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18 Passado - PARTE 2
Notas iniciais
Ah, o narrador continua sendo o Nicholas (duh), já que é só a outra parte do capítulo anterior (duh).
Mike não gostara do garoto na primeira vez que o vira. Sentia que nunca conseguiriam ser amigos, porém o eu do passado deixou pra lá. Não parecia ter tanto apareço por Mike, de qualquer jeito, e “ele tinha Heloise”.
Dois meses depois, estávamos eu e Leon – Liam, me corrigi – andando pela floresta. Não conversávamos, mas o silêncio não era incômodo. Ele tinha um pequeno sorriso no rosto, como se estivesse feliz por estar comigo.
Eu estava feliz por estar com ele.
“Nicholas” Liam me chamou. Me virei para ele. Era um garoto de 14 anos, magrelo e indeciso. Quanto estava em sua consciência.
Descobri o motivo de ele matar as pessoas pouco tempo depois do incidente no qual o conheci. Ele tinha uma maldição, que não fora lançada por ninguém, apenas nascera com isso, que o fazia agir como um monstro.
Liam contara como era horrível ver seu corpo se movendo, sem poder impedi-lo de trucidar tudo a sua volta. Como matara sua mãe cruelmente, e continuara agindo desse modo por toda sua vida.
A princípio, eu não tinha entendido o motivo daquela lembrança ser importante. Parecia ser apenas um passeio a tarde, nada de mais.
Andamos até a beira do lago e nos sentamos, observando o sol que começava a se por. Que se dane se era um deus dirigindo seu carro, o por do sol continuava sendo um evento admirável até mesmo para semideuses.
Minha mão deslizou pela grama até segurar a de Liam. Nos aproximamos mais, nossos ombros já se tocando, numa intimidade e desejo maior do que apenas o de amigos. Já conseguia prever o que viria a seguir, porém admito que me surpreendi um pouco quando me inclinei para frente e o beijei.
Eu sabia que aquele era o primeiro beijo do antigo Nicholas, contudo isso não parecia me impedir de continuar o ato admiravelmente. Com a outra mão, acariciei o rosto dele, e ele tombou a cabeça, apoiando-se. Seus cabelos faziam cócegas em minha face e pulsações desconhecidas percorriam meu corpo como pequenos choques elétricos.
Depois de algum tempo, nos soltamos. Encostei minha testa na dele e o observei corar. Imaginei que deveria estar tão corado quanto ele. Sorri enquanto o encarava, ele desviando o olhar, como se tivesse medo de que caso nossos olhos se encontrassem, perderíamos o controle.
No final, não precisamos de uma troca de olhares para isso.
Nossos lábios se buscaram mais uma vez, mais violentamente. Liam ergueu as mãos e abraçou meus ombros, minha mão que agora estava livre segurou suas costas. Parar não era mais uma opção. Parecia que havia vivido tudo vazio até aquele momento apenas para que pudesse desfrutar melhor.
Não entendia direito porque aquilo era tão... irresistível.
Avancei, abrindo sua boca. Ele não resistiu. Estava tão ansioso quanto eu — e eu não queria mais pensar naquele Nicholas do passado como sendo a mesma pessoa que eu sou, porque, afinal, nunca teria coragem de derrubá-lo no chão, deliberadamente assumindo o controle.
No chão, minha mão começou a tentar entrar por debaixo da camiseta de Liam. Não era uma ação incontrolável, ele ou eu tinha a intenção de fazer isso. O garoto tremeu, me puxando mais rente.
Sabia que aquilo não ia dar certo antes mesmo do grito assustado vindo de algum lugar que não era importante. Ficamos paralisados, interrompendo a dança obsena que nossas línguas faziam, o único pensamento na mente era algo como "ferrou".
De pé ao nosso lado, estava Mike. Ele nos olhava com uma expressão de puro ódio. Saí de cima de Liam, sem dizer nada, e fui embora, largando os dois ali para resolverem o que quiserem sozinhos. Ninguém me impediu de simplesmente entrar no meio das árvores e desaparecer.
Eu não queria entrar em hiato mais uma vez. Eu queria dar um jeito de aparecer naquelas lembranças, e me socar até ter traumatismo craniano. Aquele garoto não era eu. Não podia ser eu.
Um pensamento horrível me ocorreu.
E se... depois que este sonho acabar... depois que eu acordar... e se eu não pensar mais como agora? E se eu voltar a ser aquilo que era antes?
Não queria ver mais nada. Simplesmente não queria. Quando os borrões voltaram, forcei-os, sei lá como, a continuar, impedindo uma nova pausa. Entendi facilmente o que era, se passaram alguns meses, minha relação com Liam se tornara ainda mais íntima e estávamos saindo para uma missão, eu, minha irmã, Mike e ele.
Contudo, não consegui impedir um certo ponto.
Era noite. Todos estávamos exaustos, tentando voltar para o Acampamento depois de duas semanas numa missão inútil. Não conseguimos fazer o que nos fora proposto, e desistimos antes que alguém acabasse morto.
Não deu muito certo.
Liam andava um pouco atrás de nós. Encarava os pés que se moviam lentamente, produzindo uma expressão sombria. Eu estava muito ocupado mancando com uma ferida enorme na coxa esquerda para me lembrar que isso era um mau presságio.
Entramos num galpão abandonado para descansar um pouco. Não pretendíamos passar a noite inteira viajando, de qualquer modo. Heloise se ofereceu para montar guarda enquanto nós dormíamos, porém eu recusei e disse que ficaria no lugar dela.
Ela era a única que estava num estádo razoável. Eu a protegera tanto, de tantas formas, que a garota chegara a reclamar. Ter um irmão superprotetor não devia ser legal para nenhuma pessoa, principalmente se o irmão em questão fosse eu.
Foi aí que Liam se levantou, segurando uma faca de bronze celestial, e a atacou. Eu vi a expressão em seu rosto antes que abaixasse a cabeça para ter uma visão melhor da vítima. Ele estava louco. Pura e simplesmente louco. Os olhos arregalados, a boca aberta num sorriso sádico e psicopata.
A faca desceu sobre o ombro de Heloise, rasgando a pele e espirrando sangue para todo lado. Ela berrou de dor, tentando fugir, entretanto o garoto era mais forte que aparentava. Segurou o braço dela e o torceu, quebrando o osso audivelmente.
Eu fiquei parado. Parado olhando minha amada irmã ser trucidada por meu amado — concluí, relutante — namorado. Ele não parecia satisfeito em matá-la. Rasgou seu corpo, enchendo o local com o sangue vermelho e o cheiro de feridas expostas. Parecia se divertir fazendo isso.
Abandonou uma Heloise destroçada e irreconhecível num canto, olhando para mim. Limpou a faca na camiseta, mais sujando a roupa do que realmente limpando a lâmina, e começou a avançar lentamente em minha direção. Não parecia me reconhecer. Talvez até reconhecesse, mas não se importava com isso.
Ainda congelado no lugar, tentei gritar, mandá-lo parar. Não conseguia. Até mesmo minha respiração parecia não funcionar mais. Meu cérebro estava entrando em pane. Nunca havia me sentindo tão aterrorizado em toda minha vida — nessa ou na anterior. Não era simplesmente um medo de morrer, era um medo de me defender e acabar ferindo uma pessoa importante.
Liam chegou mais perto. Podia ouvir o som de sua respiração agora. Lenta e ritmada, não ofegante, como alguém imaginaria que a respiração de um psicopata prestes a matar alguém seria. Não existia mais nada. Tudo havia se tornado um túnel de escuridão no qual a única coisa visível era a do garoto de cabelos castanhos desordenados, coberto de um sangue que não era seu.
Mais três passos e estaria tudo acabado. O tempo desacelerava, ou talvez ele fazia isso de propósito, para aumentar meu terror. Não me importava qual das opções. Podia sentir a morte eminente, meus últimos segundos de vida passando. Fechei os olhos.
Pode ter sido um ano depois, assim como pode ter sido apenas um milésimo de segundo, quando um grito ainda mais agudo que o de Heloise ressoou. Primeiramente, imaginei que seria meu, entretanto, quando a dor não veio, comecei a estranhar. Tinha um mau pressentimento, e um aperto profundo no peito.
Um rosnado se prosseguiu ao grito, depois o som de lâminas se chocando. Um gemido de dor. Caixas sendo derrubadas. O líquido espesso se espalhou pelo chão até encostar em minha mão caída. Era quente. Queria saber o que acontecia, mas a coragem se fora. Num esforço absurdo, consegui meramente entreabrir um dos olhos.
Próximo a mim, estendido com um canivete cravado no pescoço, jazia Liam. A imagem de seu rosto morto me perseguiria por toda a eternidade, onde quer que eu fosse. Tentei estender o braço em sua direção, porém meu corpo continuava relulante em me obedecer.
O mais chocante de tudo foi que seu corpo, inexplicavelmente, começou a de desfazer numa absurda nuvem de areia, como os monstros quando são destruídos. Este era o resultado de sua maldição. A partir daquele momento, o garoto que eu conhecia e amava não mais existia.
Observei os últimos grãos sumirem pelos ares enquanto meus sentidos lentamente desapareciam. Alguém me abraçou e sussurrou em meu ouvido palavras de consolo que não me alcançariam. Primeiro tudo ficou negro, depois não havia mais aquele gosto azedo do medo em minha boca, o cheiro da morte não mais chegava à mim, a sensação dos braços que me envolviam deixava de existir.
A última lembrança que tive daquela noite foi a voz assustada de Mike chamando pelo meu nome e minha total incapacidade de dizer para ele calar a droga da boca.
Acordei assustado no dia seguinte. Não queria abrir os olhos, fingir que tudo aquilo fora um sonho seria uma ótima ideia. Contudo, eu sabia que era a verdade. Abri os olhos poucos segundos depois de despertar e, sem titubear, olhei em volta em busca dos cadáveres — ou melhor, do cadáver de Heloise, já que Liam desaparecera.
"Ei, calma aí." Mike apareceu à minha frente, segurando dois pequenos pacotes de papel. "Vamos, coma algo antes de começar a se martirizar." disse, jogando um deles para mim.
Meus reflexos ainda não estavam muito bons, então a embalagem caiu no chão. Antes que pudesse sequer virar o rosto, Mike já tinha pego e sentado ao meu lado, estendendo-a para mim.
Olhei bem para seu rosto. Estava ainda mais exausto do que antes e um corte atravessando seu rosto, muito rente ao olho direito, deixara metade de sua face coberta de sangue seco. Mesmo assim, deu um de seus sorrisos característicos.
"Não me diga que quer que eu dê na sua boca." provocou. Puxei o pacote se sua mão com violência e o abri. Haviam alguns donuts cobertos de açúcar ali dentro. Peguei um deles pela ponta dos dedos e olhei emburrado para Mike.
"Você sabe muito bem que eu odeio coisas muito doces."
"Desde quando? Você é um dos maiores maníacos por doces que eu conheço!" continuei encarando-o por um tempo, até que ele desviou o rosto e murmurou "Estavam em promoção e eu não queria roubar nada."
Comemos em silêncio. Eu queria socá-lo e gritar, perguntando por que matara Liam, mas a justificativa era boa demais para que eu pudesse revidar. Se Mike não tivesse o matado, eu estaria morto agora, e talvez ele também.
"Vamos voltar para o Acampamento e contar tudo o que aconteceu detalhadamente e com calma." Mike suspirou "Se bem que duvido que acreditem em tudo."
"Calma? Que calma, seu idiota? Vai contar com calma como Liam matou minha irmã? E depois vai contar com calmacomo você matou ele?" rosnei. Estava perdendo a paciência.
"Eu sei. Eu sei! Mas se eu não tivesse feito nada, você..." ele não completou a frase. Respirou fundo e olhou para o teto. "Você também sabe. Não tinha outra opção. É... é a vida. Somos semideuses."
Nessa hora, me levantei e fiz o que me parecia mais sensato. Dei um chute em seu estômago. Mike caiu e começou a tossir, colocando a mão na frente da boca. Quando a retirou de lá, alguns respingos de sangue manchavam a palma.
"Isso é por ter matado Liam." virei as costas e já estava saindo do galpão quando ele me segurou pelo braço. Puxei, mas ele não soltou. "Me larga!"
"E isso" sussurrou, quase que baixo demais para que eu ouvisse "é por não dar consideração à pessoa que salvou a sua vida."
Imaginei que ele me derrubaria com um soco ou algo assim. Ao invés disso, apenas me abraçou por trás e ficou ali, respirando no meu pescoço. Não conseguia me livrar dele.
"Você devia estar triste também. Heloise morreu. Você amava ela, não é? Então por que mesmo assim sorriu?"
"Eu não... eu nunca amei sua irmã, Nicholas. Gostava muito dela, é verdade, mas nunca amei. Eu amava outra pessoa. Ela só era... meu único meio de estar perto da pessoa que eu amava."
Aquelas palavras foram o cúmulo. Girei, acertando seu rosto bem em cima do corte com o punho cerrado. Ele gritou de dor e se soltou. A ferida voltou a sangrar.
"E quem é? Quem foi que você amou por todo esse tempo, ao ponto de usar ela? Me diga logo quem é, assim posso matar ela e você junto!" berrei, sentindo que a razão me fugia.
"Eu não faria isso se fosse você" ele disse, sombrio. Foi a primeira vez que vi Mike sombiro daquele jeito. "porque se você matar eu e a pessoa que eu amo, não vai voltar ninguém dessa missão pro Acampamento."
Demorei um pouco para processar aquelas palavras. Mike gostava... de mim? Na vida anterior, é claro. Se bem que se... se eu considerar que este aspecto continua... muitas coisas fariam mais sentido. Talvez fizessem, mas isso só me deixava ainda mais confuso.
Então não era eu que inconscientemente gostava um pouquinho de Mike ou algo assim, era ele quem estava apaixonado por mim? Por isso eu deveria escolher entre ele e Leon?
Complicado. Não quero ferir os sentimentos de ninguém, só que se continuar assim, quem vai se ferir no final sou eu.
A minha versão do passado não pareceu se preocupar com o que qualquer outra pessoa sentia, porque assim que Mike terminou de falar, me levantei e dei um chute exatamente em cima do enorme corte em seu rosto.
O garoto berrou de dor e rolou pelo chão, segurando o rosto onde a hemorragia voltava com força. Logo havia uma poça de sangue ao seu lado, manchando suas roupas — não que fizesse muita diferença, já estavam cobertas de vermelho.
"Não tente despertar minha compaixão." rosnei "Eu aprendi a não ter esse tipo de coisa. Lembra? Eu não tenho amigos."
"Não... Não é isso" Mike gemeu "Eu estou falando sério... Nicholas, por favor. Eu te amo. Sei que você amava o Liam e sei que me odeia por tê-lo matado, mas eu não podia deixar você ser morto. Sua vida é mais importante pra mim do que a minha."
"E a vida dele era mais importante pra mim do que essa merda que eu tenho agora!" gritei. "Se eu sou tão importante pra você, por que não levou em conta que suas ações só me deixariam com mais raiva? Você pode ter matado Liam para me proteger, mas nunca vai conseguir uma boa desculpa para ter usado Heloise. Aquilo não é o suficiente. Existem outros meios de se aproximar de alguém, até eu sei disso. Eu não vou te perdoar. De jeito nenhum, nunca."
Mike arregalou o olho esquerdo, o direito ainda fechado e coberto de sangue. Com dificuldade, se arrastou até perto de meus pés, ajoelhou-se e estendeu a cabeça para frente.
"E o que você quer fazer, Nicholas? Quer me matar? Mate. Não tenho problemas com isso. Você tem razão. É o mínimo que eu mereço por ser tão idiota." murmurou para o chão, porém eu ouvi perfeitamente.
Me virei, procurando uma arma caída, e encontrei uma espada intacta jogada num canto. A espada de Heloise. Nada mais justo que ele morrer pela espada da garota que usou, pensei, pegando-a e voltando para onde Mike estava. Encostei a lâmina uma vez em seu pescoço e a ergui, pronto para dar o golpe final.
Já estava quase decapitando-o quando lembrei-me das últimas palavras que ele havia dito. "É o mínimo que mereço", não é? O mínimo. É verdade. Ele merecia mais do que aquilo. Merecia mais do que a simples morte pelas mãos da pessoa amada. Sim, ele merecia sofrer. E o melhor meio de fazê-lo sofrer seria...
"Mudei de ideia," disse, a voz assumindo um tom cínico "não vou te matar. Fique vivo. Só que em troca disso, eu não quero que você apareça de novo na minha frente. Nunca mais. Se você aparecer, eu vou contar tudo o que aconteceu aqui, mas retirando a parte da maldição de Liam da história. Vou dizer que você fez Heloise brigar com Liam, e quando ele a matou, você atacou-o sem piedade. Que tal?"
Ele estremeceu. Resmungou algo como "então era mesmo uma maldição", depois pôde-se ouvir o som de soluços. Estava chorando. Não importava. Meu coração agora era mais frio do que gelo. Seu sofrimento apenas me daria mais forças.
"Tudo bem. Se é o que quer... qualquer coisa." respondeu "Só peço que voltemos juntos para o Acampamento. Depois disso, eu vou embora. E você nunca mais vai me ver. Por toda a eternidade."
Isso é uma baita de uma mentira, ponderei. Eu vejo ele todo dia há anos. O Nicholas antigo deveria tê-lo feito jurar pelo Estige ou algo assim. Do jeito que foi, tinha a palavra do garoto, contudo não havia nada garantindo que ele iria mantê-la.
Pendurei a espada em meu cinto sem me dar ao trabalho de procurar uma bainha. Não devia ter nenhuma, de qualquer jeito. Respirei fundo e virei as costas.
"Se quiser vir junto comigo, levante logo daí. Levante e venha. Seu lerdo estúpido."
Ouvi o som dele se levantando e, finalmente, entrei em hiato mais uma vez. Lembranças indistinguíveis de um ou dois dias de viagem sem nenhum acontecimento minimamente interessante.
Não tentei impedir mais uma parada. Podia estar traumatizado com o que ocorrera anteriormente, entretanto se deixasse algo importante passar despercebido, talvez depois se tornasse mais massivo. Eu não precisava disso.
Agora já estávamos em Nova York. Anoitecia. Estávamos em uma rua velha e suja, com prédios abandonados e becos com cheiro de... com um cheiro desagradável. Era uma visão rara na enorme cidade, mas sempre tem um lugar assim em qualquer metrópole.
Alguns garotos de gangue pareceram querer se meter conosco, porém recuaram ao avistar minha espada, assustados. Não faço ideia do que viram. As pessoas nas ruas eram em sua maior parte mendigos e drogados. Não era um lugar agradável, mas seria onde passaríamos a noite.
Não dormíamos desde o incidente. Mike não desgrudava os olhos de mim em momento algum e já estava começando a ficar incômodo. Eu olhava tudo e não via nada. Só queria chegar ao Acampamento em paz, contar o que havia acontecido e voltar à minha vida pacata de semideus sem importância — ou quase voltar.
Chutei a porta de um prédio aleatório e entrei, Mike em meu encalço. Não havia necessidade de conversar. Não havia necessidade de utilizar o cérebro pra droga nenhuma.
Uma criança de uns 10 anos de idade olhava para nós boquiaberto, tentando se esconder numa porta aberta. Ele apontava para o rosto de Mike — o qual estava adquirindo uma cicatriz bem feiosa que o impedia de dar um sorriso completo ou abrir o olho direito sem sentir muita dor. Logo a mãe do menino chegou. Deu uma pequena olhada em nós e puxou o filho para dentro sem dizer uma única palavra.
Andamos por um corredor longo até encontrarmos um quarto vazio que fosse minimamente habitável. Entramos cautelosos, tendo certeza de que o chão não cederia. Logo eu estava sentado num canto, afiando a espada pela quinquagésima nona vez em vinte e quatro horas, e Mike olhava através da janela.
Fui ver o que ele encarava com tanto interesse, e notei que havíamos entrado em um prédio que ficava no meio de duas ruas com alturas diferentes. Podíamos ter entrado no térreo, porém olhando dali era como se estivéssemos no terceiro andar. Ruim. Aquilo dificultaria uma fuga caso fôssemos atacados por um monstro.
Ele se virou e olhou para mim. Relutante, encarei-o de volta. Era verdade que fora eu quem piorara seu ferimento, mas mesmo assim não gostava de ficar examinando seu rosto desfigurado. Tentou sorrir e fez uma careta de dor. Qualquer tentativa de expressão parecia-lhe uma tortura.
"Pare com isso." eu o repreendi "Se ficar mexendo muito, quando chegarmos ao Acampamento não vai conseguir curá-la direito."
Dessa vez, ele sorriu apenas com o lado esquerdo do rosto.
"Achei que não fosse mais falar comigo. Eu não me importo com isso. Talvez se tiver uma aparência bem feia, consiga assustar até os monstros."
"Cale a boca. Eu não queria falar com você. Não quero. Então... Ah, só cale a boca."
Mike aumentou o sorriso, porém seu olho não sorria. Ele apresentava tristeza e, incrivelmente, uma ternura que não podia ser demonstrada. Triste e carinhoso. Parecia ser um olhar que ele dirigia apenas para mim.
Ele avançou e me envolveu com os braços. Dei uma exclamação de surpresa e tentei me soltar, porém mesmo ferido, Mike ainda era mais forte fisicamente do que eu. Não me prendia com violência, entretanto também não parecia querer me soltar.
"Mas que merda?" perguntei, ainda lutando.
"Eu só queria fazer isso uma vez... Uma única vez. Obrigado, Nicholas. Chegue em segurança no Acampamento. Que os deuses te protejam." ele sussurrou em meu ouvido.
"Hein?"
Mike se afastou e chegou perto da janela. Antes que eu pudesse ao menos gritar "não!", deixou-se cair. Ele não gritou durante a queda. Menos de dois segundos depois, o som de ossos quebrando-se ao chocar-se com o chão alcançou meus ouvidos. Nem me dei ao trabalho de espiar pela janela para saber que o garoto se suicidara.
Por quê?, me questionei. Por que ele fez isso? Ele não disse que queria voltar junto comigo ao Acampamento? Não fora ele quem pedira isso? Por que ele se matara?
Por que eu me sinto como se Mike fosse fazer alguma falta?
Aquelas perguntas encheram a cabeça do antigo Nicholas e deixaram até eu mesmo confuso. Talvez porque... se ele se matasse, eu perceberia o quão ele era importante na minha vida? Se ele soubesse que voltaria, teria mais chances ao fazer isso?
Aquelas cenas do meu passado... poderiam interferir tanto assim nas minhas escolhas?
Hiato. Um hiato porque eu simplesmente entrara em hiato para o resto de minha vida. Algum tempo se passou. Eu cheguei no Acampamento. Gaguejei algo sobre o que acontecera sem entrar em detalhes. Treinei na arena. Participei da captura a bandeira mais algumas vezes. Dormi com o chalé de Hades. Depois daquilo, tudo o que acontecera era apenas um final entediante. Como um livro que tem bom desenvolvimento e clímax e um final devagar. Daqueles que você nunca vê necessidade de ler os últimos capítulos.
Um dia, na aula de canoagem, eu caí no lago. Ninguém se deu ao trabalho de me resgatar. Eu também não me dei ao trabalho de lutar para sobreviver. Morri ali, afogado, sem nada que me prendesse no mundo.
Eu não tive lembranças de meu tempo no Mundo Inferior. Depois de que meus olhos se fecharam no meio da imensidão azul das águas pela última vez, foi tudo escuridão. Preto e vazio. Só isso.
Agora... eu deveria acordar. Acordar e voltar ao meu tempo, meu mundo, minha verdadeira vida. Deveria usar o que aprendi para não cometer os mesmos erros. Deveria ser uma pessoa diferente do que fora antes.
Estava quase forçando-me a acordar por conta própria quando alguém muito gentilmente me derrubou da beirada da cama de Leon. Abri os olhos milésimos de segundos antes de bater com as costas no chão. Acima de mim, uma garota ruiva de cabelos curtos me olhava com desprezo.
- É Mike — ela cuspiu, como se fosse obrigada a dizer as palavras — Aconteceu algo... não muito legal. Ele estava dentro da arena.
- E daí? — resmunguei, sentido uma antipatia irracional vindo. Não queria falar com ela. Eu queria que Leon acordasse para que eu pudesse falar com ele. Ela não tinha importância. O que ela tinha a dizer também não.
- E daí — a garota afiou a voz — que a arena desabou. Ele está enterrado lá no meio dos escombros, muito provavelmente morto.
Ops. Talvez o que os outros têm a dizer tenha alguma pequena importância.
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