Contaminados-o início. Rece of Survivors
3 Contaminados no bosque
Notas iniciais
16 de setembro, ano:2070, 10h37
Levantei de um jeito desajeitado, pois o pouco musgo da pedra fazia com que meus pés escorregassem, a rocha era quase de meu tamanho, então pude pular para alcançar o chão.
—Você tem que me avisar se for vir caçar comigo. Já é a terceira vez que fizestes isso. — eu digo.
Pelo jeito que Ky me observava, notei que para nada adiantaria minhas palavras. Ele sorriu e uma das mechas de seu cabelo despenteado se desprendeu das outras e caiu sobre sua testa.
—Não vai dar. Ainda quero ver sua carinha quando estivestes com medo. Não vai conseguir escapar de mim. Não se assustou nem um pouquinho? — ele pergunta enquanto se aproxima.
—Já te disseram que és irritante?
—E já te disseram que és linda?
Acho que fiquei vermelha na hora, não esperava isso vindo dele.
—Acho que você não me entendeu, sabia que existe um horário para tudo? Você não avisou que viria e ainda chega agora! Sabe como isso é perigoso? Ou se esqueceu de que o caminho para o Bosque é proibido? Poderia ter acontecido alguma coisa contigo.
—Olha só! A Raposinha se preocupando comigo? que incrível, pensei que só eu tinha um coração por aqui. — ele disse quando abaixou meu capuz sobre os olhos, bloqueando minha visão.
Soltei o arco e a aljava para arrumar a touca, ele realmente conseguia me tirar do sério.
—Olha aqui seu... — fui interrompida pelos dedos gelados de Ky que tiraram o capuz dos meus olhos, dando visão para os seus, que estavam muito próximos agora, grandes olhos verdes e levemente orientais, como grande parte das pessoas de onde moramos, um sorriso quase imperceptível surgiu no canto da sua boca, não sei o motivo, mas dois segundos se passaram e seus lábios tocaram os meus gentilmente, sentia sua respiração gelada fazendo cócegas em meu rosto, de maneira delicada e sutil.
Mas antes que eu conseguisse me separar dele, um ruído despertou minha atenção. Tirei minha arma do cinto e apontei para trás de Ky. Atirei duas vezes até um homem cair no chão. Morto.
—Kylie ! —Berrou Ky— O que você fez !?
O homem estava imóvel no chão, mesmo assim, fomos ver se ele estava vivo. Chegamos perto, uma mancha vermelha e pegajosa escorria pelo furo em sua cabeça, e vimos que o outro tiro acertou em baixo da garganta. Já estava morto.
—Acho melhor voltarmos para casa, não vai ser muito bom se nos encontrarem aqui com ele.— eu disse, já dando alguns paços para trás, a última coisa que eu iria querer é que alguém descobrisse que atirei em um homem.
—Espera. Olha só isso — Disse Ky,apontando para a barriga do cadáver sem camisa— É um contaminado.
Aproximei-me para observar melhor, logo percebi que se tratava de um cadáver de homem velho e gordo, ele realmente era muito pálido para estar saudável, era muito pálido para estar vivo. Na barriga, já havia sinais da Contaminação, as veias, grossas e arroxeadas, pareciam estar saltando da pele morta, que já manifestava sintomas da decomposição.
—Era, você quer dizer.
— Pois é.
Agora eu sabia que os boatos eram verdade. Mas o que mais me preocupava era o fato de que o bosque era o único lugar que ela poderia caçar sem nenhum agente da Central por perto. Caçar era ilegal, e eu sabia disso. Caso fosse pega caçando, poderia conseguir pena de morte ou esquartejamento no meio da praça.
O jeito seria arriscar. Caçar ali mesmo. Com o risco de se tornar um deles, mordida por um contaminado, arriscaria tudo para minha irmã e minha mãe, terem o que comer na manha seguinte.
*
Olho para cima e vejo um pássaro cinza igual ao que eu tinha visto de manhã, voando sobre nossas cabeças. Sentia que ele estava nos seguindo pelo caminho de volta para casa, poderia ser apenas minha imaginação, mas o modo como ele seguia o mesmo caminho que nós parecia diferente.
—O que você acha daquele pássaro? —perguntei apontando para trás de nós, onde o pássaro estava agora que havia descido no chão e continuava a andar pelo caminho.
— O que tem? É um Anzol, não podemos mata-lo, só os seus ovos são comestíveis, não se lembra?
—Não é isso, eu vi um muito parecido com esse quando cheguei ao Bosque, parece que ele está nos seguindo.
—Seguindo? Acho que não. Existem muitos anzóis por aqui, esse é apenas mais um.
Pode ser que a minha imaginação talvez esteja ativa hoje, um pássaro não teria motivo para nos seguir, os Anzóis comem frutas e restos de peixe, nós só temos carne aqui, balancei minha cabeça a fim de focar a minha atenção apenas na estrada e no caminho de volta para casa.
— O que acha de pararmos um pouco? —ouço a voz de Ky, ele para de andar e olha para mim— para beber alguma coisa.
Olho em volta, se virarmos nessa rua, iremos passar pela Praça da Forca, onde funciona o maior —e mais pobre — centro comercial de onde moramos, na verdade, acho que é um dos únicos que estão em funcionamento. O nome de Praça da Forca foi dado pelo histórico do lugar. A Praça da Forca é um amontoado de pequenas lojas e pontos de comércio, isso tudo está em forma circular ao redor de um pequeno palco construído no centro, que é usado pela presidenta nos dias de discursos ou nas noites em que alguém é condenado a forca.
—Não sei, podemos nos atrasar.
—Não vamos nos atrasar, sua mãe não vai chegar mais tarde hoje?
—Sim. Quem te disse?
—Eu falei com a sua irmã. — ele respondeu enquanto andava em direção a rua e me puxava pelo braço.
—Muito bem, o que você vai querer?
—Não sei, escolhe você.
—Podemos passar na loja da senhora que vende frango, ela faz uma ótima sopa.
—Sopa?Tem certeza?
—Você pediu para eu escolher.
—É para sua irmã?
—É sim. Se quiser outra coisa...
—Tudo bem, eu já estou ficando com fome também, vamos.
Paramos em frente à loja. Bem, na verdade não sei se posso chamar aquilo de loja, era feita de alguns tijolos empilhados entre uma sapataria e uma pequena loja de doces, sustentava um pedaço de madeira que servia de telhado com quatro pedaços de bambu e dentro da pequena barraca, estava uma tábua de madeira gasta coberta com uma toalha limpa para servir de balcão, nos fundos, haviam algumas gaiolas enferrujadas, onde ela trazia as suas galinhas todos os dias. Uma cortina feita de toalha colorida separava a barraquinha em duas partes, de modo que não conseguíamos ver os fundos do pequeno lugar.
—Bom dia, crianças. — disse uma voz por traz da toalha.
—Bom dia. —Ky respondeu. —a senhora está...
—Vão querer comprar sopa?—ela o interrompeu puxando o pano, fazendo com que nós conseguíssemos observar a portadora da voz e todo o local, que não tinha muito mais de cinco metros quadrados ocupados por um pequeno fogão de quatro bocas, duas panelas gigantes e alguns sacos de pano colorido jogados nos cantos.
— É... É sopa que a senhora vende, não é?—eu perguntei observando os trajes da senhora, ela era muito mais baixa que eu, aparentava uns quarenta anos e usava roupas coloridas como de uma cigana, a sua camiseta era verde com desenhos em branco e sem mangas, ela usava uma saia de babados vermelhos e pretos com pequenas medalhas douradas que pendiam nas bordas do tecido, além disso, usava algumas flores vermelhas no cabelo e pulseiras douradas nos dois pulsos.
—Sopa e galinhas, não estão vendo? —ela disse apontando para as gaiolas no fundo do barraco. — Diga olá para as visitas, Briana, vamos. —ela diz para uma das galinhas. —desculpe a Briana, ela anda meio triste esses dias.
—Tudo bem... Vamos querer quatro porções de sopa para levar para casa— Ky disse.
—Quatro? Para levarem? Só um minuto. — ela disse enquanto se afastava e fechava a cortina de toalha atrás de si.
—Ela bate bem da cabeça?—eu ouço o sussurro de Ky.
—Não sei. Que medo.
Voltamos para casa com duas sacolas para carregar as vasilhas com a sopa. Olho para o céu nublado e imagino que logo, logo podemos nos molhar com a chuva que está vindo, faltando uma quadra para chegarmos, algumas gotas de água começam a cair e logo se transformam em uma chuva forte, sem muitas despedidas, cada um corre para um lado e entra na própria casa, antes de fechar a porta, olho para fora e vejo do outro lado da rua o garoto de roupas molhadas subir as escadas e parar antes de fechar a porta, um breve sorriso acompanhado por um aceno, e as portas se fecham, deixando a chuva do lado de fora.
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