Os dois, juntos, pegam um táxi. O rosto de Lola escondido em seu pescoço enquanto suas lágrimas ensopam a camisa de Facundo. Ele a leva para sua casa e no caminho ela adormece em seus braços, rendendo-se a exaustão física e emocional que sente.

Ao chegar ao seu destino, é com surpreendente facilidade que ele a ergue em seus braços e a carrega até seu próprio quarto, depositando-a cuidadosamente sobre sua cama. Se Lola faz qualquer objeção ele não sabe, ela não acorda. Ao invés disso, com um suspiro ela deixa escapar uma fala remotamente inteligível antes de lhe dar às costas, enterrando o rosto em seu travesseiro. Minutos se passam em que ele permanece sentado ao seu lado, ainda preocupado com seu estado embora o coração bata mais leve e mais tranquilo apenas por tê-la perto. Facundo tira seus sapatos, a cobre com as cobertas e com uma das mãos ele afasta mais uma vez os cabelos de seu rosto. Não lhe escapa a noção de que, de todos os cenários em que imaginou Lola em sua cama, este jamais esteve em seus sonhos e devaneios.

Ao levantar os olhos, ele se depara com uma sombra junto à porta e não é preciso muito esforço para identificar seu dono como Melissa, sua filha. Com um sorriso triste ele faz um gesto para que a menina se aproxime em silêncio, o que Meli faz obedientemente.

“O que você está fazendo acordada tão tarde? Já passou e muito da sua hora de dormir.” Ele a repreende embora seu tom de voz não possua nenhum vestígio de censura.

“Eu não conseguia dormir. Estava esperando você chegar.” A menina explica também em voz baixa, aceitando o abraço oferecido pelo pai. Acariciando seus cabelos e pela primeira vez percebendo a extensão de seu próprio cansaço, Facundo fecha os olhos deixando-se confortar pela presença e a inocência de sua filha até que sua voz o traga de volta mais uma vez. “Papai, que aconteceu com a Lola?"

“Nada meu amor. Coisas de gente grande.” Ele procura tranquilizá-la sem deixar de se impressionar pela perceptividade da pequena.

“Não me parece nada.” Melissa declara teimosamente ao que Facundo sabe melhor do que insistir.

“Pois bem, você lembra de quando a mãe da Clarita, sua amiguinha da escola ficou doente?” A menina assente com seriedade. “E lembra de como a Clarita ficou muito, muito triste?”

“Sim. Ela não queria mais ir à escola, nem mesmo brincar de esconde-esconde que sempre foi a brincadeira favorita dela.” Meli reflete por um breve instante. “A mãe da Lola tá doente?”

“Não meu bem, não a mãe, mas uma amiga muito querida, muito especial. É por isso que a Lola está tão triste. E é também por isso que eu a trouxe para cá, para que a gente possa cuidar dela e estar ao seu lado nesse momento difícil, entende?” A menina assente novamente. “Então? Posso contar com sua ajuda?”

“Claro. Eu gosto muito da Lola. Quero que ela fique feliz de novo.” Melissa afirma sem hesitar, mas em seguida a pergunta que está prestes a escapar de seus lábios morre no meio do caminho. “Mas papai...”

“Sim, meu amor?” Facundo insiste, intrigado.

“O que acontece se a amiga da Lola não ficar boa?”

A pergunta de Melissa não é uma que Facundo já não tenha feito a si mesmo, embora conscientemente ele tenha a evitado à todo custo até o momento, temendo pela resposta. Embora Grace seja a única que esteja verdadeiramente correndo risco de vida, perdê-la será o mesmo que perder a Lola para sempre. E a verdade é que, embora a decisão de por um fim ao relacionamento tenha partido de Facundo, a realidade dos fatos lhe coloca de forma indisputável o medo de que isso aconteça de forma tão absoluta e definitiva, e o quão despreparado ele se encontra ao deparar-se com essa possibilidade.

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A ressaca visita Lola de manhã bem cedo, de modo que ela acorda recebida por uma latejante dor de cabeça, em uma cama que não é a sua e um quarto que não lhe pertence. Não é preciso ser um detetive para que Lola descubra onde está. Ainda que não existissem as vagas lembranças da noite anterior e as fotografias de Melissa e Facundo sobre o painel da cama, Lola imediatamente reconhece o cheiro de Facundo em meio aos lençóis. Ele, no entanto, não se encontra em nenhum lugar ao alcance de seus olhos.

Por um breve instante Lola cogita sair em sua procura ou ao menos chamar-lhe pelo nome, mas o menor de seus movimentos desencadeia uma chuva de sinos dentro de sua cabeça, forte o suficiente para demovê-la de suas intenções. Assim, Lola deita novamente, os fechados com determinação em uma vã tentativa de retornar à inconsciência; O gesto se revela um erro quando imediatamente as imagens do dia anterior inundam sua mente e tanto a presença, quanto a ausência de Grace em sua vida se fazem esmagadoras.

Com um dolorido suspiro, Lola percebe que já não lhe restam lágrimas embora a tristeza continue pesando sobre seu peito. Na solidão do quarto lhe sobe uma súbita vontade de gritar que morre em sua garganta com o mesmo ímpeto de seu nascimento, pois Lola não encontra forças nem mesmo para isso.

É assim, imobilizada pela contradição de seus sentimentos, que Melissa encontra Lola ao abrir a porta do quarto instantes mais tarde.

“Lola?” A menina a chama de leve, enquanto um feixe de claridade do dia que já começou lá fora se insinua pela brecha da porta entreaberta.

O primeiro instinto de Lola é o de se esconder sob as cobertas, simulando um profundo sono. A falta de experiência com crianças não lhe previne contra a tenacidade infantil. Com passos de pluma, Melissa entra no quarto e contorna a cama até estar frente à frente com Lola.

Mesmo com os olhos fechados, Lola é capaz de sentir o olhar da menina que analisa com intensidade o menor de seus suspiros. “Lola, acorda que eu tenho uma surpresa pra você.”

Algo nas palavras sussurradas de Melissa determina o vencedor desta batalha, ao que, resignadamente, Lola se rende abrindo os olhos.

“Olá.” A voz de Lola escapa rouca pelo esforço com o qual é expelida.

“Bom dia.” Melissa a cumprimenta com um sorriso cheio de expectativas.

“Que horas são?” Lola pergunta esfregando os olhos.

“Ainda é cedo.”

“Hmm. E cadê o seu pai?” Lola lhe oferece um pequeno sorriso embora este nem de longe lhe alcance os olhos.

“Saiu.” A menina responde com simplicidade. Lola estranha o fato, mas não se prende à ele, devotando toda sua atenção neste momento à Melissa. “Você não quer saber qual é a surpresa?”

“Eu gostaria muito. Mas não estou me sentindo bem.” Lola explica delicadamente procurando não desapontá-la.

“É a sua barriga que dói? Às vezes à minha barriga dói. O papai tem remédio pra isso.” Melissa oferece prestativa.

“Sinto muito, meu amor, mas não acho que seu pai tenha remédio pra dor que eu estou sentindo.” Lola declara com sinceridade, o cansaço pesando em suas palavras.

“Tem alguma coisa que eu possa fazer?” Melissa pergunta preocupada. Comovida, Lola lhe estende os braços.

“Um abraço apertado não cura, mas ajuda.” Satisfeita em poder ajudar, Melissa abraça Lola com força e assim as duas permanecem por um longo tempo em silêncio, até que o sono lhes preste mais uma visita.

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Continua...