Conte as Estrelas
13 Capítulo 11
O vento da madrugada soprava carregado de umidade, trazendo consigo o cheiro agridoce da terra recém-molhada e o rumor distante da cidade adormecida. As luzes do perímetro urbano mal alcançavam aquele trecho de estrada; ali, o mundo parecia suspenso entre o sono e a vigília. O farfalhar dos galhos contra o telhado da velha casa era o único som constante, misturado ao ruído grave do portão de ferro que rangia de tempos em tempos, como se também estivesse inquieto.
Marco permanecia na varanda, imóvel, os ombros pesados sob a camisa úmida. A fumaça subia em espirais frágeis que o vento desfazia antes que pudessem formar algo.
Do lado dele, Gael observava em silêncio, com o cigarro aceso tremendo entre os dedos. O brilho alaranjado da brasa se refletia brevemente em seus olhos antes de desaparecer na escuridão. O rosto do jornalista, meio oculto na penumbra, parecia feito de sombras e paciência. Tragava devagar, soltando a fumaça pela boca com uma calma que soava quase ensaiada — o tipo de calma que só quem já perdeu tudo consegue sustentar.
— Ele ainda não voltou… — Suspirou Marco, sem tirar os olhos do portão. A voz soou rouca, arranhada, como se cada palavra precisasse atravessar uma pedra no peito.
Gael respondeu sem pressa:
— Vai voltar. — O tom era neutro, quase clínico. — Só precisava de um tempo pra respirar.
Marco assentiu, mas não pareceu acreditar. O vento soprou mais forte, e a lembrança de Nicolas saindo correndo pela estrada, sob a chuva, o rosto lavado em desespero, voltava como uma cena que se repetia sem trégua. Aquela imagem lhe atravessava o pensamento com um peso incômodo. Havia algo no garoto — algo que o fazia querer protegê-lo, mesmo quando tudo nele dizia que era melhor manter distância.
— Posso te fazer uma pergunta? — Disse enfim, tentando afastar o silêncio que ameaçava engoli-lo.
Gael desviou o olhar da noite e respondeu:
— Manda.
— Como começou isso tudo? — Perguntou. — A Vigília, o projeto Death Star… vocês parecem saber mais do que qualquer um deveria.
Gael suspirou, como quem se prepara para abrir uma ferida antiga.
— A semente da Vigília nasceu há muito tempo, Marco. Muito antes de qualquer um de nós estar aqui.
Fez uma pausa. O vento passou entre eles como uma presença.
— Já ouviu falar do capitão Uyrangê Soares Hollanda?
Marco franziu o cenho.
— O nome me é familiar.
— Era o chefe da Operação Prato, em 1977. — Gael se apoiou no corrimão, o olhar perdido em algum ponto invisível da noite. — Oficialmente, investigava fenômenos luminosos no Pará. Na prática, ele e sua equipe reuniram dezenas de horas de filmagens, depoimentos e relatórios sobre algo que desafiava qualquer explicação humana. Luzes que se moviam contra o vento. Feixes que deixavam queimaduras na pele das pessoas. Objetos gigantescos pairando sobre o rio.
Marco ouviu em silêncio, o olhar voltado para o chão molhado.
— E o que aconteceu com ele?
Gael soltou a fumaça devagar, como se cada palavra precisasse atravessar aquela névoa.
— Tentou expor tudo. Deu uma entrevista em 1997, dizendo que o povo tinha direito de saber o que estava acontecendo. Dias depois, apareceu morto. A versão oficial: suicídio. — Fitou Marco. — Mas você e eu sabemos como essas histórias terminam.
O silêncio que se seguiu pareceu mais denso que o ar.
— A morte dele foi o estopim — Prosseguiu Gael. — Gente começou a se reunir em sigilo: cientistas, militares aposentados, jornalistas, ufólogos. Trocaram informações, criaram fóruns, redes, pontos de contato. No início, era uma rede de curiosos. Com o tempo, virou algo maior. Era a semente do que hoje chamamos de Vigília.
Marco permaneceu imóvel, absorvendo cada palavra. O nome soava grandioso, mas havia algo melancólico por trás — como se fosse o último refúgio de pessoas que já não sabiam em quem confiar.
— Durante anos — Continuou Gael — nosso trabalho era apenas reunir evidências. Garantir que nada fosse apagado, que os casos tivessem registro. Mas, depois, começaram os rumores. Sinais vindos de dentro do próprio governo. Contratos misteriosos, empresas de fachada, aeronaves sem identificação. Foi aí que ouvimos pela primeira vez o nome “Death Star”.
Marco soltou um riso breve, sem humor.
— Parece tirado de um filme.
— Pois é. — Gael deu de ombros. — Mas as implicações são bem reais. Quando descobrimos que havia movimentações de bilhões em contratos ligados à Aeronáutica e à Embraer, sabíamos que algo estava sendo escondido. Então passamos a vigiar o próprio Estado. Hackeamos, cruzamos dados, seguimos rastros. E o que encontramos foi… perturbador.
Ele deixou o cigarro queimar até o filtro, sem perceber.
— E então, há alguns meses, recebemos um contato. Um homem de dentro.
Marco ergueu o olhar.
— Leonel Galvão.
Gael assentiu, o semblante pesado.
— O pai do garoto. Ele nos procurou com medo, mas também com culpa. Dizia que o projeto tinha ido longe demais, que havia forças militares testando armamentos experimentais para derrubar objetos não humanos. Ele queria impedir, mas já estava envolvido demais.
Marco cruzou os braços.
— E você acreditou nele?
Gael olhou para o escuro.
— Eu quis duvidar. Mas havia algo na voz dele… aquele tipo de medo que não se fabrica. Quando alguém carrega um segredo grande demais, dá pra sentir. E Leonel carregava o peso de um mundo inteiro nas costas.
Um trovão ribombou distante, seguido do relâmpago que iluminou brevemente o rosto dos dois.
— Quando alguém sabe demais nesse país você sabe o que acontece. — Murmurou Gael.
O silêncio voltou, espesso, como se cada palavra anterior tivesse aumentado a densidade do ar. Marco se abaixou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— É muita coisa pra processar. — A voz dele soou mais baixa. — Ainda estou tentando acreditar que não estou em algum tipo de pesadelo coletivo.
— Você não é o único. — Gael lançou um olhar curto. — A diferença é que alguns de nós já não conseguem mais duvidar.
O vento trouxe o cheiro da terra e da ferrugem. Um cachorro latiu ao longe, depois silêncio. Marco passou a mão pelos cabelos úmidos.
— Supondo que tudo isso seja verdade… — Soltou. — Por que fariam isso? Digo, os extraterrestres. Por que se interessariam por nós?
Gael soltou uma risada curta, sem ironia, apenas cansada.
— Essa é a pergunta que move metade das pessoas que já olharam pro céu e ficaram tempo demais pensando no que há além das nuvens.
Acendeu outro cigarro, tragou devagar e respondeu:
— Acreditamos que eles nos vigiam, Marco. Não por curiosidade, mas por precaução.
— Precaução? — Repetiu Marco, franzindo o cenho.
— Eles sabem o que somos. — Gael olhou para o vazio diante da varanda. — Uma espécie jovem, impulsiva, autodestrutiva. Passamos milênios matando uns aos outros e chamando isso de progresso. Agora temos poder suficiente pra apagar o planeta com o apertar de um botão. Imagine o que faríamos se levássemos essa mentalidade pro espaço.
Marco ficou calado. A chuva recomeçava, fina, tamborilando no corrimão de ferro.
— Eles nos observam pra garantir que nossas guerras fiquem aqui. Sempre aqui. — Continuou Gael, virando-se para Marco. — Sabe quando os relatos de OVNIs dispararam no mundo todo?
Marco balançou a cabeça.
— 1945. — Gael tragou, soltando a fumaça pela narina. — Hiroshima. Nagasaki. Desde então, toda vez que testamos uma bomba nuclear, há relatos de luzes no céu. Coincidência? Talvez. Mas, se for, é a coincidência mais insistente da história.
A mente de Marco girava. Parte dele queria rir, outra queria acreditar. Mas o que o incomodava era o tom de convicção de Gael — não o fanatismo, mas a serenidade de quem viu demais pra duvidar.
— É por isso — O jornalista continuou, com firmeza — que a Vigília existe. Pra que essas informações não desapareçam. Pra que o povo possa dormir tranquilo à noite.
Marco assentiu lentamente, sem perceber. O zumbido distante dos servidores lá dentro parecia o som de um coração elétrico.
— A verdade, Marco, é que a humanidade nunca esteve sozinha — Completou Gael. — Só que preferiu não enxergar.
Marco não respondeu. Ficou ali, observando a fumaça se dissolver sob a chuva. A sensação era a de estar ouvindo algo que mudaria para sempre a forma como via o mundo, mas não queria admitir.
A chuva engrossou de repente, e o cheiro de ozônio dominou o ar. O portão gemeu, como se o vento o empurrasse, e ambos olharam instintivamente na direção da estrada.
A escuridão se moveu.
O som de passos rápidos no cascalho rompeu o silêncio. Marco endireitou o corpo de imediato, o instinto de agente voltando como um reflexo. O portão se abriu com um rangido metálico, e a luz amarelada do refletor da garagem desenhou a silhueta de alguém atravessando o terreno sob a chuva.
Era Nicolas.
O rapaz vinha curvado, o cabelo colado à testa, a camiseta grudada no corpo, os ombros tremendo. Cada passo parecia pesar uma tonelada. Quando finalmente chegou à varanda, parou diante dos dois, ofegante, e o ar frio da madrugada transformou seu fôlego em vapor.
— Nicolas! — Marco desceu os degraus num impulso, a voz mais alta do que pretendia. — Onde diabos você estava?
O rapaz ergueu o olhar devagar. Havia algo quebrado em seu rosto — uma mistura de cansaço, medo e uma dor que parecia antiga demais para caber num corpo tão jovem. Os olhos, vermelhos e marejados, refletiam o brilho trêmulo da lâmpada sobre a varanda.
— Eu… — tentou dizer, mas a voz falhou.
Marco o alcançou em dois passos e segurou-lhe os ombros, firme, como se quisesse garantir que ele era real.
— Você sumiu por horas. — A voz saiu dura, mas o olhar era de puro alívio. — Achei que tivesse sido levado.
Nicolas baixou a cabeça, a água escorrendo pelos cabelos.
— Eu precisava pensar — Murmurou. — Depois de tudo que ouvi lá dentro, não consegui ficar parado. Nem aqui. O ar parecia pesado. Eu precisava sair… respirar.
Gael, que até então observava em silêncio, apagou o cigarro no corrimão e se aproximou um pouco, mas manteve distância respeitosa. O jornalista parecia compreender que havia algo entre os dois que não lhe pertencia.
— Pensar onde? — Perguntou Marco, o tom ainda tenso. — Você podia ter sido seguido.
O rapaz hesitou, os lábios trêmulos.
— Eu fui.
As palavras caíram como uma pedra num lago calmo. Gael e Marco trocaram um olhar rápido.
— Como assim? — Marco se aproximou mais, como se instintivamente quisesse proteger o corpo de Nicolas com o próprio. — O que aconteceu?
Nicolas respirou fundo antes de responder.
— Eu fui até a casa de uma amiga do meu pai. — Passou as mãos nos cabelos molhados, tentando organizar os pensamentos. — Verônica Roche. Ela trabalhava com ele às vezes. Achei que podia me abrigar lá, entender alguma coisa… — A voz embargou. — Mas vi um Jeep verde descendo a rua. O mesmo tipo que atacou a gente.
Ele olhou de relance para Marco, buscando confirmação, como se precisasse que alguém dissesse que não estava louco.
— Então eu corri. Peguei um táxi e voltei pra cá.
Gael ergueu uma sobrancelha.
— E como soube o caminho?
— Guardei o trajeto da vinda — Respondeu Nicolas, num meio sorriso cansado. — A memória é a única coisa que eu ainda consigo confiar.
A resposta arrancou de Marco um suspiro discreto. O garoto podia estar em frangalhos, mas ainda havia algo nele — uma centelha de lucidez, talvez teimosia — que resistia. E isso o impressionava.
O vento trouxe uma lufada gelada. Nicolas tremia. A camiseta encharcada colava-lhe à pele, revelando o contorno magro, porém definido do corpo do jovem. Marco tirou a própria jaqueta sem pensar e colocou-a sobre os ombros dele.
— Você vai acabar ficando doente. — A voz veio mais suave, quase num sussurro.
Nicolas segurou o tecido com as mãos trêmulas.
— Obrigado.
A frase era simples, mas carregava algo mais. Marco sentiu o peso da gratidão, mas também algo que não sabia nomear. Talvez fosse o olhar de Nicolas, fixo nele por tempo demais, ou o modo como o rapaz parecia se segurar naquele gesto como se fosse a última âncora.
Gael os observava com atenção, um cigarro apagado entre os dedos, o semblante grave.
— Entrem — Convidou. — Lá dentro tá mais quente.
Mas Nicolas não se moveu. Ficou parado, o olhar perdido em algum ponto da chuva.
— Muita coisa tem acontecido nos últimos dias. Está difícil lidar com tudo. Eu só queria encontrar um lugar onde eu pudesse respirar e pensar um pouco — Murmurou, a voz tremida. — Mas quando vi o Jeep de novo, eu percebi. O lugar mais seguro para mim agora é aqui.
As palavras pairaram no ar como fumaça. Marco demorou alguns segundos para responder, e quando falou, sua voz soou mais baixa do que pretendia:
— Seguro… aqui? Por quê?
Nicolas levantou o olhar, e os olhos dos dois se encontraram. Por um instante, o mundo pareceu encolher. Só havia o barulho da chuva, o vento e a respiração entrecortada deles.
— Eu não sei exatamente por quê — Respondeu o jovem, quase num sussurro. — Mas acho que em parte é por você estar aqui.
Marco desviou o olhar, tentando mascarar o súbito aperto no peito.
— Você devia entrar. — O tom era firme, mas havia uma hesitação por trás. — Vai pegar pneumonia.
— É o de menos — Respondeu Nicolas, com um sorriso triste e fraco.
— Entra — Insistiu Marco, e a voz agora soava mais como um pedido do que uma ordem.
Mas Nicolas segurou o pulso dele.
O toque foi breve, quase acidental, mas bastou. Marco congelou. O calor da pele do rapaz contrastava com o frio da chuva, e naquele instante tudo pareceu suspenso — o som da água, o vento, o tempo.
— Marco… — Começou Nicolas, hesitante. — Você acha que o que o Gael disse é verdade? Que existe mesmo esse projeto? Que o meu pai… fazia parte disso?
A pergunta soou como um lamento. Marco demorou a responder. Olhou para o chão, depois para o rapaz, e por um instante seu rosto revelou uma humanidade que raramente deixava escapar.
— Eu não sei, Nicolas. Mas eu vi o que fizeram com a casa do seu pai. Vi aquele avião, vi o fogo. Lutamos pra conseguir escapar deles. — A voz falhou levemente. — Isso é real o bastante pra mim.
Nicolas o observava como quem busca uma resposta maior do que as palavras podiam dar.
— E o resto? — insistiu. — Essa história de alienígenas, de guerra no espaço?
Marco passou a mão pelos cabelos, deixando escapar um riso breve, cansado.
— Eu já vivi tempo demais pra achar que o impossível não existe. — E, depois de uma pausa curta: — Mas, pra ser honesto, agora o que me importa é manter você vivo.
A simplicidade da frase atingiu Nicolas como um golpe surdo. O olhar dele se suavizou. Quis dizer algo — talvez um agradecimento, talvez uma confissão, mas Gael interveio:
— Vou deixá-los conversarem. — E entrou, a porta rangendo atrás dele.
O silêncio que se instalou depois era denso, quase palpável. Só o som da chuva preenchia o espaço entre os dois, uma cortina fria separando-os do resto do mundo.
Nicolas olhou para Marco, as pupilas dilatadas, o rosto ainda úmido.
— Por que você se importa tanto comigo? — Perguntou, num tom que misturava desconfiança e ternura. — Podia simplesmente me deixar e fugir. Você não me deve nada.
Marco tentou responder, mas a voz não veio. O instinto de agente dentro dele dizia que deveria manter distância, que envolvimento emocional era erro.
— Porque foi pra isso que eu fui colocado aqui — Disse enfim, procurando firmeza. — E porque, de algum jeito, eu quero cumprir essa missão direito.
— Missão. — Nicolas repetiu a palavra com amargura. — É sobre isso, não é? Missão, dever, obediência… — Ele deu um riso breve, quase um soluço. — Você fala como se fosse um robô.
Marco desviou o olhar, o maxilar travado.
— É o que eu sei fazer.
— E eu sou só mais um nome na sua lista? — Perguntou Nicolas, a voz baixa, mas ferida.
— Não. — Marco respondeu rápido demais, e isso o denunciou. — Não é isso.
O olhar de Nicolas buscou o dele, como se quisesse atravessar as defesas que ele erguera a vida inteira. Por um instante, Marco quase recuou. Talvez por causa de tudo que havia acontecido nos últimos dias, havia algo desconcertante naquele garoto — uma sinceridade brutal, sem filtros, que o fazia sentir-se nu.
Um trovão estourou acima deles, iluminando tudo num clarão branco. Marco, num impulso, segurou o rosto de Nicolas com as duas mãos.
— Escuta, Nicolas. — A voz era baixa, quase um sussurro. — Eu não vou deixar que te machuquem. Não importa quem esteja por trás disso.
Nicolas prendeu a respiração.
O tempo parou.
A chuva parecia desacelerar, as gotas caindo em câmera lenta ao redor deles. A proximidade era tão intensa que Marco sentiu o calor da pele do rapaz sob os dedos, o leve tremor de quem tenta conter algo maior que o próprio corpo. Por um instante, achou que fosse beijá-lo.
Mas não o fez.
Apenas o olhou nos olhos — demoradamente, como se quisesse guardar aquele momento — e o soltou, devagar, como quem devolve algo precioso ao mundo.
— Agora entra — Disse, virando o rosto. — Você precisa descansar.
Nicolas obedeceu, mas com passos lentos, como se cada movimento exigisse esforço. Parou por um segundo à porta, olhou para trás e disse, num fio de voz:
— Obrigado.
Marco nada respondeu. Apenas observou enquanto ele desaparecia pelo corredor escuro.
A chuva apertou. O som das gotas no telhado se misturava ao ruído distante dos ventiladores dos computadores, criando uma sinfonia melancólica. Marco encostou-se ao batente da varanda e passou as mãos no rosto. O corpo tremia, mas não de frio. Era o coração, descompassado, rebelde.
Ele confia em mim, pensou.
Mas, em vez de conforto, o pensamento lhe trouxe medo. Um medo que não sentia desde muito antes de abandonar a farda e o distintivo.
Porque confiança era algo que ele não sabia mais sustentar. E, de repente, percebeu que não estava apenas protegendo Nicolas. Estava, pouco a pouco, sendo desarmado por ele.
O vento soprou outra vez, espalhando o cheiro de chuva e ferrugem. Marco olhou para o horizonte, para a estrada escura, e sentiu o peso de algo que não conseguia nomear — nem queria.
Lá dentro, Nicolas parou no meio do corredor. Escutava a chuva e o ruído distante de Marco respirando na varanda. Fechou os olhos.
Havia uma confusão dentro dele, uma mistura de medo e uma ternura que doía. E naquele silêncio, entre o som da chuva e o eco das palavras de Gael, Nicolas entendeu o que era o verdadeiro vazio: não a perda, mas o que vem depois dela — quando o mundo continua, mas você ainda não sabe quem é ou o que quer.
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