Facundo liga para a Editora e avisa que irá se ausentar pelo dia em vista de uma emergência de ordem pessoal. Ele não menciona o nome de Lola e tampouco é preciso; Já não é segredo para ninguém a relação de proximidade que compartilham, assim como os sentimentos do fotógrafo pela Diretora da revista, ainda que nenhum dos dois tenham tornado público seu breve envolvimento – começo ou fim. Assim, ninguém questiona seus motivos, as notícias dos eventos passados no hospital já tendo chegado à revista uma vez que Aguirre acompanha de perto o estado de Grace, e Facundo pode dedicar-se inteiramente a procurar por Lola, embora o faça sem nenhuma sorte.

Ironicamente, como a maior parte das coisas na vida, de todas as pessoas, é Gastón quem a encontra.

Gastón, o equivalente a seu arqui-inimigo e maior rival. O cara que nunca deixou passar nenhuma oportunidade de derrubar Lola Padilla.

Até agora.

Gastón encontra Lola por acaso, sem estar procurando e sem qualquer desejo ou intenção de fazê-lo. Sua presença é imediatamente reconhecida no instante em que ele se aproxima do bar. Com os cabelos loiros em completo desalinho, uma perna longa e bem torneada exposta pela fenda da saia executiva e os cotovelos apoiados sobre o balcão, Lola esvazia mais um copo de uísque, o que a julgar pelas aparências não é seu primeiro e nem será seu último. O primeiro impulso de Gastón é o de aproximar-se, mas algo no semblante de Lola o previne de fazê-lo. Seu desejo em ficar sozinha é manifestado na forma como ela ignora completamente dois homens que consecutivamente a abordam na hora que se sucede, oferecendo drinques e suas respectivas companhias.

Conhecendo Lola, Gastón espera que ela os despache abertamente, mas ela não o faz. Na verdade, ela sequer se digna a demonstrar qualquer sinal de que tenha notado a presença dos homens em questão, muito menos suas intenções. Sua atenção completamente devotada ao fundo de seu copo ora cheio, ora vazio. O primeiro homem desiste após alguns minutos direcionando sua atenção para sua próxima conquista. O segundo, no entanto, faz o tipo insistente, o que em outra situação poderia ser apenas irritante, mas na atual, tem o potencial de uma bomba-relógio.

Após ser sumariamente ignorado pela segunda vez, o homem retorna novamente e está prestes a cruzar a linha da conveniência – suas palavras agora acompanhadas por toques indesejados – quando Lola atira seu copo em sua direção. O gesto, completamente imprevisto, pega Gastón e o homem de surpresa, embora o segundo tenha reflexos suficientemente rápidos para evitar qualquer dano real. Ainda assim, isso não ameniza sua raiva que se manifesta em questão de segundos.

De seu lugar Gastón está quase se vendo obrigado a intervir quando Facundo entra no estabelecimento e imediatamente se coloca entre Lola e seu pretendente. Algumas palavras fortes são trocadas, ânimos exaltados se fazem presentes. Gastón está certo de que a situação seria pior se Lola não estivesse tão completamente bêbada – afinal, ele melhor do que ninguém conhece a potência de seu gancho direito. Porém Facundo consegue contornar a situação habilidosamente, e não demora a que ele saia levando Lola consigo, mas não sem antes lançar um olhar da direção de Gastón e lhe oferecer um leve meneio em sinal de agradecimento pela mensagem que lhe foi enviada mais cedo.

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Para Facundo logo fica evidente que o cara no bar era o menor de seus problemas. Ao colocar os pés do lado de fora do clube, Lola parece enfim dar-se conta do que está acontecendo e, sobretudo, de suas intenções.

"Me larga!" Ela ordena com hostilidade e a voz arrastada, enquanto tenta escapar ao alcance de Facundo. "O que você pensa que tá fazendo?"

"Lola, eu estou aqui como seu amigo, como alguém que se importa com você." Facundo afirma com sinceridade, as duas mãos erguidas em sinal de rendição enquanto ele argumenta. "Tudo o que eu quero é me certificar de que você está bem."

"Amigo?" Lola responde com uma risada que começa irônica e termina amarga. "Desde quando você e eu somos amigos, Facundo? Desde nunca eu te digo! Fomos quase qualquer outra coisa, mas então nem isso porque você não quer estar com alguém como eu. Porque você escolheu assim. Então, amigos? Eu acho que não."

"Lola..." Ele tenta replicar, mas Lola o corta.

"Eu tenho apenas uma amiga. Uma única pessoa no mundo inteiro com quem eu sempre pude contar. Que sempre esteve do meu lado. Que não fugiu quando as coisas ficaram difíceis de entender ou de lidar. Seu nome é Graciela e a última vez em que eu a vi foi exatamente há 19 dias quando ela me preparou uma xícara de café de manhã que eu tomei em um gole só porque estava atrasado pro trabalho. Ela queria me falar sobre seus problemas, algo que a estava incomodando e eu, como sempre, estava ocupado demais para ouvir o que ela tinha à dizer, para ouvir problemas que não fossem os meus."

A raiva de Lola parece diluir aos poucos em sua tristeza. Facundo espera, dando-lhe a chance de desabafar.

"Dia após dia eu passo sentada ao lado dela naquele quarto de hospital, odiando cada minuto e esperando que ela abra os olhos para que eu tenha minha amiga de volta, porque aquela mulher que deitada naquela cama, rodeada por tubos e máquinas, aquela mulher me é uma completa estranha. Mas é também a única pessoa que me resta no mundo."

Facundo escuta as palavras de Lola contendo o ímpeto de se aproximar. A raiva e a amargura contida em suas palavras não são capazes de mascarar sua fragilidade e ver Lola nesse estado é, para ele, devastador.

"Lola, por favor, vamos pegar um táxi. Me deixa te levar pra casa." Ele suplica com olhos imensos e dá um passo à frente buscando diminuir a distância entre os dois.

"Que casa Facundo? Que casa? Você não entende? Desde que Grace se foi eu não tenho casa. Eu não tenho mais ninguém. Eu não tenho nem mesmo o meu corpo! Eu sou uma expatriada!" Ela grita tentando se desvencilhar de seus braços mais uma vez, mas acaba perdendo o equilíbrio sobre o salto alto e cai no chão, levando Facundo consigo. "Ai, ai!"

"Lola? Lola, você tá bem?" Facundo pergunta preocupado, sem dar qualquer atenção ao fato de também estar no chão. Lola não responde imediatamente, a súbita proximidade de Facundo e o elevado nível de álcool em sua corrente sanguínea, revelando-se uma mistura não recomendável.

Os cabelos lhe caem em desalinho diante dos olhos, como uma cortina por entre a qual Lola se permite observar Facundo. Os olhos dele também acompanham ao menor de seus movimentos, e a respiração de ambos se faz carregada e ofegante, embora não haja qualquer movimento por nenhuma das partes.

"O que a gravidade tem contra nós?" Lola pergunta sem lhe tirar os olhos, fazendo menção ao primeiro encontro dos dois, quando apesar das circunstâncias completamente diversas, encontraram-se os dois em posição semelhante.

A lembrança coloca um sorriso no rosto de Facundo, afastando por um momento a nuvem sombria que os vem acompanhando até então. Mas, tão rápido quanto surge, o encantamento é desfeito. Rendendo-se aos seus impulsos, Facundo acaricia seu rosto suavemente e seu simples toque, em um gesto de conforto e carinho, é o suficiente para desencadear as emoções que Lola mal conseguiu conter até então. Uma lágrima escapa, sorrateira, e Facundo imediatamente a seca com seu polegar, o rosto de Lola ainda entre suas mãos enquanto seus olhos refletem sem qualquer disfarce tudo o que ele sente por ela.

Temendo que a intensidade de sentimentos que ele não é capaz de conter provoque mais estrago do que conforto, Facundo tem a intenção de recolher sua mão e se afastar mais uma vez, mas antes que ele possa recuar, Lola coloca a mão sobre a sua, insistindo em sua permanência mesmo que apenas por alguns instantes. Ela fecha os olhos para melhor desfrutar de seu toque e o processo não ocorre sem que outras lágrimas igualmente mornas e salgadas também escapem. A vontade de Facundo e conter a cada uma com seus lábios, mas ele se detém, contentando-se em afastar as mechas loiras de seu rosto com suavidade. Lola abre os olhos então e a tristeza que transborda de seu olhar é o suficiente para que Facundo a acolha em seus braços.

“E agora Facu? O que eu faço agora?” A voz de Lola chega abafada aos seus ouvidos e ele sente o ar quente que escapa da boca dela atravessando o tecido de sua camisa ao encontro de sua pele. Mas mesmo com toda a vontade que ele tem de tranquilizá-la e dizer que tudo vai ficar bem, a verdade é que ele não tem as respostas que ela procura.

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Continua...