Contagem Regressiva
4 Capítulo 3 (Danilo)
Olho para o calendário, na parede do quarto, bem em cima da escrivaninha onde deixo o computador e alguns porta-retratos. Falta uma semana para as aulas começarem. Eu ainda preciso comprar os materiais que vou precisar para este ano, então ligo para Luciana para falar sobre isso.
— Oi, Dan. — Diz ela, ao atender. — Tudo bem?
— Tudo, amiga. Tá fazendo o que?
— Ah, nada importante. Tô arrumando uma gaveta de maquiagem nova que comprei, pra usar na escola. Aliás, falta uma semana. Estou muito empolgada!
— É, eu liguei pra falar sobre isso. Eu ainda preciso comprar o material pra esse ano, e...
— Como assim, você ainda não comprou?! — Pergunta, gargalhando.
— Ainda não. Mas eu pensei que a gente podia ir no shopping, hoje.
— Acho mara. Eu também não comprei o meu, e quero ter tempo pra personalizar tudo, você sabe.
— E você sabe que vai me ajudar a personalizar meu caderno da Xuxa, né, flor?
— Credo, quando foi que você começou a chamar as pessoas de flor?!
— Como assim? Eu sempre chamei todo o mundo de flor, Lu! — Digo, dando risada.
— Então não vai mais chamar a partir de agora, porque é coisa de gente nojenta. — Ela dá risada. — Mas então eu vou me arrumar e a gente se encontra lá às cinco, certo?
— Tudo bem. Até!
— Beijos, se cuida.
* * * * *
Luciana, como sempre, está vestida para destruir qualquer invejosa de plantão. Ela entende muito de moda, tem muito estilo, e sempre usa muito vermelho, sua cor favorita. Está levando sua bolsa em uma mão e uma cesta de compras em outra. Eu estou levando apenas uma cesta de compras com a mão direita. Conversa vai, conversa vem, olho para o lado e sinto meu corpo começando a ferver, os olhos ficando esbugalhados e o queixo caindo.
— Danilo, o que aconteceu? Parece que viu fantasma!
— Fantasma, não. Vi uma praga das profundezas toda trabalhada no rosa. Olha lá!
— Ah, não. Má-line está vindo em nossa direção.
Aline, ou "Má-line", como eu mesmo apelidei, é a garota que eu mais odeio de todo o Colégio Rouge. Ela se acha muito superior à todos: acha que é a mais bonita, a mais inteligente, e ela pensa que é a pessoa mais popular da escola; mas a verdade é que todos acham ela uma cobra venenosa. Aline está carregando mais de 10 sacolas estufadas de uma loja de roupas cara, e está andando com Stefani, uma menina muito legal da nossa sala. Acho que foi a Stefani que viu a gente, e por isso está vindo na nossa direção. Eu não a vejo desde o começo das férias, então fico feliz por encontrá-la. Não posso dizer o mesmo sobre a loira que está ao seu lado.
— Olha eles! — Diz Stefani, se aproximando. Dá um abraço em mim e em Luciana e continua a falar. — Há quanto tempo.
— Verdade, a gente não se vê desde o fim das aulas.
— E eu, vocês não cumprimentam? — Pergunta Aline, em tom irônico.
— Oi, Aline. — Digo, seco, só pra não ser mal-educado.
— Tudo bem com você? — Pergunta Luciana.
— Tudo ótimo! — Ela responde. — Veio comprar os materiais da escola?
— Vim, eu e o Dan. Vou aproveitar pra personalizar tudo nessa semana, eu gosto de ter tudo no meu estilo.
— Que não é de muito bom gosto, diga-se de passagem. Sabe, eu poderia te dar umas dicas qualquer dia desses.
— Ignorar qualquer cor que não seja rosa? Dispenso.
— Bom, o único arco-íris que tem por aqui é o seu amiguinho. Não é mesmo, Dan?
— Com muito orgulho, fofíssima. — Respondo. — Acho muito melhor sentir orgulho de ser quem você é e vestir as próprias cores do que ser uma loira falsa de farmácia que nem você.
— Mas, Luciana, me conta uma coisa: você vai ajudar o Danilo a personalizar um caderno da Xuxa, como fazem todos os anos? Sabia que eu acho que vi um na sessão infantil?
— Olha ai, Lu, a quenga tá no maior deboche! Senhor, dai-me paciências pra aguentar mais um ano com essa criatura, eu nem lembrava que essa coisa existia...
— Calma, Danilo, é brincadeirinha. — Aline diz, dando risada. — Até porque a Xuxa não está mais nem famosa. Acho que ela esqueceu de renovar o pacto. De qualquer jeito, é pra deixar seus cadernos possuídos longe de mim, eu tenho medo, okay?
— Com certeza vou deixar bem longe, pra eles não pegarem essa sua energia negativa.
— Olha, Luciana, como o seu amiguinho me trata. E depois eu que sou má! Mas, mudando de assunto, você está muito elegante hoje, toda trabalhada no vermelho. Eu não sabia que existia baleia dessa cor.
— Amigo, vamos embora, que hoje o saco de lixo de peruca tá inspirado. — Luciana diz olhando para mim.
— Credo, pra que essa agressividade?! A gente tenta ajudar e é isso que recebe em troca. Você sabe, Luciana, que só não arrumou um namorado ainda porque é imensa de gorda! Eu no seu lugar...
— Eu no seu lugar parava de ficar cuidando da vida dos outros e me olhava no espelho, que até onde eu sei você também nunca teve namorado nenhum, porque é uma nojenta que ninguém suporta! Tenta controlar esse seu veneno, sua invejosa, que eu já tô ficando irritada, e ninguém aqui tem culpa se você não é feliz.
— Se eu nunca namorei ninguém é porque eu só tenho olhos para o Lucas. Quem sai por ai passando o rodo em todos os meninos que vê pela frente é o Danilo, desse jeito fica difícil competir com ele. E não fique nervosa, garota, se não seu rosto começa a ficar vermelho e vão te confundir com um pimentão tamanho família.
— A sua cara que vai ficar vermelha e é agora, sua patricinha! — É a última coisa que eu ouço antes de Luciana acertar sua bolsa na cabeça de Aline.
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