A chuva tamborilava no telhado metálico da chácara como uma percussão constante, marcando o compasso da ansiedade que tomava conta da casa. O ar estava frio e o cheiro de café velho misturava-se ao de poeira e papel. Gael ajustou o projetor, e o foco de luz azulada preencheu a parede descascada da sala principal, revelando a planta da base secreta.

Linhas técnicas e códigos preenchiam o quadro projetado, com seções demarcadas por setas, legendas e números. A imagem lembrava um circuito elétrico colossal — e, de certa forma, era. Ali, sob toneladas de concreto e segurança militar, funcionava o coração do Projeto Death Star.

Marco estava de pé, braços cruzados, com os olhos fixos na projeção. Nicolas sentou-se no sofá gasto, apoiando os cotovelos nos joelhos. O silêncio era quase reverente — como se a base que viam na tela estivesse viva e os observasse de volta.

Gael pigarreou.

— Aqui é a entrada principal — disse, apontando para a parte superior da planta. — Oficialmente, é um acesso de manutenção do terminal de cargas do aeroporto de Confins. De lá, há um elevador que desce até esta área... — arrastou o dedo até um retângulo central. — A sala de comando. É onde todo o sistema do projeto é controlado: radares, comunicação, energia, armamentos.

Big Boy, sentado em um canto com seu laptop aberto, digitava algo rapidamente, sincronizando as imagens com as pastas que haviam recuperado.

— E aqui — completou Gael —, fica o hangar subterrâneo. É onde guardam os aviões Prima e Night Fury.

A voz de Gael soava baixa, mas cada palavra carregava uma tensão crescente. O som da chuva parecia mais distante agora; o foco deles era total.

Marco deu um passo à frente.

— Isso é uma fortaleza.

Gael o olhou de lado.

— É. Mas toda fortaleza tem um ponto fraco.

Marco franziu a testa.

— Continue.

Gael acendeu um cigarro e deu uma tragada longa, soltando a fumaça lentamente.

— A ideia é simples. Temos o cartão de acesso que Leonel roubou. Nível três. Dá pra entrar na maioria das áreas da base. Se o Nicolas conseguir entrar, pode plugar o HD com o vírus e derrubar o sistema inteiro.

Nicolas o encarou.

— Só isso?

— É o suficiente — respondeu Gael, tentando soar confiante. — É só entrar, conectar o HD, e sair antes que percebam.

Marco bufou, descrente.

— Simples demais.

Gael levantou as sobrancelhas.

— Você tem uma sugestão melhor?

Marco se aproximou da tela e tocou o mapa com o indicador.

— Isso aqui é uma base militar, Gael. Cheia de sensores, câmeras e guardas. O Nicolas não vai conseguir chegar até a sala de comando sozinho sem ser detectado.

— Então o que você sugere? — perguntou Gael, impaciente.

Marco virou o rosto para ele.

— Que sejam dois.

O silêncio que se seguiu foi denso. Big Boy levantou os olhos do laptop.

— Dois? — repetiu Gael, franzindo o cenho.

Marco assentiu.

— Um faz a distração, chama a atenção da segurança. O outro entra e instala o vírus. Enquanto todos olham pra um lado, o verdadeiro estrago acontece do outro.

Big Boy coçou a barba e murmurou:

— Faz sentido.

Gael o encarou por um instante e depois olhou de volta para o mapa.

— É arriscado.

— Tudo isso é arriscado — respondeu Marco.

As palavras cortaram o ar como uma lâmina.

Gael apagou o cigarro e voltou à projeção.

— Certo. Se forem mesmo vocês dois, Marco cuida da distração. Nicolas, você implanta o vírus.

— Como? — perguntou Nicolas.

— É simples — respondeu Big Boy. — Só precisa plugar o HD em qualquer terminal da rede principal. O vírus é uma hidra autônoma. Vai copiar, apagar e corromper tudo. O sistema de controle, os arquivos, os programas de voo… até as comunicações.

Gael completou:

— Isso inclui o Night Fury e o Prima. Sem o sistema operacional, eles viram carcaças de metal.

Nicolas respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade.

Marco olhou para o mapa e perguntou:

— Como vamos entrar?

Gael clicou e ampliou a parte superior do mapa.

— Leonel fugiu em um Toyota Etios branco. Eram carros de serviço da base, usados para transporte de peças e pessoal técnico. Ninguém presta atenção nesses veículos. Se alugarmos um igual, podemos entrar sem levantar suspeitas.

Nicolas assentiu, analisando a tela e sentindo a realidade bater.

— Acho improvável, mas… e se os guardas reconhecerem o meu rosto?

Gael assentiu.

— Então você vai precisar de um disfarce.

— Eu dou um jeito.

A resposta foi rápida e seca. Marco o observou com um misto de incredulidade e admiração.

— Você está falando sério?

— Mais do que nunca.

Gael olhou para Marco e depois para o mapa.

— A distração tem que ser grande o bastante para confundir a segurança, mas não pode comprometer o plano.

Marco passou o dedo pela planta da base, observando o setor do hangar. Parou sobre a silhueta escura do Night Fury.

— Talvez eu tenha uma ideia.

Ninguém perguntou o que era. Apenas o olhar de Marco dizia que não seria algo simples.


—X—X—X—


As horas seguintes foram gastas revisando detalhes: horários de segurança, rotas de fuga, códigos de acesso, redundâncias de energia. Gael parecia exausto, mas sua mente trabalhava rápido. Big Boy transferia arquivos para pendrives e ajustava o HD que carregaria o vírus.

Quando a reunião finalmente terminou, a projeção foi desligada. A sala mergulhou numa penumbra azulada, iluminada apenas pelo brilho dos monitores. O som da chuva parecia mais forte, e o cheiro de fumaça ainda pairava no ar.

Marco permaneceu de pé, imóvel, encarando o ponto da parede onde o mapa estivera segundos antes. O coração dele batia num ritmo que tentava controlar. Ele pensava em tudo que podia dar errado, em cada variável que não estava em suas mãos. Mas o que o inquietava de verdade era Nicolas — a coragem impensada, o olhar firme, a determinação de quem não tinha mais nada a perder.

Gael se espreguiçou, pegando o casaco.

— Chega por hoje. Amanhã começamos a preparar tudo.

Big Boy fechou o laptop e foi para o corredor, murmurando algo sobre criptografia.

Nicolas ainda estava sentado, observando Marco. O olhar dele era uma mistura de inquietação e admiração. Marco notou e desviou o olhar, fingindo ajustar o coldre na cintura.

— Vai dar certo — disse Nicolas, rompendo o silêncio. — A gente vai conseguir.

Marco respirou fundo, sem se virar.

— Espero que sim.

Nicolas se levantou e se aproximou um pouco.

— Você duvida?

— Eu já vi planos perfeitos desmoronarem por um erro de segundos.

Nicolas ficou em silêncio por um momento, depois respondeu:

— Então não vamos errar.

Os dois se encararam, e o silêncio entre eles era espesso, quase palpável. Marco viu no rosto de Nicolas algo que o assustou: calma. Não resignação, mas uma serenidade que vinha de quem já aceitara o risco.

Ele sentiu vontade de dizer algo — talvez para convencê-lo a não ir —, mas as palavras não vieram.

Gael passou de volta pela porta e disse:

— Vão descansar. A partir de amanhã, não vai sobrar tempo pra respirar.

Nicolas assentiu e foi para o quarto. Marco ficou para trás por um momento, olhando para o nada. O som da porta se fechando ecoou pela casa.

O peso da decisão parecia materializar-se no ar — denso, quase físico.

Marco apoiou as mãos na mesa, respirando fundo. Do lado de fora, a chuva engrossava, martelando o telhado com fúria. A cada trovão distante, o som parecia reverberar dentro dele.

Quando enfim saiu da sala, as luzes do corredor piscavam levemente, e a casa parecia respirar um ar de expectativa silenciosa.

Nada havia começado ainda — mas a atmosfera já estava carregada, como se cada sombra soubesse que o amanhecer traria algo grande.

O clima não era mais de dúvida, nem de esperança.

Era de peso. De quem sabe que não há mais volta.