Contagem Regressiva
1 Introdução (Manuela)
Notas iniciais
Porque eu estou no meio de um mundo nada bonito
Seu jogo inteligente tirou o melhor de mim
Mas você não vai conseguir o que restou de mim
Porque eu estou na cidade dos corações partidos
(Madonna, "HeartBreakCity")
— Sério, Danilo, fazer qualquer coisa sem barulho definitivamente não é o seu forte. — Ouço Luciana reclamar baixinho, depois de ouvir a coisa mais próxima do fim do mundo possível com o jeito que a porta foi fechada.
— Desculpa, amiga, mas também não foi fácil trazer tudo o que você pediu de comida escondido pro quarto. — Espio Danilo tirando uma peruca loira e óculos escuros e colocando-os na mesinha de centro, ao lado de duas bandejas de metal fechadas.
— Só que fala baixo, a Manuela ainda tá dormindo. Não sei como você conseguiu vir lá da cozinha com duas bandejas desse tamanho até o corredor das meninas sem ninguém te perceber, do jeito que você é escandaloso.
— Ai, Lu, só peguei escondido uma dessas perucas ridículas da vaca da professora Carmen e vim. Tá certo que eu chamo atenção mesmo, mas você sabe que eu sou bom ator.
Danilo senta em um dos sofás, de costas para mim, e Luciana senta em um sofá na frente da televisão. Ninguém fala nada por alguns segundos, até que Danilo sussurra:
— Não dormi quase nada de noite. Não conseguia parar de pensar na Manu.
— Eu também não. Tentei ficar acordada até ela chegar pra saber o que aconteceu, mas acabei dormindo e quando acordei ela já tava ai.
Luciana olha para a janela por alguns momentos. As cortinas são tão claras e finas que não impedem de ver nada do dia ensolarado que está fazendo lá fora. Só uma fresta aberta da porta de correr que dá para a varanda é o suficiente para que eu possa ouvir o barulho do mar tranquilo do outro lado da rua e pássaros cantando. Acho que todos da nossa escola ainda estão dormindo, já que não consigo ouvir tantos gritos que me façam imaginar que estou na 3ª Guerra Mundial ou algo do tipo.
— Vamos pra piscina conversar, Dan, pra não acordar a Manuela.
— Vamos, hoje ela precisa descansar mesmo. E eu combinei de encontrar o Léo lá também. — Responde Danilo, já colocando seus disfarces novamente.
— Não se preocupem, eu já estou acordada. Podem ficar aqui mesmo. — Eu finalmente levanto da cama, enrolo o cobertor no meu corpo e sento no sofá ao lado de Luciana.
— Até que enfim, né, Manuela? — Diz Luciana. — Você perdeu o café da manhã e o almoço, mas o Danilo trouxe um pouco escondido pra gente.
— Não sei o que eu seria sem o Dan. — Digo, dando risada.
— Aquele momento em que eu sou o maior traficante que você respeita. — Ele ri. — A gente tava preocupado com você, japa. Que horas você chegou aqui?
— Já era umas três da manhã, mais ou menos. O meu pai me trouxe prá cá de carro e já me mandaram direto pro quarto, mas eu demorei pra conseguir dormir. Eu estava me sentindo tão mal... Eu estava com medo, e me sentindo tão chateada por não ter vindo de ônibus com todo o mundo, conhecido o hotel com todo o mundo... Com vocês.
— Mas eu te conto que você não perdeu nada. A gente mal saiu do ônibus, já veio uma mulher que devia tar com uma vitrola entalada na garganta, de tanto que falava. Acho que ela pensou que tava falando com criança de cinco anos, porque até mandar a gente não correr no corredor ela mandou.
— Mas é que pra mim essa viagem é muito mais que só uma viagem de fim de ano com a escola, você sabe. Você sabe, quando a viagem acabar eu vou voltar pra Belo Horizonte. Ano que vem eu não vou estar mais no Colégio Rouge. Essa semana é a minha última semana com todo o mundo... Com vocês. — Sinto meus olhos se enchendo de lágrimas. Luto para não deixá-las escorrer, meus amigos não precisam me ver chorar, mas apenas uma acaba escorrendo pelo olho esquerdo. Tento secá-la o mais rápido que posso, mas então mais lágrimas começam a escorrer, e tudo o que eu posso fazer é cobrir meu rosto com as mãos.
— Amiga, não chora que se não eu choro com você. — Diz Danilo, saindo do sofá onde estava e sentando do meu lado. — Eu sei que é terrível, mas nós SEMPRE estaremos aqui pra você! Por mais que você volte pra BH... Nós sempre seremos um trio, ninguém nunca vai mudar isso. Por mais que você não esteja por perto, nosso coração sempre vai estar com você.
— E também não é como se a gente nunca mais fosse se ver na vida. — Diz Luciana. — Internet tá ai pra isso, e você pode vir passar as férias na minha casa, você sabe.
— Eu nunca vou esquecer de todas as vezes que a gente tombou as inimigas juntos, Manu. Nunca.
— Eu também não, Dan. — Digo, tentando sorrir. — Eu lembro do dia em que eu cheguei aqui como se fosse hoje. E tenho certeza de que não vou esquecer tão cedo.
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