Notas iniciais
Oi, oi!, como estão ? Queria que soubessem que eu vou voltar a postar normalmente sem interrupções tão longas agora, espero que curtam o capítulo.

Agora que descobri como voar, que caminho eu devo seguir noite adentro?
Rio de meus pensamentos, minha imaginação infantil. Pessoas nunca voam, não podem voar, embora, no tempo dos antigos, existissem histórias daquelas que podiam.
Já vi quadros delas. Asas de penas brancas, cachos dourados, círculos brilhantes sobre as cabeças, não há mais quem acredite em histórias com essas criaturas divinas, eu bem que gostaria de conhecer alguma dessas histórias, mas não seria possível, esse tipo de coisa é proibida desde muitos anos.

Era cedo, Ky me acompanhava pelo Bosque em uma caçada noturna, a neve ainda estava sob o solo seco do inverno.
Meu pai sempre me levava para colher frutinhas no Bosque, ainda me lembro da brisa fresca da primavera, das cores quentes do outono, e foi assim que aprendi que algumas regras impostas pela Central foram feitas para serem quebradas, a culpa não é minha se fazem leis tão estupidamente idiotas.


— Acho melhor levarmos umas amoras para Zia.

— Por mim tudo bem. — ele respondeu enquanto arrancava uma flor que crescia em um ponto onde não havia neve. Enquanto andávamos até onde crescia os pés de amora, minha mente viajava nos detalhes ao meu redor, as folhas secas no chão, os poucos pássaros que cantavam, o céu salpicado por nuvens cinzas, passo a observar os olhos de Ky que brilhavam em um verde quase azul que se encontrava em perfeita harmonia com a cor marrom clara de seu cabelo combinava e sua pele clara, sua camisa se moldava perfeitamente em seu corpo forte, mas então percebo o que estou fazendo e desvio o olhar para o chão, ele era meu amigo, não deveria estar olhando para ele daquela forma.

Continuamos nossa caminhada, olho para o rosto de Ky, ele está olhando para o céu com aquele sorriso na cara.


— O que foi? —perguntei.


— Não se lembra?


— Lembro de que?


— Do que aconteceu aqui.


Sorri ao entender o que ele queria dizer.


Já havia passado por ali algumas vezes, mas certo dia um gato selvagem começou a me seguir. Eu acabei tendo que mata-lo porque ele assustava minha caça. Ele até que era boa companhia, mas consegui vender sua pele por um bom preço na Praça da Forca

.
—Perdi dois coelhos e um esquilo por conta daquele bicho.


—Mas era engraçado o jeito que ele te seguia


— Tanto faz, só sei que consegui comprar comida para uns quatro dias com aquela pele.


— Você é muito insensível.


— Não, você é que é frouxo.


— Sou é ? —disse Ky, enquanto me olhava com um olhar desafiador, assim que percebi o que havia dito, comecei a dar alguns passos para trás, mas não fui rápida o suficiente, ele segurou um de meus pulsos e me puxou para si, por mais que eu tentasse me libertar não adiantava, ele me segurou nos braços e me levantou, mesmo com meus chutes e tentativas de tapas para ele parar.

— Não! Para com isso! — mas tudo que conseguia era arrancar-lhe risadas.

— Quem é o frouxo agora ?


— Chega Ky! — eu pedia entre risadas.

—Não mesmo, vamos ver o que o frouxo aqui pode fazer.

—Não, para! já chega! —eu dizia. Por mais que eu tentasse, não conseguia falar sem rir.

— Tudo bem, a raposinha já sofreu o bastante — ele disse enquanto me deixava deitada aos pés de uma árvore.


Assim que me sentei, a risada se transformou em apenas um sorriso, ele me devolve minha touca, nem havia percebido quando tinha caído de minha cabeça, ele se sentou ao meu lado antes de dar um longo suspiro e encostar a cabeça no tronco, faço o mesmo e ficamos assim por alguns segundos até que sua voz interrompe a linha de meu pensamento.

—Kylie?

—Oi?—eu respondo ao olhar para ele, seu rosto está distante, olhando para um ponto fixo no chão, e uma ruga em sua testa mostra que está confuso.

—Sabe... Eu estive pensando...

—Pensando...Em que?

—Pensando sobre a Escolha.

—O que tem?

—Você sabe que eles levam em conta a sua capacidade física e tudo mais...

—Sim, eu sei, qual o problema?

—Eu estou meio preocupado, no último dia de treinamento na ARS, o treinador mencionou uma lista de quais seriam provavelmente os melhores... melhores alguma coisa, eu não me lembro direito, é que eu...

—Está com medo de ter chamado a atenção do treinador da sua sala?

Ele solta um longo suspiro e olha para mim com um olhar cansado.

—Talvez...

Olhei para ele e pensei no que ele disse, ARS é uma sigla usada para nomear o local onde os agentes da Central monitoram o condicionamento físico dos jovens. Todos os que tem idade para participar da Rece of Survivors tem um dia da semana em que ficam das seis horas da manhã às seis horas da tarde, duas horas são para treinamento e o resto do tempo é usado para exames e atividades diferentes.

—Sabe... acho que não precisamos nos preocupar com isso agora, não acho que você será um dos Escolhidos, eles tem muitos outros para escolherem e acredito que não será o melhor entre eles.

—Obrigada— foi tudo o que ele disse, acompanhado por um breve sorriso, mas eu sabia que ele não deixaria de se preocupar completamente, ele voltou a encostar a cabeça na árvore e eu ouvia sua respiração enquanto olhava para o céu.

Eu volto a olhar para ele, seus olhos estavam fechados e uma linha fina e curvada desenhava um leve sorriso em seu rosto branco, ele percebeu que eu o observava, abriu os olhos e ficou me encarando com um ar de interrogação no rosto.

—O que foi? — ele finalmente disse.

—O que? — eu respondi.

— Nada... É que às vezes eu olho para você e você fica me encarando.

—Eu acho que faço isso com todo mundo, não é uma coisa tão estranha, eu talvez goste de... observar as pessoas e pensar nelas enquanto observo.

—Ah... e o que você pensa enquanto me observa? —Ele diz com um sorriso e um falso olhar convencido, eu me levanto rindo enquanto coloco a touca na cabeça.

—Acredite, não vai querer saber.

Ele solta uma risada de meu comentário e se levanta também.


— Acho melhor irmos caçar logo, já está tarde. — eu disse.


— Também acho.

Na volta para casa, encontramos um coelho depois da cerca, então acabamos com quatro coelhos bem gordos em minha bolsa, dois na bolsa de Ky, Também consegui derrubar um cervo pequeno com minha flecha, o machadinho de Ky cuidou do abate final. Com a venda desse cervo, teremos dinheiro para duas semanas sem caça.
Chegando em casa, Zia está mexendo em um pote, mais recheio para as tortas. Quando não está trabalhando na Central, minha mãe assa tortas para eu vender na Praça da Forca, quem faz o recheio é Zia, então nossa mãe sempre deixa uma gorjeta das tortas para ela.


— Oi Zia, chegamos.


— Oi Kylie, olá Ky!


— Oi Zia, tua mãe está?


— Ela foi buscar mais coisas para o recheio das tortas, e já volta. Pode entrar, vocês demoraram hoje, trouxeram muita coisa?


— Até que foi um bom dia de caça.—disse enquanto mostrava a bolsa para ela.


— Que bom, vão vender alguma coisa?

—Não, já vendemos o que precisava.


Nossa casa não era grande, eu e Zia dormimos no mesmo quarto que minha mãe, nós temos uma sala com uma lareira improvisada para os invernos rigorosos, e uma cozinha com uma mesa que minha mãe e Zia usam para fazer tortas, e para ajudar as pessoas que vem dos campos e precisam de algum cuidado médico, já que os únicos médicos que atendem quem vem dessa região, acabam por cobrar muito caro e ninguém tem muito dinheiro para nada, muitas pessoas trabalham no campo, e sempre que aparece algum ferido ou um doente que não tem como se cuidar elas o ajudam.


Minha mãe chega com uma sacola em uma mão e uma cesta em outra, os seus cabelos ruivos estão bagunçados e presos para trás, diferente de mim, os dela são bem escuros e se assemelham ao marrom, sua pele é bem branca, mas não tão pálida quanto a minha, já meu pai, tinha cabelos escuros como os de meu irmão Xander, e sua pele era branca também. Embora eu não fique muito tempo em casa, minha pele é bem pálida, pois o bosque em que eu caço, é escuro por conta das árvores muito altas.


—Oi mãe — Cumprimentou Zia. Zia era a mais moreninha da família, seus olhos cor de mel eram o que me fazia lembrar meu pai, seus cabelos também eram escuros como a noite, e me faziam lembrar de Xander.


—Oi filha, e oi para vocês dois também, qual o motivo de estarem atrasados hoje? Eu já havia me cansado de esperar.


—Fomos buscar amoras, elas ficam em uma parte mais longe do Bosque.


— Também conseguimos pegar um cervo, que já vendemos na Praça da Forca por um bom preço —Ky disse balançando o saquinho cheio de moedas.


— Ótimo, você pode colocar o dinheiro em cima do balcão querido?


—Ky corou um pouquinho quando minha mãe o chamou de "querido", mas fez o que ela havia lhe pedido.

Sua família não ela tão pobre quanto a nossa, por isso combinamos que o dinheiro das caças grandes ficaria conosco, e quando fosse algo muito grande, dividiríamos tudo. Os pais dele eram amigos da minha mãe, como nós, eles também perderam o membro mais novo da família, a irmãzinha do Ky, que se chamava Sofy, e tinha apenas sete anos quando foi contaminada, ela morreu depois de um dia bem triste, eletrocutada pelas armas dos agentes da Central.

Notas finais
O que acharam do capítulo? Não ficou meio sem graça? Mas não vai continuar assim, pode deixar. Comentem o que acharam ok?