Sinto o carro parando lentamente. O barulho do trânsito acaba de um segundo para o outro, e dá espaço a sons de pássaros cantando tranquilamente no que parece ser um dia ensolarado, com poucas nuvens muito claras no céu que, justamente hoje, deve estar azul de uma forma sem igual. Mesmo assim, continuo com os olhos fechados, desta vez bem mais apertados que antes, agarro o meu travesseiro rosa e continuo fingindo que estou dormindo. O que eu mais queria nesse momento era acordar de repente e descobrir que tudo não passou de um sonho. Mas, sem querer parecer clichê, é a mais pura realidade.

Ouço as duas portas da frente abrindo e fechando logo em seguida, enquanto minha mãe continua passando as mãos pelo meu cabelo. Do lado de fora, meu pai fala sobre alguma coisa sem importância com o taxista. Eles dão risada, meu pai parece estar tendo um dia como outro qualquer. Não me lembro de ter visto ele triste muitas vezes, ele costuma ser uma pessoa bastante otimista. Mas, honestamente, eu não consigo encontrar o lado bom em ser obrigada a deixar toda a sua vida para traz...

— Manuela... — Minha mãe cochicha no meu ouvido, tentando me "acordar". — Nós já chegamos, querida.

Respiro fundo, adiando mentalmente o momento de abrir os olhos.

— Por favor... Me deixa ficar aqui só mais cinco minutos. — Peço, tomando cuidado para falar da maneira mais natural possível. A pior coisa que eu poderia fazer nesse momento seria começar a chorar.

— Tudo bem. — Responde, após pensar por alguns segundos. — Vou ajudando seu pai a tirar as malas do carro, e a gente te espera na portaria.

De qualquer modo, agora não há mais nada que eu possa fazer.

Meu pai é médico e trabalha em um hospital importante de Belo Horizonte, onde eu nasci e vivi todos os 15 anos da minha vida, até agora. Há exatamente uma semana, ele me avisou que tinha sido transferido para Curitiba, que nós iríamos nos mudar e passar dois anos inteiros aqui. Era isso, ou pagar uma multa bastante indesejável e ser demitido por quebra de contrato. Não faço ideia de quanto tempo faz que ele já sabia disso, mas não é o tipo de coisa que acontece da noite pro dia. Ele esperou para me contar o mais tarde possível, para que eu não "sofresse por antecipação" e, quando eu fiquei sabendo, descobri que tudo já tinha sido feito sem que eu desconfiasse de nada. Um apartamento já tinha sido alugado e pago pelos próximos dois anos, minha matrícula em um colégio já tinha sido feita...

Eu sinto como se tudo o que eu sou tivesse de repente congelado. Não consigo contar quantas vezes meu pai já me falou sobre como eu só tenho 15 anos, como a casa nova vai ser legal, como o tempo vai passar rápido e como tudo vai acabar bem, mas, querendo ou não, esses "só" 15 anos se passaram inteiros em Belo Horizonte. Todas as pessoas, todos os lugares e todas as memórias, de um momento para o outro, perderam o sentido.

Tiro a mão do peito, que estava sentindo meu coração bater lentamente e abro a porta. Coloco um pé de cada vez na calçada, agarro minhas coisas com os braços e dou uma olhada na fachada do prédio. O jardim por trás do muro verde é dividido em dois pelo caminho que leva até a portaria.

Enquanto vou observando os elementos de um dia caloroso e sorridente, percebo que alguma coisa pousou tranquilamente no meu dedo. É uma borboleta branca que repousa, com as asas bem abertas, em meu indicador. Definitivamente, não estou com paciência para borboletas hoje. Assopro ela e a vejo voando, fraca, até uma árvore da rua.

Abro o portão do prédio, bem mais pesado do que eu imaginava, e preciso criar coragem para dar cada passo que me leva até a portaria, toda decorada em tons de vermelho e marrom, quadros de paisagem nas paredes, vasos com flores escuras. Leio o nome do porteiro, Wesley, que está sobre sua bancada, ao lado de um jornal que meu pai pega para comentar com ele algo sobre futebol. Minha mãe está segurando uma mala preta enquanto conversa com uma mulher baixinha, de mais ou menos 50 anos, que usa uma blusa azul e o cabelo curto muito desarrumado. Ela imediatamente percebe minha chegada e diz:

— Nossa, Dona Patrícia! É essa a sua filha? Que menina mais linda. Como é o seu nome mesmo?

Fico parada, distante das duas, enquanto todos esperam uma resposta. Tento esconder minhas emoções o máximo possível, de forma que talvez até pareça que estou entediada. Notando que não vou responder, minha mãe tenta disfarçar:

— Você demorou pra chegar, filha. Manuela, essa é a Mara, ela trabalha com a nossa vizinha do 502, a Dona Joana.

— Muito prazer, querida. — Ela estende a mão para que eu aperte, mas mesmo assim continuo sem mover um único músculo. Envergonhada, ela coloca a mão no bolso e continua falando. — Bem... Eu acho que preciso ir subindo, se não a Dona Joana vai me matar. Não esquece, viu, qualquer coisa pode me chamar que eu dou um jeito! A gente se vê.

A mulher sobe no elevador da esquerda, que já estava no andar. Minha mãe me lança um olhar de reprovação, e me apresenta ao porteiro.

— Manuela, esse é o Wesley, ele é o...

— Escuta, eu não me importo. — Digo friamente, interrompendo-a. — Será que já posso subir? Eu estou muito cansada.

Minha mãe fica sem reação por algum tempo, impressionada com o que eu disse. Até eu mesma estou, já que nunca ousei algo desse tipo. Gaguejando, ela responde devagar:

— Pode... Claro, pode. Pega a chave com o seu pai, a gente sobe em 10 minutos. Não esquece, é o apartamento 504, 5º andar.

— Tá bom.

Um silêncio fúnebre se instaura até eu entrar no elevador da direita, que demora cerca de um minuto para chegar. Já no 5º andar, abro a porta do apartamento, quase derrubando meu travesseiro e o cobertor, e sem pensar muito me jogo no sofá da sala. Fico feliz, neste momento, por meu pai ter alugado um apartamento já mobiliado. Fecho os olhos, e começo a imaginar o que algumas pessoas estão fazendo nesse exato momento...

Sem demorar, quase prevendo meus pensamentos, recebo uma mensagem no meu celular e imediatamente começo a chorar. É do Matheus, meu namorado.