A minha casa ficava bem longe da minha escola em Belo Horizonte. Meu pai sempre me levava de carro para o colégio, antes de ir trabalhar. Aqui em Curitiba, o nosso apartamento fica tão perto da escola que seria ridículo pedir para o meu pai me trazer. Eu ainda não conheço o caminho de quase nada aqui, mas eu prefiro arriscar vir caminhando sozinha. Pelo o menos assim eu não preciso ouvir meu pai falando sobre como ele acha que eu vou amar a escola nova e sobre como tudo sempre vai dar certo o tempo todo.

Quando comecei a pensar que estava me perdendo, vi alguns adolescentes da minha idade com o mesmo uniforme vermelho que estou usando e tentei segui-los, torcendo para que eles não estivessem indo matar aula logo no primeiro dia. Mas eles não estavam, então eu cheguei aqui mais rápido do que chegaria se tivesse tentado procurar um mapa no celular ou algo do tipo. Enquanto eu ia caminhando, aos poucos percebia o silêncio de uma segunda-feira que tinha acabado de começar sendo substituído por dezenas de vozes de estudantes que mais pareciam estar entrando em uma festa do que em uma escola.

"Colégio Rouge", leio no enorme letreiro branco em cima dos portões vermelhos tão estreitos que obrigam os alunos se encolherem o máximo possível e empurrarem uns aos outros para conseguir passar.

Todas as paredes são pintadas de duas cores: a parte de cima de branco, e a parte de baixo de vermelho. Os alunos estão no pátio, esperando o horário de subir para as salas. Painéis enormes com listas de chamadas ridiculamente pequenas estão espalhados por todos os cantos, para que as pessoas saibam em que sala ficaram, mas não vejo muita gente as consultando. Acho que quase todos já sabem, então só se concentram em encontrar seus amigos e agir como se o primeiro dia de aula fosse um grande evento.

Quando finalmente encontro o painel com as listas do 2º ano, apenas um garoto loiro de olhos azuis que está usando uma pulseira de borracha rosa com a frase "I ♥ Xuxa" escrita com letras pretas e uma garota gorda e com o cabelo pintado de vermelho que está usando uma pulseira de borracha preta com a frase "I ♥ Beyoncé" escrita com letras brancas estão consultando a primeira delas, do 2ºA. Tento procurar meu nome nas outras três listas enquanto isso.

— Ah, não! — Escuto a garota reclamar para o menino que está do lado dela. — Não acredito que a Má-line tá na nossa sala.

— Você não sabia? Ela ligou pra cá semana passada e fez um escândalo pra ficar no 2ºA, só porque queria ficar na mesma sala do Lucas. Essa piranha não desiste nunca mesmo...

— E posso saber como é que você ficou sabendo disso?

— Eu tenho as minhas fontes, né, Luciana? Mas olha aqui! — Ele aponta para um dos nomes. — Pelo o menos o Léo também tá na nossa sala esse ano.

— É, pelo jeito não é só a Aline que não desiste nunca...

— Oi. — Digo baixinho, me aproximando, depois de procurar o meu nome nas outras listas e não encontrar. — Posso olhar essa lista rapidinho, se vocês não estiverem procurando mais ninguém?

— Claro! — O menino responde, mas ao invés de os dois saírem da minha frente para que eu possa enxergar os nomes, eles me encaram e começam a cochichar algo. — Você é aluna nova, né?

— Sou sim.

— Eu disse, Luciana! Por isso não tava te reconhecendo de nenhuma fofoca. Como é o seu nome?

— Manuela. Manuela dos Reis.

— Ah, a gente viu o seu nome mesmo! Você tá na nossa sala então, o 2ºA. — A garota diz sorrindo, mas eu não conseguiria sorrir de volta mesmo que quisesse, com o humor que estou. — Seja bem-vinda. Eu sou a Luciana, pode falar comigo se precisar de qualquer coisa.

— Seja bem-vinda, meu nome é Danilo. Você deu sorte de estar na única sala que tem eu. — O menino dá risada. — Tô brincando, mas que é verdade, é.

— Obrigada! — Respondo, tentando não parecer tão baixo-astral como estou. — Se eu precisar de alguma coisa falo com vocês, obrigada mesmo.

Os dois sorriem por alguns momentos, até que, de repente, Danilo vê alguém atrás de mim que parece o deixar realmente animado.

— Amiga, socorro, olha lá quem chegou!

— Onde?! — Luciana pergunta, procurando esta pessoa por todos os lados.

— Ali, Lu, perto da biblioteca! — Ele aponta com uma mão e cobre o rosto com a outra, que ficou mais vermelho do que as camisetas do uniforme ou as paredes.

— Ai, meu Deus, Danilo, já disse pra você desapegar do Leonardo! Você quer ir lá com ele?

— Só se você for comigo, se eu for sozinho eu fico com vergonha.

— Então tá, fazer o quê? Manuela, a gente já vai indo, tá? — Luciana se vira para mim novamente. — Se precisar de alguma coisa, já sabe, é só chamar.

— Tudo bem. Pode deixar que eu chamo, obrigada por tudo. — Não posso negar que fico um pouco aliviada por estar sozinha de novo.

Depois de alguns minutos, escuto uma música tocar e vejo todos os alunos entrando em suas salas.

Tudo é Rouge, meu jeito de viver

É só olhar pra dentro que você vai ver

Tudo é Rouge, essa é a realidade

Você pediu, o Rouge invadiu a cidade

Acredito que seja o sinal para o começo da primeira aula. Pego minha mochila, que estava do meu lado, no chão, e procuro a sala do 2ºA.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.