Eu conheci o Matheus ano passado, na escola. Ele é alto, tem o cabelo castanho e é bastante magro. Os olhos escuros se parecem um pouco com os meus, mas sua pele é bem mais bronzeada que a minha. Nós começamos a namorar bem pouco tempo depois de nos conhecermos. Eu tinha 14 anos, ele já tinha 15; eu nunca namorei ninguém antes dele, ele já tinha ficado com algumas meninas.

O Matheus era bastante paquerador, e muitas pessoas eram afim dele. A Karin, minha melhor amiga, vivia me avisando pra eu ficar de olho. Às vezes dava medo, parecia até que ela sabia de alguma coisa e tinha medo de falar, mas eu nunca tive motivos para desconfiar, muito pelo contrário. De qualquer modo, a última coisa que eu deveria pensar agora é nisso, então tento afastar essas ideias de pressa. Não sei o que eu faria se perdesse ele agora.

Sinto a barriga esfriando e a garganta ficando apertada. Abro a mensagem e leio:

"manuela ja chegou? me liga qnd der".

"Claro!", respondo,e aperto o botão para chamá-lo por vídeo. Ajeito a câmera enquanto espero, e tento disfarçar um pouco os olhos vermelhos e o cabelo desajeitado.

— Oi! — Ele diz, chamando minha atenção quando finalmente atende.

— Ah, oi. — Respondo, erguendo os olhos para a tela e forçando um sorriso. Só ouvir a voz dele já é reconfortante nesse momento. — Como estão as coisas ai?

— Chatonas, né? Meu pai vai trabalhar hoje e me deixou aqui sozinho com o Guilherme. Você tem sorte de não ter irmãos, não dá pra falar nada pra esse garoto que ele já começa a fazer drama... Quando começam as aulas ai?

— Semana que vem, na segunda-feira.

— Aqui já começou...

— Na segunda passada, eu sei. — Eu interrompo e completo a frase por ele. — E meu pai esperou pra me contar sobre a mudança domingo, um dia antes de começar as aulas na nossa escola, dá pra acreditar?! Quer dizer, na minha escola antiga... — Meus olhos se enchem de lágrimas ao pensar nisso.

— Desculpa perguntar, mas, sinceramente, você não desconfiou de nada antes?

— Não! É claro que depois de me contarem eu fiquei me sentindo uma otária por não ter percebido antes, nada estava sendo igual o final das férias de todos os outros anos, mas quando é que eu ia imaginar que isso podia acontecer? As coisas mudam às vezes, não? Então e achei que estava tudo bem, mas... Não estava.

— E seus pais? Como eles se sentem sobre isso?

— A minha mãe está bem triste, normal. Ela tenta ser otimista, me diz que esse tipo de coisa às vezes acontece... Já o meu pai me deixou impressionada. Parece que ele não se importa! A ideia de esperar pra me contar foi dele, sabia? Ele disse que não queria que eu me preocupasse antes do tempo, mas qual é a dúvida que ele só não queria que eu atrapalhasse? Ele vive me dizendo que é por pouco tempo, que dois anos passam rápido, que vai acabar sendo legal pra todo o mundo... Meu pai é a única pessoa que está feliz agora. E a única coisa que me deixa mais tranquila, Matheus, é imaginar que a gente pode voltar pra BH antes do fim desses dois anos. Você acha que é possível?

— Eu acho que quando a gente pode imaginar algo e acreditar nisso, por mais distante que possa parecer, é possível sim.

"Quando a gente pode imaginar algo e acreditar nisso, por mais distante que possa parecer, é possível sim", repito na minha cabeça. Não sinto sinceridade em sua voz. Por mais que eu tenha esperança, não é algo em que eu realmente acredito.

— E a casa nova, é legal?

— Ainda não tive tempo de olhar direito, mas não chega perto da metade da minha casa de verdade.

— Em tamanho?

— Em tudo! Claro, para o meu pai não vale a pena alugar uma cosia muito grande por "tão pouco tempo". Só pra você ter ideia, já está tudo mobiliado, eu estou no sofá da sala, e isto — aponto a câmera para que ele possa ver — é uma mesa de jantar. Não que eu vá morrer por causa disso, mas...

Matheus continua olhando para mim em silêncio. Após alguns segundos, escuto gritos muito altos, aparentemente vindos do andar de cima, e uma explosão indescritível. Matheus dá um salto e quase cai da cadeira onde está sentado. Seu rosto fica vermelho, parece nervoso.

— Guilherme! — Ele grita. — O que você está aprontando?! — Quando se acalma, volta a falar comigo. — O Guilherme tá lá em cima mexendo em um monte de coisa estranha que eu não sei nem o que é. Olha, Manuela, eu ando muito sem tempo.

— Ah, tudo bem, eu ligo amanhã.

— Não! Quer dizer, é que eu ando muito sem tempo mesmo, mas eu falo com você quando der.

— Puxa, sério? Vou ficar esperando.

— Vou ver o que está acontecendo antes que ele exploda a casa.

— Okay. — Digo, dando uma risadinha. — Até mais.

— Até. — Ele responde e desliga.

Ouço as vozes de meus pais de longe, mas não consigo entender o que falam. Olho pela janela que está bem do meu lado, vejo os dois no jardim, cada um carregando uma caixa de pizza. Eles entram na portaria, e em menos de dois minutos chegam no nosso apartamento.

— Manu, chegamos. — Diz meu pai. — A gente trouxe pizza.

— Estou sem fome. Vou para o quarto.

Mesmo que nunca tenha visto o apartamento pessoalmente antes, sei exatamente onde fica o quarto pelo o que já me falaram. Abro a porta e me atiro na cama, fecho os olhos e durmo.