Toyota Etios cortava a noite como um animal ferido. Nicolas dirigia como nunca antes — tenso, focado, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o volante. O reflexo das luzes de estrada riscava o rosto dele, alternando sombras e brilhos sobre o suor frio que escorria na têmpora.

Marco o observava em silêncio. Via a rigidez dos ombros, o maxilar trincado, e queria dizer algo, mas qualquer palavra pareceria banal diante do que haviam acabado de viver.

— Olha pra frente, Nicolas — disse, finalmente, a voz rouca. — Deixa que eu cuido da retaguarda.

Nicolas assentiu sem desviar os olhos da pista. O som do vento batendo no vidro quebrado do Etios misturava-se ao ronco do motor, criando uma sinfonia metálica e tensa.

— Pra onde a gente vai agora? — perguntou Nicolas, o olhar fixo no horizonte.

— Não podemos voltar pra base da Vigília. Seria colocar Gael e Big Boy em risco — respondeu Marco, olhando o retrovisor. — Precisamos de um lugar onde possamos desaparecer por uns dias.

Nicolas ficou em silêncio, os pensamentos girando. Depois de alguns segundos, disse:

— Acho que sei onde. Mas primeiro a gente precisa se livrar desse carro. Ele está todo furado… e se rastrearem a placa, acabou pra nós.

Marco olhou o painel, avaliando.

— Certo. Me deixa pensar em algo.

Ele se virou, checando novamente a estrada atrás deles. Quando percebeu que não havia nenhum farol seguindo-os, falou baixo:

— Sai da Cristiano Machado e encosta perto do Shopping Estação. Vamos deixar o carro ali e trocar de veículo.

Nicolas obedeceu sem perguntar.

O Etios cambaleou ao entrar numa rua lateral mal iluminada. Marco observou em volta — ninguém por perto.

— Aqui. — Ele apontou. — Para.

O carro deslizou até o meio-fio e parou. O som do motor cessou, deixando o silêncio tomar conta.

Os dois desceram rapidamente. A noite cheirava a chuva antiga e asfalto quente. Caminharam depressa por entre as ruas escuras, o som das passadas ecoando no concreto molhado. De vez em quando, olhavam para trás, o coração disparando com qualquer sombra em movimento.

Subiram a ladeira até o bairro Vila Clóris, o ar ficando mais rarefeito. Quando perceberam que ninguém os seguia, pararam sob uma árvore frondosa.

Marco apoiou as mãos nos joelhos, ofegante. Nicolas encostou-se no tronco, respirando com dificuldade. Por um instante, tudo o que se ouvia era o som das respirações aceleradas e o zumbido distante da cidade.

— Conseguimos… — murmurou Marco, um riso nervoso escapando.

Nicolas ergueu os olhos e riu também, nervoso, trêmulo. Quando os olhares se encontraram, algo mudou no ar — um silêncio diferente, pesado, denso de coisas não ditas.

— Nós conseguimos… — Marco soltou, entre uma arfada e outra.

— É… parece que sim. — Nicolas concordou, também arfando.

Os olhos de Nicolas vagaram pelo rosto suado de Marco, pelas veias saltadas no pescoço, pela respiração ofegante. Ele sentiu o peito apertar e, antes que a razão tivesse chance de protestar, deu um passo à frente.

Marco abriu a boca para falar, mas Nicolas o segurou pelo rosto e o beijou.

O choque inicial se desfez em segundos. Marco deixou a inércia de lado e retribuiu o beijo com uma intensidade contida, desesperada. Suas mãos foram direto à cintura de Nicolas, puxando-o com força. O corpo de um colou-se ao do outro num encaixe perfeito, como se aquele momento estivesse escrito desde o primeiro olhar trocado entre eles.

O beijo era fogo e alívio, desejo e sobrevivência. O mundo inteiro parecia se dissolver — não havia sirenes, nem tiros, nem ordens de infiltração. Só o toque quente, o som das respirações misturadas e o gosto metálico da noite.

Quando se afastaram, os olhos de Marco ainda queimavam.

— Por que você fez isso? — perguntou, com a voz baixa e rouca.

Nicolas negou, balançando a cabeça.

— Não sei. — Respirou fundo. — Só… pareceu o certo a fazer. É o que eu queria.

Marco sorriu de canto, quase triste.

— Eu também.

Eles voltaram a se beijar, mais devagar agora, mas com uma lascívia crescente. As mãos de Marco subiram pelas costas de Nicolas, apertando o tecido da camisa. Nicolas o puxou mais perto, sentindo cada músculo do corpo dele, cada respiração irregular.

A tensão entre eles era um fio elétrico. O ar parecia vibrar.

Por um instante, o instinto falou mais alto — e ambos souberam o que viria a seguir se estivessem em outro lugar. O corpo de Nicolas latejava, e Marco sentia o mesmo.

Mas a realidade os cercou novamente. Estavam na rua. O perigo os espreitava.

Marco afastou o rosto, respirando pesado.

— A gente precisa de um carro — disse, com dificuldade, ainda segurando o rosto de Nicolas.

Nicolas, ofegante, assentiu. Mordeu o lábio, tentando conter o calor que sentia.

— Onde vamos conseguir um?

Marco olhou em volta, os olhos rápidos. Foi então que viu um Ford Versailles azul estacionado a poucos metros, meio escondido sob a sombra de uma árvore.

— Ali. — apontou.

Nicolas franziu o cenho.

— Vamos… roubar?

— Só pegar emprestado — respondeu Marco, sério. — A gente deixa em algum lugar seguro depois. É melhor do que pedir um Uber e acabar sendo rastreado.

Nicolas hesitou, mas sabia que Marco tinha razão.

Marco caminhou até o carro, abaixando-se junto à porta. Pegou uma pedra grande do jardim da casa em frente. Olhou para os lados — silêncio. Então desferiu um golpe rápido. O vidro do motorista estourou, espalhando cacos.

O som pareceu ecoar pela rua inteira, mas ninguém apareceu. Marco destravou a porta e entrou, limpando os cacos com a manga. Nicolas correu e entrou pelo outro lado.

Marco abaixou-se, puxou o painel inferior e expôs os fios. Com movimentos rápidos, desencapou dois e fez a ligação direta. O motor gemeu, depois rugiu.

— Pronto. — disse.

O Versailles arrancou com um ronco pesado, subindo a rua em direção à avenida.


—X—X—X—


Pouco tempo depois, as luzes de um condomínio iluminavam o asfalto. Nicolas olhava pela janela, reconhecendo o caminho. Marco seguia o olhar dele.

— É aqui? — perguntou, analisando o alto da pedreira.

No topo, a mansão de Verônica Roche parecia uma fortaleza moderna. As luzes externas refletiam na fachada de vidro e concreto, e lá embaixo, na cratera antiga da pedreira, o espelho d’água azul cintilava sob a luz da lua.

— É — respondeu Nicolas, com um tom que misturava alívio e apreensão. — Eu conheço a Verônica há anos. Ela vai me acolher sem fazer perguntas. Depois a gente pensa no próximo passo.

Marco manteve o olhar desconfiado na casa.

— Você confia nela?

— Confio. — Nicolas sorriu levemente. — É a única pessoa em quem eu ainda confio.

O Versailles subiu a rampa até o portão.

Verônica abriu pessoalmente. Estava impecável — um conjunto cor-de-vinho e uma expressão de surpresa controlada.

— Nicolas? O que faz aqui a essa hora?

Ele respirou fundo.

— Preciso de ajuda, Verônica. Só por um tempo. Um lugar pra ficar.

Ela o observou por um segundo, depois seu olhar foi até Marco, avaliando-o.

Então sorriu, gentil.

— Entrem.

A casa era como Nicolas se lembrava — moderna, espaçosa, com janelas de vidro enormes de onde se via toda a cidade e, lá embaixo, o espelho da lagoa refletindo a lua.

Subiram ao escritório dela no segundo andar. Verônica acendeu uma luminária e gesticulou para que se acomodassem. Nicolas se sentou em uma poltrona. Marco permaneceu de pé, perto da porta.

— Querem algo pra beber? — perguntou ela, indo até o bar.

— Não, obrigado. — Nicolas respondeu.

Verônica apoiou-se na mesa, cruzando os braços. O olhar dela se fixou em Nicolas, sério.

— Então me diga, no que você se meteu?

Nicolas passou a mão pelos cabelos, exausto.

— Descobri que meu pai estava envolvido em algo grande… um esquema secreto. Foi isso que o matou.

Verônica arqueou as sobrancelhas, em aparente espanto.

— Como descobriu isso?

— Ele roubou alguns documentos. Ia entregá-los a alguém, mas foi morto antes.

Ela assentiu lentamente.

— Isso é perigoso, Nicolas. Muito perigoso. Você devia ter se afastado.

— Eu não tinha mais nada a perder. — Ele olhou de relance para Marco. — Pelo menos até agora.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Verônica o observava com um misto de compaixão e… algo mais difícil de definir.

— Você não deveria ter se envolvido com o que quer que Leonel estivesse fazendo — disse ela, por fim.

— E o que eu devia fazer então? Fingir que nada aconteceu? — retrucou Nicolas.

Verônica suspirou. Ia responder — mas a televisão atrás dela se acendeu sozinha, com um chiado elétrico.

Uma tela preta. Depois, letras brancas.

Cygnus, aqui é CNFA. Perdemos Beta. Quais as suas orientações?

O tempo parou.

Nicolas e Marco trocaram um olhar, atônitos.

Verônica fechou os olhos, por um segundo apenas, como quem aceita o inevitável. Quando os abriu, a doçura desaparecera. Com passos calmos, ela contornou a mesa e abriu uma gaveta. O som metálico ecoou pelo escritório.

— Eu realmente não queria que descobrissem assim — disse, a voz baixa, quase um sussurro. — Mas já que descobriram…

Ela ergueu o braço. A arma reluziu sob a luz amarelada da luminária.

Nicolas deu um passo à frente.

— Verônica… o que está fazendo?

Ela o olhou com uma ternura gelada.

— Terminando o que seu pai começou.

O disparo veio seco. O som atravessou o cômodo e, por um instante, o mundo pareceu perder o eixo.

Marco cambaleou um passo para trás, o corpo arqueando como se tentasse entender o que havia acontecido. O eco do tiro ainda vibrava no ar quando ele caiu de joelhos. O sangue começou a se espalhar pela camisa, quente, vermelho-escuro demais para ser ignorado.

— Marco! — o grito de Nicolas rasgou o silêncio, desesperado.

Verônica abaixou a arma com calma. Seus olhos não deixaram o rosto dele nem por um segundo.

— Você não devia ter voltado, Nicolas.

O nome de Marco escapou da boca dele outra vez — mas não houve resposta.

Apenas o silêncio.

E, do lado de fora, o ruído distante da lagoa refletindo a lua fria no vidro da janela.