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17 Passado - PARTE 1


Notas iniciais
Então, o cap ficou absurdamente muito grande, aí estou dividindo ele, acho que serão duas partes (ainda não terminei de escrever, pois é), mas dependendo do que aconteça, podem acabar sendo três.
E está uma droga. Só pra avisar. Não só esse trecho, o cap todo. Bom, taí. Leia por sua própria conta e risco de ficar morrendo de raiva de mim.

Eu seguia os campistas de Apolo até a enfermaria – ou pelo menos era isso que aparentava. Queria ser eu a carregar Leon, mas eles não pareciam estar muitos dispostos a deixar alguém que não fosse um dos “profissionais” nem ao menos chegar consideravelmente perto dele.

A cada passo, me sentia ainda mais atraído para ele. Era como... magnetismo. Não havia exatamente uma explicação coerente para isso, só era assim e pronto acabou.

Parecia ser um sonho – não um desses sonhos estranhos de semideuses, um sonho de pessoa normal, daqueles que retratam nossos desejos – Leon estar sólido. Eu podia tocá-lo. Essa ideia no começo me apavorara, fazendo com que ficasse parado no chão, encarando-o como um idiota.

Acordei obviamente por causa de Mike. Se não fosse ele, talvez estivesse parado lá até agora. Realmente havia algo estranho no que eu pensava dele agora. Não era repulsa, obviamente, mesmo ele tendo me beijado.

Entendia o motivo de ter de escolher entre Leon e Mike. Se fosse um caso de amigos, poderia simplesmente ignorar o que me disseram e continuar amigo dos dois. Só que, mesmo parecendo estranho, amigos não era mais suficiente.

Leon nunca continuaria meu amigo caso escolhesse Mike. E, percebi isso pelas ações “reconfortantes” dele na orla da floresta, Mike nunca me deixaria simplesmente ficar com Leon. Estava preso no meio de uma encruzilhada, na qual todos os lados levavam a alguma armadilha.

— Ei, babaca! – alguém atrás de mim gritou, provavelmente falando comigo. Ignorei, entretanto a pessoa me atirou uma pedra no meio das costas.

Continuei andando, agora sabendo perfeitamente quem era. É claro, depois de tanto tempo de convivência com essa garota no pé de Mike, era impossível não saber pelo menos a mais insistentes de suas manias.

- Eu sei que você não quer falar comigo. Eu também não quero falar com você. Só queria te perguntar o que aconteceu pro Mike sair do seu chalé como se tivesse visto uma Benevolente.

Parei no lugar, cerrando os punhos. Então ele realmente tinha saído possesso, só fingira estar calmo. Mas eu não queria falar com ela. De jeito nenhum. Me recusaria a admitir sua existência, se possível.

- Nada. – falei, sem me virar, sabendo que ela ouviria. – Não precisa se preocupar. Não foi nada de mais, tivemos uma pequena discussão.

Ao contrário do que imaginei, ela engoliu rapidamente a mentira. Quase que pude sentir sua presença se afastando, como se o ambiente ficasse mais calmo quando ela ia embora.

Corri para voltar a acompanhar os filhos de Apolo até a enfermaria. Já haviam levado Holly, aparentemente, porque ela não estava em lugar algum. Estávamos quase chegando quando um ruído ensurdecedor percorreu o Acampamento.

Pedras. Toneladas de pedras desabando. Dessa vez, virei assustado. A princípio, não consegui encontrar a origem do barulho, então minha visão repousou sobre a arena.

Estava destruída. Totalmente. As paredes haviam caído – estranhamente, todas para dentro – esmagando qualquer um que estivesse treinando no momento. Alguns xingamentos vieram do grupo de Apolo.

- Levem-no para a enfermaria – o conselheiro, Josh, apontou para os dois que carregavam Leon – os outros venham comigo. As coisas estão ficando feias.

Agora o dilema: eu continuava o caminho até a enfermaria ou voltava com os outros? O que era mais importante, Leon ou a vida de vários outros campistas?

- Se quiserem – disse, interrompendo a conversa dos campistas do chalé 7 – eu posso levá-lo. Vocês podem ir ajudar com a arena.

- Tem certeza? – um deles perguntou – Ele é meio pesado.

Olhei para o garoto com minha melhor expressão de “você deve estar tirando uma com a minha cara”. Ele deu de ombros e empurrou Leon para meus braços. Tremi quando senti sua pele fria na minha. É claro que é fria, seu imbecil. Leon pode estar sólido, mas ainda está morto.

Por algum motivo, parecia errado dizer “está morto”. O certo era “ainda está morto”. Como se ele fosse reviver ou algo assim.

Voltei a andar em direção à enfermaria. Andava lentamente, prologando o momento. Eu gostava de carregá-lo. Se bem que seria ainda melhor se Leon estivesse acordado.

Cheguei na enfermaria pouco tempo depois. Argos estava sentado num canto, observando as camas. Metade delas estava ocupada por filhos de Ares, e algumas outras por outros campistas também inconscientes, provavelmente desmaiados depois do susto de ver um garoto surgir do nada.

Deitei Leon em uma das camas vazias e puxei uma cadeira para sentar ao seu lado. A cena me lembrou algo que acontecera no passado, parecido, quando fiquei a noite toda ao lado de Mike, ele quase morrendo por causa de um ferimento estúpido no peito.

Comecei a me sentir sonolento. Estranho. Estava completamente desperto há, tipo, dois segundos antes, contudo agora era quase impossível manter os olhos abertos. Quase que pude ver meu corpo tombando para a frente, meu rosto encostando no peito de Leon enquanto eu cedia para o que deveria ser mais um daqueles sonhos inúteis de semideus.

A primeira coisa que notei foi: aquilo não era um sonho normal. Sonhos de semideuses já não eram normais, mas aquilo não era normal num nível além disso.

Tive vislumbres estranhos de uma infância que não era minha – e ao mesmo tempo, era. Uma mulher que devia ser minha mãe me levando para um parque e me abandonando lá. Aquilo que devia ser um leão se transformando no que devia ser um grifo e tentando me atacar.

O pequeno “eu” foi salvo por um grupo de campistas do Acampamento, que por algum motivo pareciam estar ali para me resgatar. Apenas por isso.

Entendi perfeitamente o que estava acontecendo. Eu estava vendo minha vida. Não a minha vida agora, mas minha vida passada. Aquela na qual eu conhecera Leon quando ele ainda estava vivo.

Mais borrões. Estava tendo foco apenas nos acontecimentos importantes. Na primeira grande lembrança eu devia ter uns sete ou oito anos. Quando parou mais uma vez, era um garoto de ao menos treze.

Estava no chalé 13, porém haviam muitos campistas. Mais velhos e mais novos. O chalé estava completamente lotado. Era tão diferente do presente que chegou a me deixar desconfortável.

Não mais desconfortável do que o “eu” do passado tinha ficado. Ele parecia ser ainda mais anti-social que eu, cortando a conversa com qualquer um que viesse falar com ele, tentando se isolar.

Havia deixado apenas duas pessoas se aproximarem, dois únicos amigos. Uma dessas pessoas era uma garota de longos cabelos negros, pele um pouco avermelhada, indicando uma descendência indígena, e olhos pretos e profundos. Minha irmã. Minha muito, muito amada irmã, um ano mais nova que eu.

A outra pessoa era facilmente reconhecível. Um garoto de cabelos loiros bagunçado, desajeitado, olhos castanhos da cor do tronco de uma árvore saudável. Senti um aperto no peito ao notar que conhecia Mike da minha vida passada.

"Você tem que parar de se afastar de todo mundo!" minha irmã brigava, com um expressão magoada.

"Desista, Heloise. Ele não vai te ouvir." Mike passou o braço pelos ombros de Heloise, e eu achei perfeitamente normal. Sentia um pouco de ciúmes, percebi, porque meu melhor amigo e a única irmã minha que falava comigo estavam namorando.

"Nicholas" ela disse com uma voz doce "tente, pelo menos, parar de ameaçar todo mundo de morte. Está pior do que os filhos de Ares ultimamente".

"Calem a boca" respondi rispidamente "eu não quero a opinião de vocês. Não quero a opinião de ninguém. Vocês estão aqui porque querem ficar comigo, mas eu nunca disse que queria a sua companhia.”

Heloise bateu o pé e deu as costas, resmungando que era por isso que todos tinham preconceito contra os filhos de Hades. Mike continuou do — meu? — lado, me encarando, esperando ter alguma reação. Depois de um tempo, pensei que iria desistir, porém me empurrou, nós dois caindo no chão e rolando pelo gramado.

Algo me disse que Mike não mudara muito de sua vida anterior.

“O que você quer?” perguntei, empurrando-o de cima de mim e sentando novamente. Não era exatamente o que eu faria nessa situação. Se fosse eu, provavelmente riria e conversaria um pouco antes de empurrá-lo.

“Não seja tão rude com ela. Você sabe muito bem que Heloise sofre por sua causa, quando você afasta todas as pessoas dela. Só porque você quer ser anti-social, não precisa arrastá-la junto.”

“Isso não tem nada a ver com você. Pare de se meter na minha vida.”

“Pensei que nós éramos amigos.”

“Você pensou.”

Os borrões voltaram. Parecia que eu vivia em hiato, nada era realmente importante. Não tinha nada especial em mim. Haviam passados mais tristes, histórias mais interessantes, e vários outros campistas do mesmo chalé.

Era só mais um semideus que nunca teria qualquer marca na história, e isso me deixava depressivo e vazio.

Não aconteceu nada por um bom tempo, até chegarem os meus 16 anos. A mesma idade que tinha agora. Um campista novo estava causando problemas, e Quíron pedira que eu – o inútil que não faria a menor falta – fosse tentar resolver as coisas com ele.

O garoto havia se trancado no galpão de armas, não respondia a ninguém e nenhuma pessoa que entrara para tirá-lo dali tinha voltado. Pelo menos não com vida.

Sem a mínima preocupação com a morte, abri as portas violentamente e entrei. De algum modo, elas se fecharam às minhas costas, me prendendo na escuridão.

“Eu sei que tem alguém aí.” Chamei, contudo não houve resposta. Me atirei no chão por instinto quando um machado passou voando perto da minha cabeça.

“Vá embora” uma voz gutural rosnou “vá agora, e talvez eu não te mate.”

“Dez pessoas já entraram aqui. Não me diga que você matou todo mundo?”

“Eu... Não queria. Mas mato as pessoas, assim, sem perceber. Algumas vezes só queria assustar, ou lutar.” Novamente, um pequeno silêncio “Não interessa.”

“Olha, eu não tô nem aí se você matou quinhentas pessoas e o presidente dos EUA. Só preciso que você saia daqui pra poder voltar pro meu chalé em paz. Tá difícil?”

“Não quero. Se eu for lá fora, vão me expulsar. Não quero mais ficar andando por aí sem rumo.”

Lentamente, segui a direção da voz. Encontrei um garoto encolhido no chão, segurando uma espada ensanguentada, um corpo estendido ao seu lado. Ele arregalou os olhos. Uma pessoa normal não enxergaria bem ali, porém eu já era acostumado.

“Você é menor do que eu imaginava.” Resmunguei “Agora larga isso aí e vamos sair.”

“Eu não vou!” o garoto apontou a espada para mim. Certo, ele também enxergava no escuro. Seus olhos emitiam um estranho brilho prateado. “Desculpe. Vou te matar agora.”

Então eu fiz a coisa mais idiota o possível. Com um braço, afastei a lâmina, enquanto me atirava em cima dele e o derrubava, entretanto, antes que ele atingisse o chão, segurei sua camiseta e girei, fazendo-o cair em cima de mim.

O garoto gritou, agarrando a frente da minha camiseta com força. Ele tremia, parecendo não saber exatamente como reagir. Eu também não sabia. Aquilo era uma ação típica de Mike, não de mim.

“Ah... Uhm... M-me solte?”

“Você está perfeitamente solto” retruquei “quem está agarrando minha roupa é você.”

“Eu vou te matar.”

“Sabe de uma coisa? Eu não ligo.”

“Como assim?”

Ele saiu de cima de mim, sentando envergonhado. Me sentei também. O garoto mexia as mãos, nervoso, como se não costumasse ter contato verbal com outros seres humanos. Pensando bem, eu também não.

“Não vai ter muita diferença para mim. Viver ou morrer, sabe.” Parecia ser uma boa ideia enrolar uma conversa, então continuei “A maior parte das pessoas que eu falo estão mortas, e pelo menos se eu morrei posso ir para o Mundo Inferior. Devo ser o único filho de Hades que, com essa idade, nunca esteve lá.”

“Você é filho de Hades?” confirmei com a cabeça “Então deve ser por isso que consegue ver direito nesse escuro, não é? Legal.”

“E você? Tem alguma ideia? De que deus é filho, quero dizer. Você pode também ser filho de Hades.”

“Não...” ele murmurou “Não sou filho de Hades. Sei perfeitamente de que deus sou filho, só não disse nada porque queria que ele me contatasse. Pelo menos que reconhecesse minha existência.”

“Então quem é?”

“Eu sou filho de Tânatos. O deus da morte.”

O garoto me olhava como se tivesse acabado de declarar minha sentença num tribunal. Não demonstrei nenhuma reação por um tempo, até ele desviar os olhos, desconfortável. Abraçou os joelhos.

Não conseguia entender como alguém com uma aparência tão frágil poderia ser tão psicopata. Ele parecia ser aquele tipo de pessoa que precisa ser protegida, contudo matava todos antes que pudessem demonstrar qualquer afeição.

“Certo.” Disse finalmente “Então porque você é filho do deus da morte tem que sair por aí matando todo mundo? Você ainda quer me matar?”

“Não quero te matar. Você foi o único que já conversou comigo normalmente. O único que conseguiu me despertar do...” se interrompeu, e não parecia disposto a continuar.
“Fico feliz com isso.” Menti. Depois pensei melhor e resolvi falar a verdade. “Não, eu não fico feliz. Na verdade, acho tudo isso um saco. Principalmente o fato de que você não sai daqui logo de uma vez. Eu não posso sair sozinho, ou vão me jogar aqui dentro de novo.”

Ele mordeu o lábio inferior.

“Posso pelo menos saber seu nome?”

“Nicholas. E você é?”

“Liam. Eu sei, é meio estranho..”

“Não. Eu achei legal.” Sorri. Não sei porque, mas sorri. O garoto corou, como se nunca tivesse visto um sorriso dirigido a ele antes. Eu também tinha a sensação de que nunca havia sorrido para alguém daquele modo.

Quase reclamei quando entrei novamente em hiato. A cena se distorceu, e o tempo passou num piscar de olhos. Menos, desta vez. Parecia que depois de conhecer Liam – que eu tinha certeza que era Leon – não estava mais tão vazio quanto antes.