Contaminados-o início. Rece of Survivors
5 A Escolha
Notas iniciais
20 de setembro, ano: 2070, 05h12
Acordo com os gritos de pavor de alguém, eu olho em volta ofegante e percebo que esse alguém sou eu mesma. Mais pesadelos. A noite está fria e Zia não está no quarto. Talvez esteja na cozinha, é para lá que ela vai quando não consegue dormir, também deve ter tido pesadelos. É claro. Hoje é o dia da Escolha.
Escorrego meus pés da cama e ando na direção da cozinha, quando começo ouvir gemidos bem baixinhos vindos de lá, encontro minha irmã sentada em uma cadeira, chorando com a cabeça sobre a mesa, me aproximo devagar para não assusta-la.
—Acorda Zia. — digo enquanto passo a minha mão em sua cabeça.
Ela acorda entre soluços e me abraça com força.
—E-ra... Eu— diz ela, entre lágrimas que não param de rolar sobre seu rosto frio.
—Não era não, não precisa chorar.
—Eu nã-o quero i-ir—soluça enquanto me aperta mais ainda.
—Calma, calma, era só um pesadelo, você não vai para lá. Agora seque essas lágrimas, e vamos para a cama que ainda temos tempo para dormir.
Ela concorda com a cabeça e solta a minha cintura, depois de alguns últimos soluços, ela volta pelo corredor até o quarto. Espero até cessar o som de pés descalços batendo contra a madeira do chão e permito meu corpo se desmontar na cadeira onde ela estava há pouco tempo, eu sei que fui eu quem disse tudo aquilo, que ela não precisa se preocupar que vai ficar tudo bem, dei as minhas palavras para que ela se acalmasse, mas agora que ela as levou junto consigo, quem precisa daquelas palavras sou eu.
Para os jovens, a Escolha é o dia menos esperado do ano. Todo dia 20 de setembro a Central escolhe duas meninas ou meninos para que possam lutar contra os contaminados da floresta. E tudo isso é filmado e mostrado na TV. A presidenta diz ser uma forma de honrar quem se foi antes de nós, uma forma de intimidar os rebeldes, mostrar que não se pode viver além das fronteiras sem a ajuda da Sociedade, na verdade, esse é um termo usado só por ela e por alguns governantes locais, de acordo com eles, a nova forma de governo criada pela presidenta e alguns colaboradores deve ser chamada de “Sociedade”, uma palavra que já existia usada agora para dar nome a uma capitalização modernizada, nome muito criativo. Para mim e para gente da mesma classe que eu, não existe Sociedade protetora, não existe igualdade de direitos por aqui, muito menos honra aos que se foram.
Mesmo os filhos das pessoas que trabalham na Central podem ser escolhidos, por isso, eu e Zia também podemos ser um dos Escolhidos.
Minha mãe trabalha no D. A. C, Departamento de Análise de Contaminados, ela pesquisa formas para criar uma cura para Contaminação, ela nunca disse, mas eu sei que ela só diz gostar do trabalho pois ainda carrega em suas costas a esperança de salvar meu irmão Xander e meu pai da Contaminação, afinal, pelo que eu sei, ao serem contaminados, seus corpos foram recolhidos e guardados nos Arquivos, nunca conheci alguém que já tenha entrado nos Arquivos, a única coisa que se sabe é que ele fica em um departamento subterrâneo na Central.
Coloco minhas botas de cano curto e meu uniforme da Escolha, todos nós temos uniformes desde os onze anos, até os dezoito. As meninas devem estar com o cabelo preso de alguma forma, com calça marrom, e colete verde escuro e camisa branca por baixo. O colete tem o símbolo de nosso país, Harmon bordada no peito, em dourado, uma coisa desnecessária se você só pode utilizar este uniforme aqui.
Faço uma trança de lado, feita com uma trança menor no meio.
Zia também faz tranças, uma de cada lado, bem fininhas, deixando o resto do cabelo solto. Ela prende as duas pontas das tranças juntas atrás da cabeça, e acaba com uma flor branca entre as tranças.
Minha mãe colocou o seu vestido, da época em que ela trabalhava na coleta de grãos, ele é azul bem claro, e seu comprimento é até abaixo do joelho.
Chegamos ao centro da cidade, onde foi montado um palco com uma pirâmide de vidro no centro, é nesta pirâmide que estão os nossos nomes. O primeiro escolhido é literalmente "escolhido" pela presidenta, e o Conselho, só para manter a tradição, os monitores de cada escola ficam o ano inteiro monitorando nossas notas em educação física e defesa pessoal, para saber se você é bom para ser escolhido.
Mas o segundo nome, eles sorteiam na pirâmide.
Chegou a hora.
Estamos na multidão perto do palco. O Conselho está reunido atrás de uma mesa longa ao fundo do palco. Sra. Hellen aparece com seu vestido colado e seu cabelo preso em um rabo de cavalo cinza. Ela deve ter mais de quarenta anos, mas se veste como garotas de quinze dos antigos.
—Sejam todos bem vindos, vamos começar nossa décima primeira Escolha, com o sorteio anual dos Escolhidos.
E então, ela coloca a mão dentro da pirâmide e meche nos pedacinhos de papel. Até um homem do Conselho levantar e parar ao seu lado.
— E o próximo escolhido de Harmon é... —diz a senhora Hellen enquanto retira o papel do pequeno envelope—... Clovy Vallentyn.
Gelei. Vallentyn... Eu conhecia muito bem esse nome.
Todos começam a olhar em volta, seus olhares vacilam entre curiosidade e preocupação enquanto observavam, um corpinho magro e pequeno se move abrindo espaço em meio à multidão, mãos pequenas e delicadas ajeitam o colete enquanto se move em passos pequenos e vacilantes até o palco.
— NÃO! —grita uma voz masculina vinda do meio da multidão. —Clovy, para!
Então a voz vinha de Ky Vallentyn, que gritava para que sua irmã parasse de caminhar.
Os agentes da Central seguraram Ky enquanto ele se debatia, fiquei paralisada, um dos agentes deu um soco em sua costela, e ele cai de joelhos no chão.
— Calma garoto— diz a sra. Hellen — fique calmo e venha até aqui.
Nesse momento pude ver que Ky estava vermelho. Ele se soltou dos guardas e caminhou até o palco.
— Qual seria seu nome?
— Ky. Ky Vallentyn.
— Suponho que sejam irmãos.
— Sim senhora— diz Ky com um tom de ironia na voz, que ela ignorou.
— Deve saber que não é permitido que alguém interrompa a Escolha de forma alguma.
— Eu tenho um motivo para interromper.
— Pois então diga para nós.
— Minha irmã não vai ser a Escolhida desse ano...
Antes que Ky pudesse terminar, um dos homens do conselho se levantou e caminhou em passos largos e ágeis até o centro do palco, seu rosto refletia completamente a raiva que pairava sobre ele.
— Isso é um absurdo. Interromper a Escolha não é permitido sob nenhum custo, — ele dizia com sua voz rouca em tom solene e calmo, contradizendo totalmente sua expressão— Sra. Hellen, sugiro que pare de perder tempo e deixe que os seguranças cuidem do assunto.
Sra. Hellen por outro lado, não demonstrava nenhuma aversão ao ocorrido, olhou para o senhor ao seu lado e com um sinal discreto o mandou sentar.
— Senhor Ky, me adianto em dizer que seu pedido infelizmente não poderia ser atendido, entendo o que o senhor está sentindo no momento, é normal que...
Ok... O que ele estaria fazendo? Enlouqueceu? Interromper assuntos oficiais como a Escolha resulta em punição grave. No mínimo passaria algumas noites amarrado no meio da Praça da Forca, além de ter que cumprir com o que o treinador preparar para ele nos dias de aula.
Olho para a multidão e depois para Ky, ele está olhando fixamente para mim antes de interromper a Sra. Hellen, ele pega o microfone de sua mão sem tentar parecer mal educado, óbvio que não funcionou, ela olha para ele com um olhar de desaprovação, Ky respira fundo, olha para a multidão com o olhar sério e decidido.
— Sra. Hellen, diante de vossa presença e também dos membros do Conselho, Me apresento como Ky Vallentyn, o mais novo Escolhido de Harmon.
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