O relógio no painel do Toyota Etios marcava 22h47. O motor vibrava baixo, como se sentisse a tensão dos dois ocupantes. A chuva fina riscava o para-brisa em linhas inclinadas, refletindo as luzes alaranjadas da rodovia.

Nenhum dos dois falava.

Nicolas olhava pela janela, o rosto levemente iluminado pelo neon que piscava nos postos de gasolina e restaurantes fechados à beira da estrada. O silêncio era sufocante. Não o silêncio confortável de quem tem o que compartilhar, mas o silêncio denso de quem carrega demais dentro de si para dividir.

Marco segurava firme o volante, os olhos cravados na faixa branca central da estrada. O ruído dos pneus sobre o asfalto molhado era a única coisa que quebrava a imobilidade do carro. Ele pensava em cada passo do plano — e, mais do que isso, em cada coisa que poderia dar errado.

Por duas vezes tentou dizer algo, mas as palavras morreram antes de alcançar a boca. Até que, finalmente, a terceira tentativa veio:

— Então... — a voz dele soou rouca, quase um desabafo — vamos repassar tudo.

Nicolas virou o rosto na direção dele, sem dizer nada. Marco continuou:

— Assim que entrarmos, eu sigo até o hangar. Lá é onde ficam os aviões. O Prima e o Night Fury. Eu vou tentar causar uma distração, algo grande o suficiente pra afastar os seguranças da ala de comando.

Fez uma pausa, desviando os olhos do retrovisor.

— Enquanto isso, você fica escondido. Só age quando ouvir o sinal.

— Que tipo de sinal? — perguntou Nicolas, tentando soar firme.

Marco respirou fundo.

— Você vai saber quando acontecer.

O silêncio voltou. Nicolas encarou a estrada escura por alguns segundos, o som do limpador de para-brisa marcando o compasso de seus pensamentos.

— Marco... — chamou, baixinho. — Que tipo de distração você pretende causar?

— Ainda não pensei.

— Você está brincando.

— Não — respondeu Marco, sem emoção na voz. — Ainda estou avaliando as opções.

Nicolas cruzou os braços, fitando o painel do carro.

— Eu tenho uma ideia.

— Ah, é? — Marco arqueou uma sobrancelha, lançando-lhe um olhar breve. — Que ideia?

— Passa por Lagoa Santa.

— O quê?

— Você ouviu. Tem um canteiro de obras da Machado Galvão lá. Preciso pegar uma coisa.

Marco estreitou os olhos.

— Nicolas…

— Confia em mim.

Marco respirou fundo, estudando o rosto do rapaz. Havia algo diferente em Nicolas naquela noite. O medo ainda estava lá, evidente no brilho dos olhos, mas agora havia algo novo — determinação. Uma centelha que o fazia parecer mais velho, mais decidido. Marco assentiu devagar.

— Tudo bem.


—X—X—X—


O canteiro de obras se erguia silencioso à beira da estrada, um esqueleto de concreto iluminado por refletores amarelados. O letreiro da construtora, gasto pela chuva, balançava com o vento.

Marco parou o carro a alguns metros do portão de entrada.

— Não estou vendo ninguém.

Nicolas já abria o cinto de segurança.

— Ótimo. Espera aqui.

— Espera! O que você vai fazer?

— Só me dá cinco minutos.

Sem esperar resposta, Nicolas abriu a porta e correu.

A chuva aumentava, encharcando a roupa que ele vestia. Escalou a grade baixa com agilidade e pulou para o outro lado, desaparecendo entre as sombras do canteiro.

Marco o observou pelo retrovisor, o coração acelerado. Cada segundo parecia interminável.

Quando Nicolas voltou, trazia algo embrulhado num plástico escuro. O cabelo colado à testa, a respiração acelerada. Ele abriu a porta e jogou o pacote no banco de trás, pingando água no tapete.

Marco olhou para o objeto, depois para ele.

— O que é isso?

— Dois blocos de explosivo plástico. A construtora usa pra demolições.

Marco piscou, sem acreditar.

— Você tá brincando comigo.

— Estou parecendo que estou brincando? — respondeu Nicolas, sério.

Marco olhou para ele por longos segundos, em silêncio. Então uma expressão estranha cruzou seu rosto — surpresa, admiração e, por um instante, um desejo inexplicável.

Ele soltou um meio sorriso.

— Você está ficando perigoso, garoto.

— Prefiro “útil”, se não se importar.

Marco riu baixo, balançando a cabeça.

— Vamos acabar logo com isso.

O motor do Etios rugiu, e os dois partiram em direção ao aeroporto.


—X—X—X—


O letreiro azul do Aeroporto Internacional Tancredo Neves surgiu à distância, recortado pela neblina. O relógio marcava 23h58. A cidade dormia, mas a estrada parecia observá-los com olhos invisíveis.

Marco manteve o farol baixo, evitando chamar atenção. A pista de decolagem brilhava distante, como nervos luminosos sob a pele do concreto.

— É aqui — disse ele, e parou o carro num recuo da via.

Nicolas respirou fundo e soltou o cinto.

— Eu vou no porta-malas.

Marco virou o rosto bruscamente.

— O quê?

— Eles não podem me ver. Se eu ficar lá dentro, há uma chance de passarmos.

— Eles vão revistar o porta-malas, Nicolas.

— Então eu me escondo melhor.

Antes que Marco pudesse protestar, Nicolas saiu do carro, abriu o porta-malas e retirou o pneu do estepe. Ele o rolou para fora da pista e depois se encolheu dentro do compartimento. Dobrando os joelhos contra o peito, tentou se encaixar da melhor forma possível.

— Isso é loucura — murmurou Marco, agachado ao lado dele.

— É o que temos.

Marco olhou para o rosto dele, iluminado apenas pela luz trêmula da lanterna. Por um instante, quis dizer algo — talvez que estava orgulhoso, talvez que estava com medo. Mas o que saiu foi apenas:

— Respira fundo. E não faz barulho.

Nicolas assentiu, e Marco puxou o carpete sobre ele, cobrindo tudo.

O som abafado do porta-malas se fechando mergulhou Nicolas na escuridão total.


—X—X—X—


O Etios rolou lentamente pela estrada lateral que levava à torre de controle. As luzes da pista ficavam para trás, e a paisagem dava lugar a um terreno murado com cercas altas. No final da via, uma pequena guarita se erguia, com um holofote girando em seu topo.

Marco diminuiu a velocidade e respirou fundo.

— Calma. É só mais um carro de serviço — murmurou para si mesmo.

Um guarda saiu da guarita com uma lanterna. Marco baixou o vidro e estendeu o cartão de acesso. O guarda o passou no leitor, mas não abriu a cancela de imediato. Caminhou em direção ao carro.

Marco ouviu o rádio do guarda crepitar:

“Quase gol do Cruzeiro! Inacreditááável!”

E foi aí que a ideia veio.

Quando o homem se aproximou, Marco forçou um sorriso.

— Que jogo, hein?

O guarda, surpreso, relaxou a postura.

— Tá maluco, rapaz! Quase me deu um infarto agora.

— Eu achei que ia entrar — disse Marco, balançando a cabeça. — Mas o ataque deles tá perdido hoje.

O guarda soltou uma risada cansada.

— Isso é falta de treino. Falta de estratégia.

Marco abriu o porta-malas.

— Concordo. Time bom precisa de direção, senão desanda.

O homem ergueu a lanterna, olhou rapidamente para dentro do veículo e assentiu.

— Pode seguir.

Marco sorriu.

— Valeu, chefe.

Quando o guarda começou a se afastar, ele se virou novamente.

— Espera aí... eu não te conheço, conheço?

Marco manteve a calma.

— Provavelmente não. Sou novo aqui. Nem todo mundo aguenta essa rotina.

O guarda riu, balançando a cabeça.

— É, tem disso. Vai lá.

A cancela se ergueu com um estalo. Marco acelerou suavemente e entrou.


—X—X—X—


O estacionamento subterrâneo da base era frio e úmido, com iluminação branca e incessante. O som dos pneus sobre o cimento ecoava como batidas de tambor.

Marco parou o carro entre outros Etios brancos, idênticos. O disfarce perfeito. Desceu, deu uma olhada rápida ao redor e, satisfeito, abriu o porta-malas.

Nicolas emergiu do escuro, ofegante, o rosto suado.

— Eu não acredito que isso funcionou.

Marco deixou escapar um riso nervoso.

— Você é mesmo um gênio.

O olhar de Nicolas se cruzou com o dele, e por um instante houve algo ali — não apenas alívio, mas algo mais profundo, mais denso.

Marco desviou o olhar e pigarreou.

— Certo. Não temos tempo.

— Qual o plano agora? — perguntou Nicolas.

— Eu sigo pra ala do hangar. Vou colocar os explosivos perto dos aviões. Você precisa chegar até o centro de comando e plugar o HD.

— E se tiver alguém lá?

Marco o olhou nos olhos.

— Então você dá um jeito. Se esconda, finja ser técnico, improvisa. Mas não hesite.

Nicolas assentiu, mas o coração batia acelerado. Ele observava Marco falando, o jeito firme, o tom de voz controlado.

E percebeu, de repente, o quanto sentia medo de perdê-lo. Quis dizer algo — não morre, por favor, talvez —, mas as palavras ficaram presas na garganta.

Marco deu um passo para trás, preparando-se para seguir seu caminho. Nicolas pigarreou, tentando disfarçar a emoção.

— Vamos acabar logo com isso — disse, num fio de voz. — Assim a gente se livra logo.

Marco assentiu, mas seu olhar permaneceu fixo em Nicolas por um segundo a mais do que o necessário. Ele sabia que aquele "se livrar logo" significava o oposto. Nenhum dos dois queria que acabasse.

Eles se viraram para seguir em direções opostas, mas Nicolas, num impulso, segurou a mão de Marco.

O toque foi rápido, instintivo, mas o suficiente para travar o mundo ao redor. Marco se virou e o olhou — e naquele olhar havia tudo que eles não tinham coragem de dizer. A tensão, o desejo, o medo, a culpa.

O som distante das turbinas, o zumbido dos holofotes, o gotejar dos canos no teto — tudo pareceu se dissolver.

Nicolas o encarou. As palavras saíram baixas, quase um sussurro.

— Volta.

Marco ficou imóvel por um instante, sentindo o peso daquilo. Depois, apertou firme a mão de Nicolas.

— Eu volto.

O toque durou um segundo a mais do que deveria. Ou dois. Ou três. Nenhum deles parou para contar.

E então se soltaram.

Nicolas observou Marco desaparecer pelo corredor à esquerda. A sombra dele se misturou à névoa da ventilação subterrânea até sumir de vista.

Ele respirou fundo, segurando o HD contra o peito, e sussurrou para si mesmo, como uma prece:

— Volta mesmo.

Depois, virou-se e seguiu pelo corredor oposto, rumo ao desconhecido.

Do lado de fora, a chuva engrossava. O relógio marcava 00h23. E o som distante das turbinas ecoava como um aviso.

A noite em Confins acabava de começar.